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Enigma 2

     O dia amanhecia, mas não parecia. Pelo menos, não para Luís que passara a noite em claro, pensando na vida daquela mulher. Ainda achava estranho, a falta de reação da vítima, mesmo sabendo que ela estava sob o efeito de pesados sedativos. Tudo meio que se embotava na sua cabeça de detetive. Preocupações profissionais, pessoais, o peso do mundo caindo nas suas costas fazendo-o envelhecer 15 anos em uma semana. Triste para alguns, para ele era mais uma semana qualquer.
     O relógio marcava 9h. Um horário meio tarde pra quem estava sob pressão. Mas não custa nada lembrar que Luís também era humano. Fica cansado, estressado e de vez em quando, desaba. Assim, não teria problema em acordar mais tarde às vezes. É preciso respirar para recarregar as baterias e lutar novamente.
     Todavia, os bandidos não ligam para isso. Pelo contrário, querem a adrenalina da perseguição, da zombaria, da vontade inexorável de irritar o "mocinho" da história até quebrá-lo. E a gangue das lâminas estava fazendo isso bem. Com um "erro" estratégico, que acabou se mostrando um grande acerto, conseguiu minar as reservas de bom-senso de Luís que agora passava a ser um "zumbi" funcional. Conseguir fazer os arranjos para as mortes do cunhado e do sobrinho da melhor amiga (até então) de Luís, foi um jeito certeiro de atingir a sua sanidade. E, claro, fazer um acordo com um psicopata, usando das suas vítimas para brincar com ele, com a única condição de matá-las ao final. Quem foi que disse que psicopatas não são boa gente?
     "Que dia de merda", esbravejou Luís em alto e bom som para o susto do gato que adentrara a sua janela sem ser convidado. Ao menos, era uma companhia pra quem se sentia no lixo, enquanto comia uma torrada com um café forte para despertar o que restava dos seus sentidos. Enfim, era o jeito. Nesse momento, pegou o celular para ver as atualizações. Preferia que não tivesse feito isso, uma vez que recebera o 2o enigma. Só falhou em ver a hora, mas tinha quase certeza de que a mensagem era recente. Iria olhar?
     Decidiu não checar o enigma. Ainda estava com a mente focada no vídeo do assassinato no edifício anterior. A polícia não sabia que ele também estava envolvido no caso, então conduzia a análise em paralelo, mas sem muita esperança de resolução. Luís olhou o vídeo por uns dez minutos até notar um detalhe. Entre os passantes que passaram naquele frame, dois também estavam nas videochamadas feitas pela gangue quando sequestraram Horácio. Não conseguia confirmar, porque eles estavas de óculos escuros e chapéus, mas a silhueta era a mesma. Poderiam ser integrantes da gangue? Em caso positivo, estariam nas próximas cenas de crime?
     Aquilo o fez arregalar os olhos, pois seria uma pista depois de tanto tempo. Entretanto, como tudo que toca aquela gangue, precisava manter em silêncio, até ter uma confirmação. Seria necessário observar e articular com os casos que vão acontecendo, para assim encurralá-los. Era um jogo de gato e rato que Luís estava ficando cansado de apanhar. Precisava reagir, ao menos um pouco, até porque as vítimas não estavam distribuídas em dias seguidos. Se os bandidos "improvisam", por que ele não?
     Finalizado o café, era hora de começar os trabalhos. Olho no celular para saber qual o enigma do dia. "Os segredos do fotógrafo ainda não foram revelados". Pra variar, mais uma mensagem cifrada  que não fazia a menor ideia. Pior, a mensagem havia sido enviada às 8h da manhã e sua resolução teria que ser feita até à 13h da tarde. Isso porque era um enigma composto por duas partes, com a segunda entregue pela tarde. Bem, considerando que já passavam das 10h, Luís não tinha muito tempo.  Precisava correr, mas pra onde?
