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Anélito revolucionário

   Uma garrafa de vidro. Líquido inflamável e um pano. Tens aí uma arma, isto me disse Natalia Vasilievna Charkova. Módica, leve, pode prepará-la no local. Mudará alguma coisa? Mudarás alguma coisa? Não o creio. Tome dum caderno. Tome dum lápis. Tens aí outra arma. Tão módica e leve quanto a outra. A esta falta apenas a química. A composição adequada. Tu a tens?
   Natalia era nossa líder. Minha líder. Éramos apenas os dois. Assistíamos a Jean Epstein e Hans Richter num quarto escuro de uma velha casa de campo. Lá, elaborávamos ideias e ideologias. Natalia lera em voz alta um conto no qual Judas era o verdadeiro filho do Senhor, onde o verdadeiro sacrifício não foi a cruz, destino de tantos homens vulgares, mas a delação, a eterna infâmia histórica e o inferno. O êxito da ventura está aí, ela então me disse.
   Ela acreditava que uma utopia não é um plano, como o querem os sonhadores e os céticos, mas um modelo. Escreva e verá. Tens uma ideia, uma venturosa ideia, dizia-me ela, mas ao dedicá-la à realidade, o que vês?, algo diverso, não?, mas o cerne está lá e torna tudo em torno belo. Tu o sabes, tu o crês, tu o segues. Suas ideias eram terríveis, incivis e finais. Acreditava, sim, que a força permite e faz os direitos. As represas, tão necessárias, não dialogam com as águas, barram-lhes o caminho, dão-lhes forma, impõe-lhes uma nova lei. A ela não agradavam os nacionalismos verborrágicos, os governos cambaleantes, frutos de ressentimentos e liberdades mal resolvidas.
   Era-nos premente algo novo e brutal.
   Desenhava os rostos e os corpos de Sergey Nechayev, Leon Czolgosz e Gavrilo Princip em cenários de pesadelo. Desprezava-os pela violência irrefletida. No entanto, o fato de mantê-los consigo, de lhes dedicar o tempo a ilustrá-los, denotava um mal disfarçado carinho. Ela tinha a maldade de um Félicien Rops. A melancolia febril de um Léon Spilliaert. O simbolismo da era atômica, terrível como planetas desertos e estrelas solitárias numa paisagem plana, um degradê de tons escuros do espectro.
   Algo nos ensinou o fascismo, ela uma vez me disse, ganhar a guerra antes de começá-la. Um homem na França, a respeito do papel dos franceses na guerra, mencionou a fraqueza das famílias modernas como a razão mais saliente de seu fracasso. Famílias pequenas permitem a robustez do individualismo, a ciência mais exata de si, ciência esta que os faz temer pela própria vida. Nos campos de batalha este temor é proibido. Os fanáticos de todos os cultos bem o sabem. Ganhar a guerra antes de começá-la: como, eu lhe perguntei. Um caderno e um lápis, ela me respondeu, as ideias, venturosas ideias, tem-nas?
   Natalia me contou que Da Vinci escrevera que a maioria das pessoas não serve para nada além de encher latrinas. Eu não lhe acreditava. Ela costumava mentir para me convencer das suas verdades. Fazia apologias às castas, dizia não haver outro modo. Como acreditava em metempsicose, dizia: de manhã escrava, à tarde rameira, à noite aristocrata, e pela manhã novamente escrava. Chamava às vidas estações, denominava a própria de primavera. Punha fé que na estação seguinte seria capaz de reconhecer a si própria nos atos, nos escritos e nas marcas que deixara. Chamava a esse reconhecimento, a esta iluminação tão singular, de imortalidade. A violência é necessária, mas muito vulgar para ser lembrada. Todos os homens são violentos, como reconheceriam a si próprios pela crueldade? Como se tornariam imortais pela degola e pelo garrote?
   Ela tinha um plano e estava armada. Tinha a mim que não era nada, mas lhe seria vital. Àquele ano vivíamos entre os estandartes negros e os vermelhos. Natalia, numa manhã branca, sentou-se à uma mesa velha na velha casa de campo; deitou uma folha sobre a sua superfície, alisou-a com a mão, olhou para mim, pediu-me um lápis e, com ele às mãos, aguardou. Aguardou as tais ideias, as venturosas ideias, que se infiltrarão, segundo ela, primeiro nas almas, nas grandes, depois nas pequenas, e depois nos mapas do mundo.
    O contorno das fronteiras mudará.
    Nas estações seguintes, se a sua posição nas castas lha permitir, dar-lhe as ferramentas e os meios, talvez Natalia se lembre de Charkova e eu.
Candela
Enviado por Candela em 16/05/2020
Reeditado em 17/05/2020
Código do texto: T6948755
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
84 textos (1341 leituras)
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Candela