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Gostos e medidas

   Innocenza, era como se chamava. Innocenza De Angelis. Oficialmente, em jantares e redes sociais, dizia-se ela sapiossexual. Em off, gostava dos homens grandes. Gostava de tudo que lhe lembrasse esses produtos singulares da natureza: as torres, a torre de Pisa, em especial; não lhe agradavam as torres de cerca, nem as torres albarrã, gostava das torres solitárias; as espadas, floretes e montantes, não os sabres, os sabres lhe causavam náuseas, lembravam-lhe Peyronie; os guarda-chuvas e guarda-sóis, quando fechados; os hidrantes, que lhe traziam a imagem de homens caucasianos, célticos; os balizadores de concreto; a alavanca de câmbio, que com tamanha verossimilhança lhe afastava das funções de motorista; os seus gostos estéticos eram tão vastos quanto o domínio das artes se permite ser fálico.
   De Angelis se ria das sexólogas que diziam na TV e nas revistas que o tamanho não fazia diferença. Ela argumentava assim: - ''Diga a um varão que, tendo a frente duas messalinas, uma bela de corpo belo e uma feia de corpo feio, ele experimentará substancialmente o mesmo prazer com as duas, afinal não pode haver tantas diferenças assim entre a caixinha de uma e a caixinha de outra.'' De Angelis acrescentava, ora de si para si, ora para outrem: - ''Parte do gosto de qualquer especiaria se deve de um lado, ao que os narizes sentem, e de outro, ao que veem os olhos.''
    Durante um sarau, quando lhe foi perguntado, por um intelectual francês, que personagem da literatura era a mais representativa da mulher europeia, De Angelis respondeu: - ''Juliette, é claro.'' O intelectual, pensando que ela, à sua língua, referia-se a Juliet, a famosa Juliet, disse-lhe assim: - ''Ah, uma amante do bardo!'' E, acrescentando com uma piscadela: - ''Acha que Romeu poderia respresentar o homem europeu?'' De Angelis, percebendo que o homem não a compreendera: - ''Juliette, irmã de Justine, francesa, rica, assassina, amoral, ninfomaníaca, apetitosa, sensual, tórrida...'' - ''Ah, essa Juliet...'', disse ele, confuso. De Angelis, para não deixar o homem sem uma resposta, disse-lhe por fim: - ''Sobre o homem europeu, já que falávamos do bardo, acho que Falstaff o representaria bem.''
    Ela tinha um vocabulário próprio: quando via uma braguilha aberta, e ela, mais do que qualquer outra, sempre o notava, comunicava ao seu dono para que fechasse o açougue. Tinha também os olhos bem vivos para os homens altos e de mãos grandes, mas sabia que os pequenos podiam surpreendê-la; afinal, dizia ela, um aspecto que torna fascinante as coisas da natureza são as suas muitas anomalias. Ah, Innocenza De Angelis, sapiossexual, ela se dizia. Eu a conheci numa cafeteria de Paris. Meus um metro e setenta e cinco, minhas munhecas pouco grossas, meu porte discreto não lhe chamaram a atenção. Dinheiro, eu não tinha, e ela não ligava para isso. Como nos aproximamos? Pedi ao garçom que lhe servisse um café au lait simples, e, sabendo da reputação da senhorita, entreguei-lhe um pequeno bilhete, para que pusesse debaixo da xícara:

                     Mademoiselle, ou devo dizer, Signorina, não sabeis o que perdeis. À primeira vista, não dou nas caras, mas este que vos fala e serve é uma anomalia. Vedes a torre de Paris, a torre dos amantes, c'est moi sous les lumières de l'amour.

   Não, eu não era uma anomalia: este sempre foi o meu problema. A mentira, De Angelis descobriria antes da meia-noite. Mas antes de me saber vulgar, como a maioria dos homens, eu muito lhe fizera rir, Innocenza De Angelis tinha bom humor, ou ao menos nisto éramos os dois compatíveis. E não, nunca lhe conheci os interiores, ela era de fato inflexível quanto aos gostos e as medidas.
Candela
Enviado por Candela em 25/04/2020
Código do texto: T6928291
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
84 textos (1341 leituras)
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Candela