     Pense, pense pense. O que diabos quer dizer "segredos do fotógrafo"? Estaria fazendo uma referência às lojas de fotografia? A um álbum? Fotografia? Salas de revelação? Eram possibilidades múltiplas de direção. Felizmente, não teria que andar tanto, posto que a cidade era pequena. As regiões que concentravam as lojas de fotografia ficavam no centro e na zona sul da cidade, pelo menos as mais famosas. Nessas duas regiões, tinham dez lojas. Se Luís fosse em todas, demoraria demais e, fatalmente, perderia mais uma vítima. Decidiu tentar uma estratégia arriscada e ir na maior loja de fotografia que conhecia, cujo laboratório para revelação permanecia fechado durante o dia, informação esse repassada de um contato que tinha na loja. Ali, poderia ser um bom lugar para esconder um corpo durante o dia. Será que conseguiria a  sorte grande?
     Chegou no local, olhou os arredores. Vários prédios nas laterais da loja. Também pudera, estava no centro da cidade. Como saber se estava no lugar certo? Além disso, a sua vítima estaria nos prédios ou na loja? Difícil saber, uma vez que a loja estava aberta e funcionando e não tinha vista de fora da loja do laboratório de revelação. Precisava se aproximar para ter noção do que acontecia naquele ambiente. E agora, José?
     Bem, Luís estava cansado de ser bonzinho. Então, decidiu puxar os seus ases: retirou do bolso um visor especial para ver o calor através das portas, cortesia que ganhou após uma investigação bem-sucedida, tempos atrás. Passou uns 10 minutos, olhando até concluir que não tinha nada ali. Só um grande depósito de rolos de filmes para ser revelados e outras fotos penduradas pra secar. No fim das contas, foi uma perda de tempo. Então Luis decidiu partir para a próxima loja, também pelo centro. Dessa vez, demorou menos tempo para observar e certificar que lá também não tinha nada. Lá pela 5a e última loja do centro, percebera que seu tempo estava quase se esvaindo. Correu pro carro e partiu pra zona sul. Só tinha uma hora, para descobrir, entre três lojas, o paradeiro da próxima vítima. Passou de carro pela primeira, dando uma olhada rápida, concluindo sem muita certeza que lá não era. Então, correu para a segunda e terceira, convenientemente vizinhas para olhar, olhar e nada. O tempo acabou. Novamente, tinha fracassado.
     E como um ciclo que se repete, recebera um vídeo de assassino. A vítima agora estava sentada numa poltrona e desacordada. Cinco câmaras estavam posicionadas ao seu redor com vários modelos, diferentes, desde às antigas, em que o fotógrafo tinha que colocar a cabeça embaixo de um capuz para fotografar, até às novas, com resolução ajustada e conexão com a internet. Todas, passaram a fotografar ao mesmo tempo, causando um efeito sinistro de imagens e, no meio das fotos, três tiros foram atirados no peito da garota. Mais uma morte trágica. Também com mais uma mensagem da gangue: "ai, ai, ai, você já foi melhor viu? Que peninha! Mais sorte na gincana da tarde, tá? Em breve, passo as instruções. Ciao!".
     Dessa vez, contudo, Luís percebera que o vídeo trazia uma tomada de fora. E uma das janelas dava na saída de um prédio, próximo a praça dos quintetos, no centro, região, onde estivera. Nesse momento, bateu um estalo na sua cabeça, ao recordar de ter passado pela praça e visto uma estátua com dois baús, que a princípio, pareciam decorativos e um homem de chapéu, sentado ao lado deles. Será que aquela janela era da praça? Ato contínuo, pegou o carro e voltou à praça. Olhou os bancos e não tinha ninguém. Aproximou-se dos baús. Um deles, de fato era decorativo. Todavia, o outro tinha um envelope com uma carta, pegou-o e dizia "parte dois". Seria a continuação daquele desafio?

O Andarilho    
Rousseau e o Andarilho
Enviado por Rousseau e o Andarilho em 29/06/2020
Código do texto: T6991791
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Sobre o autor
Rousseau e o Andarilho
Maceió - Alagoas - Brasil
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