Sobre-humano

[Continuação de "Bucatini all'amatriciana"]

Na manhã seguinte Gottardo procurou o seu chefe, o Dr. Migliore, em seu escritório. Sentados frente a frente, o rapaz foi direto ao ponto que o havia levado até ali.

- Receio ter que lhe incomodar novamente com meus problemas pessoais, Dr. Migliore, mas como houve uma interecessão destes com meu trabalho aqui, achei melhor vir lhe colocar a par de algo que vem me preocupando já há alguns dias.

- Sou todo ouvidos - replicou solícito o cientista.

- É essa situação que envolve Estella, minha namorada - esclareceu o rapaz. - Me parece que o envolvimento dela no desaparecimento do ex-noivo é maior do que ela quer admitir.

O Dr. Migliore lançou-lhe um olhar de simpatia.

- Sim, eu compreendo o que quer dizer, Gottardo - afirmou. - Eu mesmo, a princípio, estava inclinado a imaginar que sua namorada tivesse algo a ver com o sumiço de Proteo Lo Faro, e justamente por isso acionei meus contatos na polícia para levantar dados sobre a ida dela ao encontro do ex-noivo, nas montanhas.

Gottardo ergueu os sobrolhos.

- Antecipou-se a mim.

- Com a melhor das intenções - disse o cientista em tom apaziguador. - Se ela estivesse de algum modo envolvida, infelizmente eu teria que revelar uma parte da nossa incursão à cabana de Lo Faro às autoridades. Mas, para nossa sorte, essa meia verdade tornou-se desnecessária; os investigadores constataram que ela não tinha culpa no sumiço.

- Bem... e o que foi que descobriram, afinal?

O Dr. Migliore entrelaçou as mãos sobre a mesa.

- Ela realmente foi convidada por Proteo para as montanhas, onde ele mantinha o esconderijo, sob a justificativa de que precisavam acertar as contas do passado antes que ele a deixasse definitivamente em paz. Estella foi, e aguardou na estação ferroviária que ele fosse buscá-la, mas, como deve saber, ele não compareceu ao encontro.

Gottardo fez um aceno de cabeça.

- Suspeitei que Estella estivesse mentindo e que eles tivessem saído de lá juntos e, no caminho, ela houvesse dado um jeito de liquidar com ele e ocultar o corpo.

O Dr. Migliore semicerrou os olhos.

- Estella seria uma criatura extremamente perigosa se houvesse conseguido executar este plano. Mas não, com respeito à essa possibilidade, ela já foi excluída do rol dos supeitos pela polícia.

- E eles têm uma ideia do que aconteceu com Proteo, afinal de contas? - Perguntou Gottardo.

- Ele está morto - redarguiu com tranquilidade o Dr. Migliore. - As buscas ainda não se encerraram, mas isso já é dado como quase certo pelos investigadores.

- Mas por quê? - Questionou Gottardo, surpreso.

- A culpa foi da inteligência artificial desenvolvida por Lo Faro - prosseguiu o cientista. - Aparentemente, ele conseguiu colocar tanto da própria personalidade no sistema, que este passou a vê-lo como um concorrente em potencial, e tomou medidas para tirá-lo do caminho.

- Um concorrente... pelo quê? - Questionou Gottardo.

O Dr. Migliore recostou-se em sua cadeira.

- Não lhe parece óbvio, Gottardo? Estella, é claro. Lo Faro criou a inteligência artificial para que agisse em seu nome, para assegurar que ninguém se aproximasse ou quisesse permanecer por muito tempo junto dela. Mas, no fim das contas, o sistema passou a julgar o próprio Lo Faro como indesejável; afinal, ele podia monitorar Estella em tempo real, algo que seu criador não tinha a habilidade para fazer.

- E assim, ele resolveu eliminar o próprio criador - concluiu Gottardo. - Só não imagino como conseguiu fazer isso, sem ter uma existência física.

O Dr. Migliore deu de ombros.

- A partir do momento em que criamos a internet das coisas, uma existência física já não é mais necessária para que um crime seja cometido. Ao menos, teoricamente. Você pode controlar fechaduras, portas e janelas, o GPS de um automóvel e até mesmo a direção do mesmo. Daí a causar um acidente fatal, não vai uma grande distância.

- E ninguém iria suspeitar de que o acidente foi, na verdade, um assassinato - ponderou Gottardo.

- Assim é - replicou o cientista. - Mas você não tem mais com o que se preocupar. O sistema de Proteo está em boas mãos, agora.

E exibindo as palmas das mãos para o rapaz, acrescentou com ar jocoso:

- Nossas mãos, naturalmente.

- [24-06-2023]