Os Segredos da Rua Baker 3: 27- Sequestro

John caminhava até um mercadinho perto do seu apartamento para comprar ingredientes para a janta. No meio do caminho alguém esbarrou em seu ombro. A pessoa rapidamente pediu desculpas e seguiu seu trajeto como se nada tivesse acontecido. Foi tudo tão rápido que John sequer conseguiu visualizar o rosto do transeunte.

Já de volta em casa, ao tirar suas chaves do bolso um papel caiu.

Apenas teatro, John.

I.H.

Ele encarava o bilhete com um sorriso bobo na face ao adentrar o apartamento.

-Belo sorriso, John.

-Meu... Porra... Irene! Você quase me mata. Como entrou aqui?

-Você realmente quer saber? – Ela levantou de uma cadeira em um canto escuro da sala.

-Melhor não. Imaginei que estivesse apenas... - Ele foi interrompido por um abraço seguido de um beijo. – O que está acontecendo?

Irene o levou até o sofá onde se sentou escanchada no colo do inspetor, continuando assim, uma ardente sessão de amasso. Entre beijos e carícias, ela parou.

-Você está mesmo acreditando nisso, John? Acha mesmo que eu faria algo assim?

-Outro plano doentio do Sigerson? Ou seria a Zoe dessa vez?

-Não seja estúpido inspetor! Você já deveria ter percebido a essa altura... Eu estou aqui como o seu bug.

-Meu o que?

-Acorda!

-Irene...

-Eu disse: ACORDA!

Ela lhe deu uma enorme tapa na cara o fazendo acordar imediatamente desse bizarro sonho. John se percebeu em uma sala não muito grande. Ele levantou-se do chão devagar, pois seu corpo doía como se mil agulhas estivessem sendo enfiadas ao mesmo tempo.

-Olá John! Você sentiu minha falta?

A voz da Zoe ecoava pela sala saída de uma caixinha pequena perto de uma câmera no teto.

-O que quer de mim Zoe?

-De você? O que eu queria de você, eu já obtive... Apesar de ter me chamado pelo nome da Irene quase o tempo todo. Foi irritante, mas o seu desempenho compensou. Enfim, isso não tem nada a ver com você, John.

-Pro inferno que não! Você me drogou e me sequestrou. E pra que? Pra deixar a Irene com raiva?

-Eu não tenho autorização para ferir fisicamente aquela desgraçada. No entanto, eu sei a ferida que mais lhe dói. Irene será torturada nesse labirinto que criei. Ela sairá daqui morta por dentro.

-Irene te sentenciará a algo muito pior do que esse seu labirinto ridículo.

-Ela sairá perdendo de qualquer forma. Eu sinto muito mesmo, John.

***

Irene estava com Alex em um café esperando por Diana e pelo avô da Zoe.

-Você está estranha. Apreensiva pelo John ou tem algo mais?

-É por causa da minha mãe.

-Você confiava não ser ela a peça usada como distração?

-Eu tinha certeza que seria a Lilian, mas só agora me dei conta de verdade da morte da minha mãe.

-Sinto muito, porém não pode se dar ao luxo de ficar de luto.

-Eu sei. Muito trabalho a se fazer e o principal está chegando. Não se esqueça, nós podemos utilizar essa situação para acabar com a Zoe diante do conselho.

Alex só teve tempo de assentir, pois o avô da Zoe já se sentava na cadeira a sua frente.

-A que devo a honra desse convite, Srta. Holmes?

-A sua neta sequestrou uma pessoa que considero da família. Apenas me diga: onde é o playground dela?

Ele quase esconde o rosto embaixo da mesa de tão desolado, no entanto o pobre senhor ainda se preocupava com o destino da neta.

-A senhorita... – Ele precisou limpar a garganta antes de continuar. - Ainda lembra-se de sua promessa, não é?

-Sim.

-Zoe chama o lugar de labirinto. Ela mandou construir anos atrás. O local é em nome de ‘um laranja’, porém tem esse homem que ajudou a testar. –Após mexer no celular por alguns segundos, o velho mostra a foto de um homem alto e forte. – O seu pai deve saber quem é, pois o ouvi contando sobre já ter ido em cana por causa de Sherlock Holmes.

-Merda! – Irene exclama. – Obrigada, Sr. Moretti. Você deve ir. Eu não quero ninguém desconfiando do senhor. – Irene segurou a mão do homem antes dele sair. – Eu nunca quebrarei a promessa.

O homem saiu apressado.

-Você terá de pedir um favor ao seu pai. Isso será interessante! – Irene soltou um grunhido irritado. – Infelizmente, - Alex continuou-, não poderei assistir ao show. Ligue se precisar de algo.

Enquanto a prima se retirava, Irene tomava um último gole de seu café [misturado com uísque] antes de ir para a calçada esperar Diana.

Irene se enfiou no carro da irmã sem sequer deixa-la estacionar primeiro.

