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De mulheres e rastos

   Ela usava suéteres de tricô e gorros nos dias frios; frequentava as livrarias e as cafeterias aconchegantes, a caneca, segurava com as duas mãos; connoisseur das bandas indie e dos filmes de ficção científica, mas que não recusava uma sessão independente de uma obra georgiana de Otar Iosseliani; era inteligente, mas não era fria, inocente, mas não deslumbrada, cálida, não conflagrada, escrevia sobre os sinos e as cidadelas, e ainda declamava poesia; nem tanto ao mar nem tanto a terra, nem dríade, nem sereia; tocava com as mãos, olhava com os olhos...
   Falou-me das mãos, mostrou-me as mãos, era escultora. Tudo eu já sabia, e no entanto tudo eu lhe perguntava. Perguntei-lhe onde ficava o museu do centro. Estávamos em meio as gentes e os carros, os semáforos coloridos. Ela não me ouvia, as linhas do rosto comprimidas. Onde fica o museu. Ah, ela me ouviu, falou-me dos caminhos, perguntei-lhe: - ''e um café?''; ela sorriu. Sobre os vapores quentes ela me falou das mãos, mostrou-mas, mas não as tomei nas minhas, não ousava. Perguntei-lhe dos amores; ela não sorriu, fechou-se em copas, cobriu-se de silencios.
Amo a arte, eu disse, para quebrar as reticências. Eu também, ela acrescentou. Ergui a caneca fumegante e disse: - ''Aos amantes''; ela também se ergueu, pôs-se rubra e estranha, à mesa lançou a parte que lhe cabia das contas e se foi embora. Segui-lhe o rasto, era meu trabalho.
   Eu me mesclara aos ofícios, aos objetos dos clientes, aos assuntos proibidos. O marido queria relatórios, eu lhe dispensava discursos de fidelidade; era barbudo e hirsuto, como o Barba Azul, mas parecia Tolstói, e falava de diabos e de Kreutzer. Falava-me ao telefone de diabos e diabelas, chamava à mulher diabela, chamava-a puta. Eu silenciava, mas não consentia. Ouvia-lhe os terrores cancrosos, enquanto a imaginava deitada em melancolia. O homem me dedicava expectativas e abatimentos. - Em ti tenho a confiança, ele me dizia à tarde. - Não confio em homem nenhum, reiterava ele à noite seu mantra. Às mulheres também não dedica confiança, eu quase lhe respondia, mas temia o homem e queria meus barões.
   Quanto a sua mulher, eu lhe acompanhava a vida, mas não a acompanhava sempre. Compunha os meus relatórios, espelhava as minhas horas nas suas, dividia-a com outras e outros, era frustante e era triste. Os outros e as outras não compactuavam com os votos de fidelidade, ela sim, ela o fazia, para a infelicidade de seu marido convicto de maldades, para a infelicidade maior ainda de sua sombra mal intencionada. Como Harker, o velho me mostrara a foto de sua Mina, e de ali passei a errar como um vampiro. Nalgum momento, contei-lhe tudo: falei-lhe dos ardis do velho e das minhas sedes. Queria-lhe as mãos, ela não mas deu. Interpuseram-se entre nós as reticências; eu amo a arte, eu disse, para quebrá-las novamente; mas, para meu horror, transfiguraram-se elas três em pedras de gelo, fazendo-nos frios.
   Segui-lhe novamente o rasto, primeiro a pé, depois de carro. Eu disse que a amava, ela, sabendo que não havia nada, exigiu-me as evidências. Vá para o norte, eu disse, vá para o norte, Por que o norte, disse ela, Direi ao teu marido que escolheu o sul. O gelo se fora, mas não houve beijos. Ao marido contei de viagens e amantes garbosos e austrais, requeri-lhe fundos e pratas. No dia seguinte me pus a procurá-la, financiado pelo homem lhe segui o fantasma; compus relatórios falsos, discursos postiços de deslealdade; falei-lhe ao telefone com a confiança de quem mente de longe, menti-lhe até se esgotar toda a mentira e quando não mais me sobrou material fantasioso com que enganá-lo e éramos ele e eu dois vampiros, resolvi lhe perder a mulher, minha amada, nalguma esquina onde ela nunca estivera. Naquele momento, ali, nalgum lugar, ignoto, minguado de amores, também se punha alguém ao meu encalço.
Candela
Enviado por Candela em 15/04/2020
Reeditado em 12/05/2020
Código do texto: T6918187
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
84 textos (1341 leituras)
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Candela