Canelite

Não sei se era uma lágrima ou uma gota de suor que caia no gramado. Mas naquele momento eu estava exausto e triste ao mesmo tempo. A mulher que eu mais amava nesse mundo se foi, e meu mundo se foi com ela também.

Mas eu tinha que jogar, era o meu trabalho e não era desculpa, já que parte de mim queria estar ali também.

Não dava pra tirar a tristeza do meu olhar, mas mesmo assim lá estava eu, jogando naquele imenso campo. Minha perna tremia e eu sentia tanta dor que eu não sei se ia conseguir aguentar ficar em pé por muito tempo ali.

Por mais que eu estivesse exausto, por mais que eu estivesse triste e por mais que eu tivesse sentindo dor eu fui o que mais correu dentro daquele campo. Algo dentro de mim me dava forças, não sei se eu estava ficando louco ou se realmente era a minha mãe me dando forças de lá de cima e me fazendo continuar jogar.

O jogo estava muito duro e eu estava sofrendo muitas faltas, mas não reclamava. Chutava tantas vezes no gol sem sucesso, mas não ficava com raiva, só queria dar o meu melhor lá dentro.

Peguei a bola do meio de campo e driblei um marcador, quando fui cortar o segundo, ele me deu uma pancada que quase me levava ao chão, mas nada conseguia me parar naquele jogo. Cheguei perto da área, o zagueiro veio me marcar, balancei para um lado e para o outro, nunca tinha feito aquilo em um jogo antes, mas meu corpo ágil sozinho. Puxei pra perna direita, a minha perna boa e ele me deu um pisão no pé esquerdo e acabei sofrendo a falta.

O juiz nem deu cartão, mas não importava. O cobrador oficial queria bater, mas eu peguei a bola e falei que eu que iria, ninguém falou nada. O pisão do zagueiro tinha sido forte, que minhas pernas que já estavam doendo, pareciam estar pedindo socorro. Mal conseguia ficar em pé, elas já estavam inchadas de tanta porrada que eu tinha levado naquele jogo, mas não importava.

Eu só queria chutar, só queria fazer um gol, só queria tentar fazer um... pra ela.

O juiz tinha autorizado, tinha seis jogadores na barreira e o goleiro estava no meio do gol, nem sabia onde mirar, só queria chutar a bola. Respirei fundo, tomei uma distância e "soltei a perna". Chutei tão forte a bola, que parecia que eu queria matar o goleiro. A bola passou pelo canto esquerdo do goleiro e entrou, gol. Na mesma hora o estádio tinha ido a loucura e as lágrimas.

Na mesma hora eu me ajoelhei, e não pude segurar a emoção. Foi muito forte aquele momento, eu não conseguia parar de chorar e de gritar.

Meus colegas de time vieram me abraçar, eu queria esconder a minha tristeza, esconder a minha dor, mas não consegui evitar. Depois do gol, eu pedi pra ser substituído, Não conseguia mais ficar um minuto lá dentro. Andando até o final do campo, eu não pude descrever novamente, se o que estava caindo na grama eram as lágrimas dos meus olhos ou suor da minha testa. Só podia dizer uma coisa, que aquele dia tinha sido marcado por duas coisas: a partida mais importante da minha vida e o dia mais triste dela também.