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Entre ruas, entressonhos

   1
   À hora do orvalho, perturbado por não sei o quê, eu deixei meu apartamento, fui às ruas. Denonimo assim as horas da noite em que sou assolado por perturbações de cunho psicológico. A essas horas sempre vou às ruas. Paro à esquina e espero por um cabriolé noturno. Digo ao condutor que vá, que simplesmente vá.
   Havia uma estória. Uma estória em parte esquecida por mim. Tornei-me escritor por sua causa. Queria muito lhe conhecer o fim. Queria tanto que, na impossiblidade de conhecê-lo, pus-me a criá-lo. A estória era sobre um homem que voltava para casa à noite. Em dado momento se decidia por evitar a própria casa, pressentindo que homens o seguiam. Três homens. Passava ele a se lembrar de uma história que lera nos jornais com personagens, caminhos e situações semelhantes as suas. Desertas e escuras vão se lhe tornando as ruas. Mais certo o bom homem está de que três senhores o perseguem. Mais dominante se torna o seu medo. Há nalgum lugar um beco estreito no qual se envereda... Como tudo acaba? Aí está! Aí está!
   Dei-lhe um fim, isto é certo. A estória, infelizmente, não ma pertence. De nada adianta lhe dar fins, cores e formas. Todas as sombras e todos os fantasmas que conjuro me são amigáveis, não me metem os medos.
   O condutor se virara para mim, sua voz remota me fazia voltar de longe onde estava, Senhor, importas-te a breve companhia de um senhor e sua senhora, perguntava. Assenti com a cabeça. Isto era incomum. Senti-me perturbado no primeiro instante, mas no segundo pensei que imprevistos como este deveriam ser bem-vindos a homens imaginativos.

   2
   Devo vos descrever o cavalheiro e a dama? Nunca foi de meu interesse como escritor descrever em detalhes as vestes e os perfis anatômicos de meus personagens. Sempre me interessou muito mais o impacto recíproco dos corpos e das almas, a maneira como o indivíduo altera o meio pela sua mera presença, como o meio se inscreve no indivíduo, e como este por sua vez afeta e reage a seu semelhante.
    Cumprimentamo-nos. Apresentamo-nos.

    F...F... Tu exerces o curioso ofício da escrita, estou certo?

    Isto me perguntou o cavalheiro. Respondi-lhe que sim e lhe perguntei o que havia de curioso na escrita.

    Curioso pensar que, embora alguns de nós tenhamos muito o que dizer, tenham os outros a vontade e a vocação para nos ouvir e compreender.

    Dito isto apertou a dama contra si, como se aquela fosse uma convicção que ambos houvessem há muito concordado em termos. A jovem senhora não desviava os olhos dos meus, parecia jamais piscá-los. Eu não lhe suportava os desafios, concentrava-me mais ao homem que filosofava. A vocação, perguntei-lhe.

    Sim. A vocação. Escutar, diferente de ouvir, é um talento. A compreenção de que a linguagem do outro é uma grade que se sobrepõe à nossa, nunca completamente idênticas, dificilmente análogas, essas grades, por assim dizer, quando semelhantes nalguns pontos, permitem o entendimento entre as partes. Escutar é estar ciente do ruído entre as naturezas. A maioria dos homens, e das mulheres, é claro, não tem essa ciência.

    Tu escreves, perguntei-lhe.

    Minha mulher escreve. Escrevia. Eu lha entregava tijolos e ela me trazia monumentos.

    Perscrutei a dama. Era jovem. Parecia a mim ter ela a metade dos anos vividos pelo marido. De olhares penetrantes e incômodos, insistia nos desafios. Como la fée verte, desorientava-me e me invadia de ideias. Pensava e desenhava essas ideias quando de súbito o cavalheiro pediu ao condutor que parasse.

    3

    O cavalheiro, fabricando rapidamente desculpas e razões, pôs-se para fora, dizendo-nos que logo retornaria, compromissos, coisas afins. Disse à mulher que me entretesse. Deixou-a a minha frente, as pernas e os braços cruzados, o pescoço inclinado, os olhos interminentes. Sua postura dissentia das mulheres da sociedade, aliás, das mulheres de qualquer espécie e classe.

     E tu, escritorzinho, para onde vais que nunca chegas?

     Fiquei um tanto espantado com a sua manifestação. Não esperava que me falasse. Muitos menos que me tratasse por escritorzinho. Propus-me então a lhe aceitar os desafios: contei-lhe das angústias sonambúlicas, da calmaria das noites, das rodas sobre os paralelepípedos; mas o fiz com frases curtas, rapidamente, como se nada fosse. Ela nada me dizia, apenas me encarava. Abri-me demais, pensei. Não se deve expor as feridas a estranhos. O interlocutor pode tanto ser um alienista quanto um vampiro. Sobre o que tu escrevias, perguntei.

    Plantas que devidamente cultivadas rebentam sonhos.

    Ah, lar dos desapossados, melífluo é o olor
    e homens, homens a murmurar, possa eu, possa eu
    desse perdido gueto fazer meu verde jardim
    e sonhar, sonhar e sonhar contigo nosso amor

Declamara ela as artes suas, assim, os olhos nos meus olhos, e no entanto sem paixões, nem sedução, nada, mas com ciência e uma curiosidade quase esfaimada. Eu queria saber de outros versos seus, mas chegara o cavalheiro. Sentou-se ao seu lado, apertou-a contra si, sorriu-me e só. O cabriolé seguiu pelas ruas, conosco em silêncio dentro dele. A jovem senhora, os olhares me tomando sempre como objeto, sopraria alguma coisa ao ouvido do marido. Este lha entregaria um recorte de papel e uma caneta-tinteiro. Entretida em seus escritos ela me permitiu me desabafar de si. Dali a algumas quadras o cavalheiro pediria novamente ao condutor que se parasse o carro. Desceriam ambos agora. Não houve despedidas, como se entre nós não houvesse sido trocada palavra. No entanto, havia o recorte de papel. Um recorte que a jovem senhora, olhando-me ainda mais profundamente nos olhos, fez questão de que eu notasse ao deixá-lo cair sobre os assentos, logo que se erguera para descer com o marido. Era um bilhete. Nele havia esta mensagem

    Senhor F... das andanças noturnas, das vigílias de sonhos lúcidos, o senhor nos era esperado. Amanhã ou depois um polícia irá ter convosco. Perguntar-lhe-á sobre um casal distinto. Quererá ele saber de vós se ambos, homem e mulher, estiveram o tempo todo em companhia do senhor. Da Rua A.M. à Rua H.P. O senhor lhe dirá que sim. Quererá ele saber se nalgum momento descemos entre a Rua A.M. e a Rua H.P para fazer um interlúdio. O senhor lhe dirá que não. Caso vossa memória se perturbe por qualquer razão, encontrar-nos-emos convosco para aclará-la às horas do orvalho que tanto prezais.
    O senhor queria versos, dedico-lhe o mais belo de todos:

    Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?
Candela
Enviado por Candela em 21/03/2020
Código do texto: T6893055
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
86 textos (1371 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/09/20 13:54)
Candela