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Coco, indo para a escola

   Coco, apesar da pompa, morava no campo. Campo não era bem a palavra. Pradaria, pampas, também não. Uma região rural cortada no meio por uma grande veia de asfalto. O ar puro já fora purgado pelo cheiro da gasolina e do álcool. A paisagem plana era tomada de borracharias mal encaradas, agropecuárias escuras, postos de gasolina bonitos como shopping centers e casinhas à beira da estrada principal, os seus narizes empoeirados colados aos constantes paralamas.
   Havia cobras, no entanto. Como são rápidas, pensou Coco, quando uma cobrinha verde lhe estufou o peito e, de assalto, lançou-se veloz para ela. A menina escapou do golpe por pouco, tinha bons reflexos. Uma moçoila
   de sapatilhas
   jeans até as canelas
   blusa estampada
   celular à mão
   bolsa à tiracolo
   cabelos caídos nos ombros,
desviando do ataque de um ofídio numa estrada de chão batido soa um tanto cômico e anacronístico, mas de fato aconteceu. Narrativa cansativa, não? Não quero parecer Mark Twain falando sobre as peraltices de Tom Sawyer. Livro aborrecido aquele. Coco também não gosta. Coco gosta de Holden Caulfield. ''You kill me.'' Alexander Portnoy, o onanista. Henri Chinaski, que sentia a merda dura dentro de si. Não gosta de Arturo Bandini. Arturo Bandido mata animais. Ela não mataria nem mesmo a cobra que a atacara.
   Coco esperava o ônibus. Sola, como dizia, sôla. Quanto mais eu esperar, menos eu esperarei, diz o paradoxo do ônibus, pensava ela. Um homem surge de lugar algum e se senta ao seu lado. Passa a lhe falar. Não sou bandido. Sou pintor. Mostra-lhe a carteira. Era de fato pintor, mas e daí? Ela se sente intimidada pelo homem de barba e modos expansivos. As modulações inconstantes na sua voz a assustavam. Vim da igreja, ele dizia. Parecia-lhe bêbado, ou pior. O ônibus não chegava.
    Coco esperava.
    Sola,
    sola.
    Coco, apesar da marra, tinha medo. O homem insistia. Sou pintor, não sou bandido, dizia; deixou cair algo da boca, procurou pelo chão, mostrou-lhe: algo verde e redondo, como um chiclete, e talvez o fosse; pôs novamente na boca e lhe sorriu os dentes desgastados.
    Outro homem se aproximou. Gorducho, os olhos desconfiados, baixos, aparência agradável, amiga. Trazia à mão um rádio. Pôs-se a seu lado, de pé. Coco estava entre dois homens, maduros, barbados.
     - O T. já passou, perguntou ele, mais para Coco que para o pintor, a quem pusera por breves instantes seus olhinhos baixos. - Ainda não, respondeu-lhe ela, mais confortável com a presença deste, ainda que pouco arrojada.
     O segundo homem puxou de um rádio: pôs numa estação clássica. A música, como a fumaça de um cigarro, engolfou-os ali no pó, à parada do ônibus. - Paganini, disse o segundo homem, cheio de si, olhando Coco de soslaio, e para o primeiro homem também, este que agora se debruçava sobre a menina e repetia, a voz enrolada, Acha que sou bandido, acha que sou assaltante. Dito isto, levantou-se e começou a esvaziar os bolsos
    moedas,
    chaves,
    cascas de banana secas
    farelos de biscoitos velhos
Sou homem de bem, trabalhador, dizia. O gorducho de olhos baixos, sentindo-se intimidado, escondeu-se como pode por detrás da coluna magra que sustinha o teto da parada. O pintor, cansado das apresentações, pôs-se a insultar a menina: puta, puta, vadia, nojenta, não se vive só de amor, puta de merda, vá se fuder...
    De repente, passa um anjo e Niccolò Paganini para - o outro homem, o gorducho, desligara sem o querer a rádio - Vá para o inferno, esbraveja Coco para o pintor que, cambaleante, de costas para a estrada, cai para trás, de encontro ao ônibus que todos esperavam.
    - De onde veio ele, perguntou o outro - Da igreja, respondeu Coco - O que ele queria?- Convencer-nos de que não era bandido.
    Os dois miravam hipnotizados a perna do pintor, a única parte de seu corpo vísivel debaixo do veículo. Havia um burburinho no ônibus, as pessoas de faces coladas às janelas, o motorista desesperado lhes perguntava, a ele e à ela, o que houve, o que houve, como aconteceu. Pelos vistos, Coco se atrasaria para a escola.
     Asfalto quente.
     Sangue na estrada.
     Homens de carteira assinada,
     sedentos de sangue,
     no alto das janelas, no meio do nada
     Paganini a tocar, mui lento, mui lento
     solo, solo, as caras assustadas.
Candela
Enviado por Candela em 21/05/2020
Código do texto: T6954230
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
84 textos (1341 leituras)
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Candela