Afortunada - R. Santana

     Há 3 anos Tommaso Rossi Oliveira estava internado na “Casa de Repouso São Lucas”, situada numa cidade da Região Metropolitana de São Paulo. A casa abriga mais de 50 idosos, área murada e espaçosa, monitorada 24h/dia, arborizada e confortável. A casa possui estrutura física moderna, corredores espaçosos adaptados, área de lazer, apartamentos climatizados de 2 ou 3 camas e quartos individuais, além de serviço clínico de geriatria, apoio psiquiátrico e psicológico.

     Tommaso Rossi, com 79 anos de idade, não foi para “Casa de Repouso São Lucas” voluntariamente, mas, seus 4 filhos recorreram à Justiça interditá-lo, que lhes foram negados, então, num estratagema maquiavélico dos filhos, ele foi convencido com a cumplicidade de um psiquiatra, abrigar-se numa casa de repouso por estafa mental, a proposta inicial seria passar um mês, já se iam 3 anos de internamento.

     Giovanni é seu filho mais velho e vice-presidente das empresas do pai, um grupo empresarial de prédios de apartamentos, fazendas de pecuária e soja, uma construtora e 2 concessionárias de veículos da “Chevrolet”. Giovanni e as 3 irmãs administram as empresas. Tommaso Rossi não se afastou da presidência por mais que seus filhos insistissem, de quando em vez, na casa do sem jeito, Giovanni levava alguns documentos para que seu pai assinasse, na “Casa de Repouso São Lucas”.

     Tommaso Rossi é um homem soturno, quase não participa de atividades recreativas da casa, com exceção, os jogos de xadrez e as aulas de piscina. Ele gosta de nadar, costume de sua residência e casa de veraneio em Guarujá.

     Dentre suas amizades na casa, a mais significativa é com a jovem enfermeira Ana Júlia. Ela em suas folgas, ia passar com Tommaso, carinhosamente e o chama de “Tio Tomas”. Eles têm uma afinidade de pai e filha e brincam que noutra vida havia sido realidade. Porém, Ana Júlia é despojada, desprendida, brincalhona, carinhosa e humana com todos os internos da “Casa de Repouso São Lucas”, porém, seu chamego maior é com Tommaso, inicialmente, foi por vê-lo, praticamente, abandonado pela família, não conhecia pessoalmente, os filhos de “Tio Tomas”.

     Naquela antevéspera de Natal de 2024, o advogado e amigo Freddie Castanheira foi chamado por Tommaso Rossi, em princípio, jogar conversa fora, mas Rossi tinha em mente, outros objetivos:

     - Castanheira, quanto tempo?

     - Tommaso, quem é vivo, um dia aparece. Mas, não se queixe, quando os afazeres permitem, eu venho lhe ver!

     - Estou brincando... – acrescentou:

     - Eu quero deixar em Cartório meu testamento, pode providenciar?

     - Homem, você está bem de saúde!

     - Aparentemente... tenho medo de Giovanni... ele é ambicioso.... ele não tem escrúpulos!...

     - Infelizmente... eu concordo com você... seu filho é maquiavélico, mau-caráter! – acrescentou:

     - Posso saber o beneficiário ou os beneficiários?

     - No tempo certo. Quero deixar uma cópia lacrada em seu escritório, quando lhe for propício, tomará as providências necessárias.

     - Bem, eu iriei providenciar um tabelião. Acredito que o custo do testamento seja diferenciado pelo trabalho de ele vir aqui, ainda hoje.

     - Não se preocupe, eu tenho dinheiro, eles não conseguiram bloquear a minha conta de pessoa física. Faço questão de lhe remunerar pelo trabalho advocatício – Freddie Castanheira se despediu e prometeu providenciar os trâmites do processo de herança de seu constituinte.

