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Dos lados obscuros

Heroin, be the death of me.
The Velvet Underground

1
   
   Ao som da faixa número quatro de Exit Planet Dust, Maria Eduarda, às duas da madrugada, praticava abdominais reversos no piso de seu quarto. Mantinha por dois segundos as pernas inclinadas sobre o peito e as soltava, trazia-as de volta e as soltava. A batida frenética não lhe estimulava as forças. O suor nos shorts e na regata branca eram efeito de um som predecessor. Ela precisava de uma harmonia sonora, algo que lhe equalizasse os movimentos, mas Chemical Brothers era uma droga.
   Arrancados os fones dos ouvidos, o duo inglês a tocar sozinho, Maria Eduarda, que praticava exercícios todas as noites, colocou-se diante do espelho atrás da porta para admirar o próprio corpo. Pressionou o interruptor ao lado para acender as luzes e, quando o fez, alguém à rua passou a chamar: ô da luz acesa, ô vizinho, dizia. Ato reflexo, ela escureceu o quarto; ficou de pé diante do espelho, o braço estendido, a mão próxima ao interruptor, o corpo rijo, atento.
   A pessoa lá fora chamou de novo, um tom mais seco na voz: ô vizinho, ô vizinho. Ela escutava; sabia-se infantil, ali parada, a ignorar alguém que poderia estar atrás de ajuda; tinha medo, no entanto. A pessoa chamou outra vez, alto e com raiva, as mesmas palavras: ô vizinho. Ela, como criança, de gatas, aproximou-se da cama e, sentando-se ao chão, esperou. As roupas úmidas do suor se lhe pegavam à pele frias. Aguardava o próximo chamado que não vinha, pensava se a pessoa lá fora já não fora embora, mas tinha medo de ir conferir à janela.
   De repente, quando pensava em se levantar, algo lhe atravessou os vidros indo de encontro ao espelho à porta. O que quer que fosse, passara por cima de sua cabeça. Sentiu alguns fragmentos do vidro nas pernas que, apesar da violência, manteve sua estrutura entre os caixilhos. O espelho à porta não tivera a mesma sorte: podia, à luz da rua, ver-lhe as rachaduras ramificadas, algumas partes lhe faltando. Pétrea como estava, teve o bom juízo de por a cabeça entre os joelhos e abraçar as próprias pernas, preparando-se para um outro ataque.

2

   Maria Eduarda pedira ao professor de educação física que a poupasse da aula. Sentada nos degraus da cancha esportiva observava as meninas rivalizarem as forças num jogo de vôlei. Trouxera os fones consigo: escutava Gassenhauer, o que lhe tornava as coisas mais bonitas, as meninas mais saudáveis, os seus esforços mais sublimes. Entre as mãos segurava um pesado isqueiro, inútil para as combustões, mas belo e vermelho. Fora este o objeto pesado que quebrara seu espelho, não uma pedra qualquer como supora.
   O professor se sentou ao seu lado, retirou-lhe os fones dos ouvidos e lhe questionou sobre os ânimos. O homem não a agradava, vivia a lhe expor os melindres na frente de todos. Às perguntas, ela respondeu com monossílabos, ora positivos, ora negativos, muito mais negativos. O homem, que desenhava sorrisos insinuantes no ar, pôs-lhe os fones aos ouvidos, os dedos a lhe conferir as hélices e os lóbulos das orelhas. O pesado isqueiro, ela o apertou entre as mãos, pensava que talvez lhe fosse possível consertá-lo. O professor se levantou e a deixou ali, os olhos colados à rede no centro da quadra.
    À música se deve poupar as ocasiões ruins, pensou Maria Eduarda, pausando a lista musical, ela se apega à memória como os cheiros também se apegam, devemos lhes dedicar apenas as boas companhias. A aula de educação física acabara, a próxima aula era de história. Inquisição. A professora lhes falaria das superstições, mas nada sobre o sistema de vigilância e denúncias falsas, os jogos políticos de poder que se manifestavam sobre a casaca da religião, onde poucos eram de fato fanáticos e supersticiosos. A escola lhe ensinava muito mais entre os intervalos das aulas, onde aprendera logo cedo que as mulheres, jovens e velhas, ainda temiam as fogueiras.

