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O purista infiel

   Ela tinha dezessete anos. Usava um vestido justo, colado ao corpo como não poderia ser de outro modo, pois muito justo lhe era. Justíssimo. Injusto para mim, casado e velho. Ela esfregava o chão, o piso de assoalho de madeira do nosso corredor, meu e da minha esposa. Seu cabelo era da cor da madeira. Às tardes, quando ia à janela fumar os fios se lhe tornavam levemente avermelhados.
   - Gosta de música - perguntei-lhe um dia.
   - Gosto - respondeu-me ela, dissilábica.
   - Gosta de Bach? - acrescentei.
   Soprou para as nuvens a fumaça do cigarro, e me disse: - Tenho de trabalhar.
   Minha mulher não se importava com a sua presença. Sabia-me incapaz de galanteios. Eu de fato o era. Nunca lhe fui infiel. Não que não tivesse querido sê-lo. Ela sabia da aflição que me era a moça. Sadismos, o que sobrou de nosso comércio sexual. De sua parte, ao menos; meu papel era passivo, silencioso e ressentido.
   A menina?, queria-a. À minha mulher, isto, o adultério, ensinaria algumas coisas. A menina me ignorava, no entanto. Mono e dissilábica. Aos meus olhos não dedicava os seus. Eu nunca fui atraente, bonito ou bem-apessoado. Uma voz, também não tinha. Como tê-la?, a moça. Não, não, isto eu não faria. Pensei em fazê-lo, mas a menina me parecia digna. Eu não seria digno se o fizesse. Canalha por pensá-lo? Os pensamentos são subservientes ao corpo, e o corpo não pensa, sendo assim me considero absolvido de qualquer canalhice. Sinto-me bem, isto me basta.
   Os olhos castanhos dela miravam coisa alguma para lá das nuvens. Suas pupilas nunca se poriam negras de desejo por mim, eu pensava, a caneca grossa às mãos, o pé direito a roçar o piso embaixo da mesa, distraído, olhando-lhe as pernas e os pés descalços, o corpo esguio de costas para este velho.
   - Gosta de Rameau? - perguntei a ela, espontâneo, tomado de vulnerabilidades.
   - Como? - disse ela.
   - Amor mortal, conquistador violento, que meios escolheste para perfurar meu peito?
   - Gosto de poesia - virou as costas para o mundo e pôs os olhos nos meus, como se pela primeira vez, ao menos para mim.
   - Recite uma.
   - Palpitam flores, estremecem ninhos, e o sol do amor, que não entrava outrora...que não entrava...
   - Entra dourando a areia dos caminhos. Muito bem. Bonitos versos.
   - Tenho de trabalhar - e se foi para os aposentos mais internos, sem cerimônias, sem despedidas, como sempre o fazia.
   Beberiquei de mais alguns goles frios que me puseram desperto. Houve entre nós uma breve sintonia que logo se perdeu, isto pensei eu, os olhos nas nuvens, sentindo o cheiro do cigarro agarrado à cortina. Isto ficaria conosco, o cheiro, entre minha mulher e eu. O fim de tarde pedia uma música. Conjugados os tons do céu ao meu estado de ânimo mais vivo, decidi pelos concertos de Brandemburgo.
    (concerto No. 3 em G maior, allegro.)
    A boa música encheu o apartamento. Tão pequeno. Meus vizinhos haveriam de me perdoar. À porta do nosso quarto, meu e de minha mulher, eu a observava, a menina, ajoelhada sobre o piso úmido. Esfregava as artes de minha mulher, mondava os seus sadismos. Bach lhe acompanhava os movimentos firmes e jovens. Eu também o fazia. Ah, como podia naquele quarto, àquele instante, quarto que era meu, a sua peça mais proeminente não me pertencer?
    Gosto dessa música, ela me disse. De joelhos molhados ao chão, o corpo rijo, à mão uma escova, a me olhar lá tão de perto. Foi a minha apoteose. Ali, à distância, àquele instante, tive o meu adultério. O seu próximo patrão teria Bach e teria Bilac, mas não a ela, não a ela, assim esperava que fosse não tendo eu, o canalha, o velho, o que mais queria.
Candela
Enviado por Candela em 17/05/2020
Código do texto: T6950244
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
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Candela