                                                                                          *****

Dois meses depois:

     O pequeno escritório de Freddie Castanheira estava quase cheio com a família Rossi e Ana Júlia Scher Silva, todos convocados pelo famoso advogado. Ana Júlia sentia-se uma estranha no ninho, não sabia o motivo de sua convocação pelo advogado Castanheira. Não conhecia os filhos de “Tio Tomas”, os conheceu no dia do seu sepultamento, se eles estavam ali, deveria ter sido, também, convocados pelo advogado Castanheira. Não saía do seu pensamento as últimas palavras do seu Tio Tomas: “A beleza agrada os olhos, mas a doçura das ações, encanta a alma”. Enquanto Ana Júlia se perdia em suas digressões, o advogado de supetão, adentrou no escritório, cumprimentou todos e deu início à reunião:

     - Senhores, eu fui nomeado inventariante, pelo saudoso amigo Tommaso Rossi, portanto, cabe-me cumprir sua vontade testamentária. Peço-lhes mais alguns minutos, pois, faltam chegar mais duas pessoas para que iniciemos a leitura do testamento – Giovanni até aquele momento calado, questionou Castanheira:

     - Doutor Freddie, nós, os filhos, estamos aqui, não entendo a presença de pessoas estranhas ao processo de inventário?

     - Seu pai era um homem meticuloso, metódico e direito, deixou tudo por escrito e registrado em cartório na forma da Lei. Espero que os senhores respeitem sua vontade.

     - Porém, temos o direito de contestar em juízo qualquer arbitrariedade do meu pai – os demais convocados chegaram e o advogado pediu-lhes que se acomodassem que iria ler o testamento.

     “Eu, Tommaso Rossi Oliveira, brasileiro, maior, viúvo, empresário, RG e CPF anexos, estou em pleno gozo das minhas faculdades mentais (relatório médico anexo), disponho dos meus bens (relação anexa), respeitando a parte legítima dos herdeiros necessários e designo como inventariante, dr. Freddie Castanheira, que fará cumprir minha vontade em qualquer Tribunal, conforme necessidade jurídica.

     Os meus filhos biológicos, Giovanni, Adriana, Paula e Milena, faltaram-me nos meus últimos dias de vida, internaram-me a contragosto na “Casa de Repouso São Lucas”, para um mês de repouso, num malabarismo maquiavélico, deixaram-me abandonado mais de 3 anos, com relatórios médicos forjados, antes, lhes foram negados pela Justiça de São Paulo, um processo judicial de minha interdição. Durante esse tempo, afastaram-se, inclusive, os meus netos, sabia das coisas através do meu amigo Freddie Castanheira.

     Na casa de repouso quase enlouqueceria se não fosse a jovem enfermeira Ana Júlia, ela cuidou de mim como filha, deu-me afeto e apoio moral, deixava os domingos e feriados e ia jogar conversa fora comigo para que eu não ficasse sozinho. Gostávamos de discutir literatura e assistirmos filmes na TV. Nossa amizade era espiritual, nunca lhe disse que era rico e presidente de um grande grupo empresarial, cujo objetivo era conhecer seu caráter e seu interesse pelas coisas materiais. Nunca lhe falei dos meus filhos. Dizia-lhe que estava ali pelo plano de saúde e tinha uma pequena aposentadoria da previdência oficial.  Aliás, ela não se interessava pela minha fonte de sobrevivência, ou seja, de onde vinham meus recursos financeiros.

     Por isso, disponho dos meus bens de forma juridicamente perfeita, 35% para minha enfermeira, a senhorita Ana Júlia Scher Silva; 7,5% para o “Hospital Municipal São José” e 7,5 % para o “Lar dos Idosos São Francisco”, também deste município. Ass.: Tommaso Rossi Oliveira, São Bernardo (SP), 23 de dezembro de 2024 – abaixo assinaram 3 testemunhas.

     Finda a leitura, o alvoroço tomou conta do ambiente, Giovanni e suas irmãs ameaçaram recorrer, contudo, o advogado acalmou os ânimos e esclareceu que, eles tinham todo direito de recorrer, porém, eles já eram detentores de 50% do grupo, que Tommaso Rossi Oliveira transferiu em testamento o que lhe era devido por direito.  

 

Moral da história: "Filhos, filhos? / melhor não tê-los / Mas se não o temos / Como sabê-los?"(Vinícius de Moraes)

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna – ALITA

Imagem: Google