3

   De frente para o espelho partido do quarto, Maria Eduarda pensava em quem levaria consigo o azar: se ela ou o dono do isqueiro. Nada contou a tia com quem morava, era de fato uma irmã de seus pais, qual deles pouco lhe importava. Encaminhou-se à janela para lhe conferir o buraco no vidro. Não era grande o suficiente para lhe permitir passar a cabeça, mas podia emoldurar o Sol do fim de tarde. Olhando por entre o buraco a praça que ficava lá embaixo, a frente do edifício, inspirou-se-lhe uma ideia.
    À noite, perto da hora morta, foi à cozinha e substituiu o isqueiro pesado do estranho pelo isqueiro um pouco menor e mais leve de sua tia; alheia como era, não lhe notaria as diferenças. Esvaziou o borrifador que continha água para as plantas e o enchou com um frasquinho de acetona; o canudo, não lha alcançando ao fundo, fez com que ela tivesse de sacrificar outro frasco. Deixou as luzes do quarto acesas, vestiu um moletom com capuz, saiu do apartamento e desceu à praça, o borrifador, o isqueiro e os fones de ouvido consigo. No parque, no centro da praça, sentou-se num banco de pedra. Esperava pelo dono do isqueiro.
    Ela não o vira na noite anterior, mas acreditava que o reconheceria pelos modos. Decidiu que o esperaria até as duas e meia. Pôs os fones e aguardou. Nunca fizera isto: sair à noite, de madrugada, a passar o tempo num parque deserto, ainda que perto de casa. Um homem alto, de jaqueta e calças jeans, aproximava-se pelo lado direito da praça. Ela estremeceu. De capuz, tinha a certeza de que o homem não lhe reconheceria o sexo e a idade, ainda assim lhe tremiam as pernas. Encaminhava-se ele à linha invisível que da janela de luzes acesas do seu quarto chegava à ela no centro do parque.
     Eu estou apenas esperando um amigo, um querido amigo, cantava divertido Lou Reed, estou esperando pelo meu homem, aí vem ele, todo vestido de preto... Ela se levantara e caminhava até o homem, a cabeça baixa, as mãos nos bolsos. Você é doida, você é doente, uma voz lhe dizia na cabeça. O homem, no entanto, não havia reparado na janela de luzes acesas, nem agido de modo estranho. Percebendo isso, Maria Eduarda concluiu a sua marcha e observou a figura desaparecer entre as sombras das árvores do lado esquerdo.
      Ela se pôs a esperar perto do meio-fio, por um estranho que não conhecia, a quem queria punir por lhe quebrar as coisas. Eu estou cansada, eu estou exausta, eu podia dormir por mil anos, cantarolava, enquanto nervosamente cuidava os dois fins da rua. À sua janela, um vulto se materializara. Depois do susto, reconheceu a pessoa de sua tia. Súbito, jogou o capuz para trás: estou aqui, tia, tia, estou aqui embaixo, gritava. A mulher não lhe ouviu os clamores, surda como era, e se desmaterializou da janela, levando consigo as luzes amarelas.
      Maria Eduarda, pensativa, retirou dos bolsos o pequeno isqueiro, acendeu-lhe a chama e mirou a própria janela quebrada. E que indumentária porá a pobre menina, para todas as festas de amanhã... Agourenta, Nico cantava em seus ouvidos... Um homem se aproximava ao longe, dobrara a esquina, mas ela não tinha mais medo, não lhe era mais necessário uma fogueira para afastar os frios. A fantasia fora consumida até os paroxismos mais límitrofes de sua sanidade, e isto lhe bastara, ao menos por enquanto. Maria Eduarda tinha abdominais reversos para praticar, e a noite já se punha tarde.
Candela
Enviado por Candela em 24/04/2020
Reeditado em 24/04/2020
Código do texto: T6927429
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
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