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OLHO DE BATOM

Entre as pernas dela me encontrei. Era madrugada quente, densa, seu olhar oleoso escorregava junto com a luz do abajur. Cheguei a perguntar entre os dentes qual seria a incerteza dela. A sensação de amnésia orgânica, tentações oníricas que nos assolam na madrugada, desfrutando prazeres obscuros do subconsciente. Na janela ela se equilibrava para fumar, preferiu não responder, sempre julgando teorias freudianas. A silhueta se desenhava com o espectro noturno, refletia tudo no espelho. Desenhou no vidro, com batom, um olho. Então fitei-a de perto, reparando as rugas iniciando no rosto. Auge dos trinta, melhor fase de uma mulher. Então, ainda em vertigem, caminhei até o vértice do cômodo. Na porta mirei o olho mágico e parecia haver movimento por detrás. Peguei na maçaneta lentamente, senti o calafrio na espinha, uma gota de suor na testa; abri rapidamente, ninguém, no chão uma caixa com bilhete. Não entendi, mas tinha o nome dela. Fechei, sem pegar a caixa. Ela perguntou o que era. Eu não respondi. "Facticidades são acontecimentos irrefutáveis", ela disse. "Mesmo quando existem paradoxos envolvidos?", questionei. "Os paradoxos não passam de pessimismo", ela replicou. Neste mesmo instante um brilho oculto apareceu na íris dela, lembrando algumas artes plásticas que admirei durante a vida; também algumas músicas que compus na adolescência. Sempre que lembro, é nela que foco, e perco a força pra seguir em frente. Mas os dias não param de nascer, um atrás do outro, obrigando-me a continuar assistindo a vida passar depressa. Quase seis anos se passaram, parece que foi ontem, o último beijo que ela me deu. Depois disso tento ser feliz com o que restou, mas o vazio deixado é como um buraco que só cresce a cada noite. Ela dizia, "Eu gosto muito de Cazuza, Chico, Caetano..." Me surpreendi, mas eu era a mesma coisa... Foi exatamente neste momento que caí na armadilha, nunca mais consegui ser o mesmo. Fui para a capital, depois viajei para o Paraná, Minas. Voltando a Santos, larguei de mão. Tinha que prosseguir em paz, não sabia o poder de frustração do amor, me arrastou moço, sem ter visto a vida... Entre as folhas do outono, reviro lembranças inconscientes, trazendo a tona sentimentos mal resolvidos. Passaram sete anos, tudo continua como antes, inclusive meu estatus psicológico. As vezes vejo fotos dela nas redes sociais, está mais bonita, e não sei descrever o que sinto. Só me arrependo.
Álvaro Augusto
Enviado por Álvaro Augusto em 09/04/2020
Código do texto: T6912044
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Álvaro Augusto
Santos - São Paulo - Brasil, 26 anos
14 textos (482 leituras)
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Álvaro Augusto