As duas seguiram para a fazenda de abelhas. No caminho Irene explicou sobre o sequestro do John, o tal labirinto da Zoe e como Sherlock poderia ajuda-las nisso. Porém, Irene havia feito a promessa de não chegar perto da Lilian... Sendo extremamente sincera, a nossa consultora investigativa não tinha a mínima vontade de olhar para a cara da mãe novamente. Por essa razão, Irene esperou no carro (estacionado fora da propriedade) enquanto Diana foi explicar a situação ao pai.

Duas batidas na janela, Irene se surpreendeu com a irmã de volta tão rápido.

-Ele só irá ajudar se você pedir. –Diana falou.

-Oh pelo amor...! Quantos anos ele tem? 13?

-Você não é tão diferente.

-O que?

-Nada.

Elas adentraram no laboratório perto da casa principal onde Sherlock estava curvado analisando alguma amostra no microscópio.

-Ah! Você já está aqui.

-Creio que Diana já te deixou a par da situação. – Ela pegou o celular da mão da irmã. – Fale sobre esse homem.

-Eu já te ajudei bastante, Irene. Dessa vez vou querer algo em troca.

-Por mim tudo bem. Aliás, eu tenho a proposta ideal... – Ela mostrou um belo sorriso antes de continuar. – Você me ajuda a salvar o John e eu juro que nunca mais me verá. – Sherlock pareceu tão surpreso quanto a Diana. – Nunca mais chegarei perto de você ou da Lilian.

-Você realmente acha que esse é meu desejo?

-Eu só quero o John são e salvo. – Ela disse tentando manter seu péssimo temperamento sob controle. -Não me importa o preço a pagar.

Sherlock assentiu vagarosamente, ele conhecia esse tipo de desespero muito bem.

-Apenas prometa tentar reconstruir uma relação com sua mãe. –Abismada, Irene o fitou. – Ela está fazendo o tratamento e em alguns meses... Talvez, um ou dois anos, ela voltará a si.

Depois de pensar por alguns segundos, Irene aceitou.

Os três estavam no carro fazendo o caminho de volta a Londres. Irene e Sherlock com suas pesquisas na internet e Diana concentrada na direção.

Não demorou muito até conseguirem rastrear o tal amigo da Zoe. Logo uma mensagem foi mandada para Dr. Watson os encontrarem em um velho estacionamento. Ao chegarem, Watson cuidava de um homem ferido no chão, nada muito grave. Sherlock foi o primeiro a se aproximar e percebeu não ser quem procuravam.

-ELE TENTOU ME MATAR! – Bradejava o homem caído.

-IRENE! – Gritou Sherlock.

Com isso, ela já entendeu que o carro quase saindo do estacionamento era o do tal sujeito, apontou para Diana retornar pelo mesmo caminho que entraram, enquanto ela seguiu pelo lado oposto.

-Elas são suas filhas?

-Sim.

-Aquela está indo pelo lado errado. – Ele apontou para Irene correndo.

-Errado. Ela está indo exatamente pelo lugar mais rápido. – Sherlock nem precisou olhar para trás para chegar a essa conclusão.

O ferido apenas fez uma careta.

Irene correu cada vez mais rápido até pular do terceiro andar se segurando em uma corda mais a frente, ao cair no chão já voltou a correr em direção ao carro que se aproximava com toda a velocidade. Diana que havia feito quase o mesmo caminho do carro deu um tiro certeiro no pneu que fez o homem perder o controle e bater perto de onde Irene vinha.

-Oi Gavin, você vem comigo. – Irene falou ao arrancá-lo do veículo.

Gavin não demonstrava medo mesmo com Diana lhe apontando uma arma, mas ao se vê em frente ao grande Sherlock Holmes, o bandido tremeu na base.

Sherlock tomou a dianteira perguntando sobre o labirinto da Zoe, porém Gavin não dava qualquer informação. Ele mantinha a boca fechada, pois qualquer palavra mal dita poderia servir de pista. Irene estava perdendo completamente a paciência, então tirou o pai de perto entrando no meio deles. Gavin sentado no chão a encarava com um sorriso cínico.

-Tu é Irene Holmes, certo? Garota, a Zoe te odeia. Nunca vi um ódio tão grande.

-Vai cortando o papo furado e fala logo o que tenho de fazer para conseguir esse endereço.

-Uh, nervosinha. Eu gosto! Tô aqui para matar aquele cara ali.

-Por quê? – Diana questionou.

-Não faço esse tipo de pergunta, bonitinha.

Irene tirou a arma da irmã apontando diretamente para o homem ainda perto do Dr. Watson.

-IRENE, NÃO! – Os três gritaram.

No entanto já era tarde. O homem jazia estirado no chão com uma poça de sangue ao redor de sua cabeça. Gavin gargalhava igual a uma gralha velha e aplaudia o mais forte possível.

-Nunca imaginei... Tu é durona mesmo. Pensei que fosse do lado dos mocinhos.

