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Texto Ilegível (Brakhage)

   Caminhava eu... eu que vos fala, que vos escreve, que narra, que está aqui, mas não está, da mesma espécie que a vossa, que usa as mãos, não a boca, para expressar os pensamentos... falar, comunicar-se, emitir sons, transmitir uma mensagem, gesticular, porém não movo os braços, não diretamente para alguém, indiretamente sim, pois escrevo... combino caracteres, símbolos, sons, como uma música, como um músico, uma combinação de sons, de movimentos de ar, de frequências, de recepção e sensibilidade auditiva... narro, com as mãos, aqui onde estou, no meu quarto, entre quatro paredes, um abrigo do tempo, das chuvas e do Sol, um covil, uma proteção, uma casa, a espécie define a combinação especifica das macromoléculas, dos órgãos e dos tecidos, dos corpos, hábitos e engenhosidades, a mesma, igual, semelhante, acredito que sim, tenho fé, uma crença, digo que acredito porque me parece certo, porque assim posso ir adiante, pensar em outras coisas, as mãos, magras, brancas, com alta precisão nos dedos, jovens, sem elas não haveria cérebros pensantes, pois lhe faltariam impressões intensivas e diárias, não haveria a palavra mão, só as mãos, não haveria o pensamento, os sons articulados de conteúdo abstrato, a boca é fina, lábios finos, sem expressão, pequena, escotilha orgânica por onde entra o combustível vegetal e animal, sem ela outra coisa com certeza haveria, haveria o pensamento sem a boca mas não sem as mãos... expressar, delinear, pôr em ordem, pincelar, por a pressão para fora, ex-pressão, pensamentos, como defini-los, imagens mentais, não necessariamente pictóricas, ondas elétricas, contínuas, como um filme, um monólogo interno ininterrupto... caminhava eu pela rua... movimentava-me, locomovia-me, deslocava-me, trocava de lugares, avançava, o atrito da borracha me projetava para a frente na calçada de pedra, eu, este que continuo a escrever e a narrar, a rua, lugar ao ar livre, urbano, caminho, passagem, uma estrada que divide os quarteirões, não necessariamente uma estrada, ou um caminho, uma praça, mas não deslocava-me em uma, caminhava entre prédios, edifícios, construções, covis, casas, lares empilhados, mais próximo a uns que a outros, caminhava eu assim....
Candela
Enviado por Candela em 13/03/2020
Código do texto: T6886910
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
86 textos (1372 leituras)
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Candela