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A onda azul

   A tarde era de um calor abrasante. O clima me punha enfraquecido. O brilho intenso do céu me dava dores de cabeça. Eu, à varanda, observava a casa à frente. Minhas têmporas latejavam, sobre elas escorria o suor. Ao meu lado, uma garrafa térmica. Na mão direita, uma cuia com erva. Era o hábito das tardes. A erva era verde como os campos sombreados em derredor, e como os campos também estava seca. Era costumeiro chover, mas não o foi naquele ano. Era hábito meu beber do chimarrão, mas não o foi naquele tarde.
   A casa à frente não me pertencia; não tinha varanda como a minha, mas tinha um cachorro. Eu, do meu lado, não tinha nem um. O cão que uma vez possuí fora envenenado, envenenado pelo homem a quem pertencia esta casa sem varanda. Eu mirava o animal, pensava, Podia te ter matado também. O cachorro fazia o mesmo, me retribuía o olhar. Não sei o que pensava de mim, mas deviam ser pensamentos tanto menos ressentidos; afinal de contas, estava ele, assim como eu, sem o seu companheiro.
   Eu sentia o rosto congestionar, as lágrimas subirem aos olhos, apenas subir, assanhar os brilhos, sem pressão o suficiente para se mesclar ao suor que me deixava seco. Ao cachorro não dispensava carinhos, apenas comida e água. Ele me olhava com a língua dependurada. Apesar do novo mestre, se mantinha fiél a casa onde crescera e engordara. Queria eu afastar os calores pondo a língua para fora. Essa era a nossa diferença; de aí seu olhar bobo, seu rabo vivo, seus perdões, de aí o que eu era.
   Sonhei que nos varria, o cão e a mim, uma grande onda, afogando-nos, a nós e os campos. Como uma esponja ressequida, eu era novamente inflado de vida, mas tão logo me punha convalescente, acabava por me perder e morria. Morto, despertei; deixei a cuia rolar pelas tábuas do assoalho, confundindo a erva com o pó e a areia. A mulher a minha frente se desculpou, se lançou ao piso e me ergueu rapidamente a cuia, pondo-a em minhas mãos. Wagner, ela disse. Wagner era seu sobrenome.
   Eu disse a mulher, que era uma jovem mulher, que o homem que carregava esse nome morava do outro lado e apontei com a cuia para a casa onde o cachorro nos mostrava a língua molhada. Fazia tempo que eu não via uma mulher jovem e bonita, ainda mais tempo que não via uma de cabelos curtos. Eu a acompanhei com os olhos, enquanto caminhava desajeitadamente sobre o terreno acidentado, cheio de juncos e pequenos morros. Ela carregava uma bolsa, tinha os braços finos, mas as panturrilhas eram grossas; tinha ares de cidade, os perfumes doces.
   O cachorro, como uma esfinge, parado à frente da casa, a ignorou. Eu, quando a vi fazer menção de bater à porta, lhe gritei, Teu pai já morreu. Tendo ela ouvido apenas o arroubo das palavras, não o seu significado, apenas se virou para mim, O que disse o senhor. Eu, como se também a ignorasse, me pus de pé e entrei em casa; podia, lá de dentro, lhe ouvir os chamados e as batidas de palmas. Apesar das sombras, era mais quente dentro do que fora. Depositei a cuia nalgum lugar e procurei pela carta.
   De volta à varanda, sacudi a folha branca ao Sol como uma bandeira para que a menina, parada e tola do outro lado, viesse até mim. Sentei-me e a observei se aproximar, ansiosa e ainda mais desajeitadamente, o cabelo curto, os braços finos, as panturrilhas grossas. Quando próxima, eu lhe isse, Tens a carta, agora vá. Era uma nota de suicídio. A letra era de Wagner, mas o texto era meu. Por detrás dela, da moça, eu via o meu cúmplice silencioso, a língua a pingar como um relógio. Não o fiz pelo meu cachorro, o fiz pela minha mulher. E o que fiz a ela, fiz por Wagner.
    A filha do homem se pôs a andar; se acreditara na carta, se traria autoridades, eu não sabia. O que eu aguardava, ali, na varanda, era a grande onda. Entre outras coisas, para que nos banhasse a terra seca. Para que me inflasse de vida, me pusesse convalescente e me matasse; enterrando-nos a todos, homens e animais; ao menos neste canto do mundo, nesta terra cansada. Eu olhava para a erva espalhada pelo assoalho, o cachorro que não sabia de nada, a menina que poderia ser a minha mulher, e desejava tão mais violentamente uma grande e salgada onda azul.
Candela
Enviado por Candela em 30/04/2020
Reeditado em 01/05/2020
Código do texto: T6933337
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
84 textos (1341 leituras)
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Candela