Agressões e Digressões
"Desejo que, se algum dia você sentir-se mal em um local onde não conheça ninguém, tenha por perto ao menos um estranho que possa segurar sua mão. Desejo isso também para mim."
Não ser apenas atendida de qualquer jeito, como se fosse um problema a mais.
Foi essa minha reflexão numa tarde qualquer, num dia de trabalho na delegacia de polícia. Esse pensamento me veio logo após um fato que presenciei naquela tarde.
Uma idosa, que estava sendo atendida na recepção, manifestou alguns sintomas que exigiam atendimento de emergência: desmaio, pressão alta, nariz sangrando. Por sorte, entre as atendentes que estavam próximas, havia uma que já havia sido técnica em enfermagem. Eram sintomas visíveis de um Acidente Cardiovascular, ela disse. Ela pegou um colchonete e pediu que a senhora se deitasse e ergueu suas pernas, isso melhoraria a circulação e enquanto isso outro servidor se ocupou em acionar os bombeiros.
Fomos informados de que não haviam macas de transporte. Já há algum tempo, a saúde pública do município estava em crise e não era a primeira vez que ouvíamos isso.
Nesse ínterim, a mulher estava consciente. Embora balbuciasse palavras desconexas e manifestasse certa agitação, eu segurei sua mão enquanto olhava em seus olhos. Perguntei o que ela sentia.
Ela, em sua confusão mental, pensou que eu fosse médica. Me pedia desculpas e ao mesmo tempo agradecia. Ela se acalmou e percebi em seu olhar um sentimento de gratidão e de esperança. Eu apenas segurei sua mão e lhe disse que tudo ia melhorar.
Ela havia procurado a delegacia com o intuito de registrar um boletim de ocorrência, devido ao fato de ser constantemente ameaçada pela ex-nora. Seu filho falecera há mais de cinco anos e a viúva deste a incomodava, por razões financeiras. Relatou que não tinha paz, era quase diariamente agredida verbalmente com diversos impropérios e que até sua saúde (física e mental) já estava comprometida devido a isso.
Naquele dia, inclusive, havia acabado de passar pela situação desagradável de ser injuriada e atormentada, o que a levou à displicentemente, esquecer de tomar os remédios de uso habitual, que lhe controlavam a pressão.
Diante do mal que sofria, relatou brevemente sua situação. Eu era apenas uma estranha. Mas percebi que lhe transmitia, num momento de dificuldade, o sentimento de consolo.
Depois de mais de quarenta minutos, após dois colegas se deslocarem até o SAMU e praticamente implorarem, uma ambulância chegou e a mulher finalmente recebeu atendimento.
Na semana seguinte, ela retornou à delegacia. Estava bem e ao perguntarmos sobre o diagnóstico daquele dia, ela nos respondeu que tivera um AVC, mas que apesar da gravidade, felizmente não deixou sequelas. Ela me reconheceu e me agradeceu, muito sinceramente, pela maneira com que conversei com ela naquele dia.
Provavelmente, nunca mais voltarei a vê-la. Mas a vida é sobre isso. Uma coleção de momentos, alguns desagradáveis - e que beiram ao desespero.
Nem sempre as situações são tão extremas, mas em toda parte estamos cercados de pessoas, vivendo seus dramas particulares, lutando contra seus monstros internos. Você já segurou a mão de alguém hoje? Quantas vezes alguém já segurou a sua quando você mais precisou?
Isso me fez lembrar uma certa ocasião em que estava sozinha, turistando no centro de Curitiba, quando em frente à entrada da Ópera de Arame, fui picada por um inseto e minha mão começou a inchar muito. Fiquei preocupada se iria manifestar algum tipo de reação alérgica mais grave. Eu estava sozinha, numa cidade em que não conhecia ninguém. Entrei no ônibus (aquele ônibus turístico em que se paga para subir e descer nos pontos turísticos, geralmente por 24 ou 48 horas). Enquanto passei pela catraca para a leitura do meu cartão, mostrei a mão inchada e vermelha para a atendente. Comentei o que havia acontecido e que estava com medo de ter uma reação alérgica mais séria, porque realmente inchou muito, sentia a mão esquentando. Não vi se foi uma abelha ou vespa. Mas que estava preocupada. Perguntei aonde era a farmácia mais perto no trajeto. Logo em seguida, uma moça que estava com uma criança, de uns três anos de idade, sacou de sua mochila uma cartela com comprimidos e disse: "toma um a cada 24 horas, é loratadina". Fiquei tão feliz. Um gesto simples, mas de uma empatia e uma sincronicidade que me encantaram. Tirei a garrafa d'água da mochila e imediatamente bebi um comprimido.
Desejo muito não perder a sensibilidade de enxergar isso a minha volta. Que eu jamais sofra do mal da indiferença ou da frieza.
Somos muito frágeis e estamos todos sujeitos à situações que não controlamos. Nunca sabemos o que pode acontecer no instante seguinte, por mais que sejamos organizados, por mais que tenhamos planejado nosso dia - ou nossa vida.
Estamos sujeitos ao imprevisível. Mas como é bom termos uma mão para segurar, ainda que por breves instantes. Ainda que seja a mão de um estranho.