-Nem sempre. E é aí que você se ferra, espertinho. Fiz o teu trabalho, agora melhor ir abrindo a boquinha ou vai ter o mesmo fim daquele idiota.

-Não, tu precisa de mim.

-Nos seus sonhos. – Irene atirou na perna dele. – O próximo será no seu pau, afinal não fala com ele.

Gavin ainda gritava de dor quando Irene engatilhou a arma mais uma vez.

-EU DIGO! EU DIGO!

Irene o prendeu em uma coluna após fazer um torniquete em sua perna. Nesse momento, todos a encaravam perplexos.

-Você não tinha de fazer aquilo. Matar um homem inocente, Irene! – Disse Dr. Watson.

-Inocente minha bunda. Apenas pense por um segundo, se for capaz, desde quando eu faço algo sem algum propósito?

-Qual o propósito, Irene? – Diana a questionou.

-Também não é como se eu precisasse ou tivesse saco para me explicar. Você, melhor que ninguém, deveria saber disso, Diana. Vamos parar de perder tempo.

-Você não... – Dr. Watson começou a falar, mas foi interrompido por uma arma apontada para sua cara.

-John irá precisar de um médio. Eu confio em você, portanto não me obrigue a força-lo também.

Sherlock colocou uma mão no ombro do amigo para assegurá-lo que naquele momento Irene não estava em seu estado normal. Naquele momento, ela não tinha sentimentos por ninguém. Todos eram apenas ferramentas úteis para um único fim: salvar John Smith.

Apesar de a Diana dirigir melhor, Irene apontou ser a mais rápida na direção e assim acabou sendo a motorista da rodada até chegarem ao local em que John era mantido.

Irene os fez prometer não se preocuparem com os outros, apenas tirarem o inspetor dali sem olhar pra trás. Com isso, Sherlock e John seguiram pelo lado sul, enquanto as irmãs entraram pela porta principal.

As duas entraram por um corredor não muito largo, derrubaram todos os homens que apareceram por ali, até chegar a hora de se separarem.

-Eu vou continuar reto. Você pode ficar com esse lado. – Irene apontou para a direita. – Apenas me faça o favor de limpar o caminho.

Dito isso, ela passou a correr em toda sua velocidade e Diana atirava em qualquer um que entrasse no caminho da irmã.

Minutos depois, Irene pensava em como aquela invasão estava sendo fácil demais para seu gosto. Ela verificou algumas portas e acabou entrando em uma sala comprida, porém a porta trancou ao fechar.

-Bem-vinda Irene! – A voz da Zoe ressoou estridente.

-Onde ele está?

-Logo atrás de você!

A imagem do John sozinho em uma sala imunda apareceu em uma das paredes, porém ao ir se virando, Irene viu, também, sendo refletida a imagem do pai, da irmã e do tio. Cada um em uma das quatro paredes. Cada um em uma sala diferente.

-Merda, Zoe! Você vai pagar por isso. Você sabe que vai.

-Sim, eu sei. Por essa razão devemos nos divertir ao máximo agora. Escolha.

-Escolher o que?

-Quem vai morrer... Dã!

Irene sentiu um frio descendo pela espinha. Ela não via uma solução para esse problema.

-Apenas realize o seu sonho. Mate a mim.

Zoe soltou uma risada histérica que logo se transformou em um choro lamuriento.

-NÃO POSSO! VOCÊ SABE DISSO.

-Você pode, Zoe. Você tem o poder. Aqui e agora. Me mata. Prove que é mais forte. Mais esperta. Abrace a oportunidade. É a única que terá. Isso eu garanto.

-Nem tente me influenciar. Se é assim... Eu escolho.

O barulho de tiro inundou a sala, pelo canto do olho, Irene percebeu alguém caindo.

-NÃÃÃO!

Ela correu até a parede que mostrava a imagem do John caído com sangue jorrando de sua cabeça, e, naquele instante, Irene também caiu.

***

Sherlock abriu a porta com ajuda do Dr. Watson e alguns homens do serviço secreto. O lugar estava completamente escuro, sem nenhuma imagem nas paredes. Eles encontraram Irene no fundo da sala encostada a uma parede, abraçada aos próprios joelhos, com um olhar perdido e cheio de dor.

-Irene! – Sherlock chamou pela filha, mas ela não se mexeu. – Irene!

Lentamente, ela levantou o olhar até o pai, tio e agentes, porem logo o baixou novamente.

-O que eu fiz? – Ela falava repetidamente. –

O que fiz?

O que eu fiz?

O que eu fiz? O que eu fiz?

O que eu fiz?

Sua voz era fraca, trêmula, cansada. Seu rosto sujo com respingos de sangue dos homens da Zoe, sua respiração era errática, lágrimas escorriam sem serem notadas... Irene estava perdida, ferida, mais do que jamais se poderia imaginar.

ALANY ROSE
Enviado por ALANY ROSE em 17/11/2019
Código do texto: T6797112
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