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Semeava-se inocência, pensou por fim o pescador

Eu encontrei um homem em uma praia. Caminhava resoluto para o mar aberto, as águas o cercavam pelas cinturas. Ele não me podia ver, eu fazia a curva pela orla da ilha quase às costas dele, comecei a gritar como um louco. Eu estava sozinho ao barco. Um pequeno barco de pesca. O homem parou, olhou em minha direção, e esperou. Não se moveu até que, próximo o bastante, pedi que subisse a bordo para conversarmos. Logo no início de nossa entrevista percebi que havia algo de estranho no homem, algo lhe faltava.

- Pensei que quisesse morrer, homem, eu disse, olhando-lhe com o sorriso na boca, mas de olhos atentos.
- O que disse?, perguntou ele.
- Pensei que quisesse se matar, foi o que eu disse.
- Matar?
- Sim, exatamente.
- O que quer dizer?

No primeiro momento, pensei que fosse estrangeiro. Não possuía sotaque, no entanto, exceto por uma maneira singular de se expressar. Falava de forma limpa, declaradamente punha as palavras para fora da boca. As faces e o porte assemelhavam-se aos meus e a de meus conterrâneos. Perguntei-lhe assim mesmo se era estrangeiro. Sua resposta foi esta:

- Não, não sou estrangeiro. O senhor é que é estrangeiro.

Disse-me então que nunca tinha me visto. Perguntou o meu nome, eu lhe disse. Perguntei o dele. O nome era finlandês, como o meu. Perguntei-lhe se sempre morara na ilha, respondeu-me que sim. O que fazia no mar, eu disse. O homem ficou pensativo, mirou o piso do barco sem realmente mirá-lo, levantou a cabeça para a linha entre o céu e o mar. Nada disse. Pus-lhe a mão ao ombro.

- Morrer, homem, morrer.
- Morrer, morrer, morrer, o que é isso? O que?

Não conhece a palavra, perguntei-lhe. Balançou-me a cabeça agoniado. Ele tinha os cabelos bem pretos, era forte, estatura mediana, parecia viver os seus primeiros quarenta anos. Quase tão velho quanto eu, de cabelos brancos, de corpo ainda vigoroso. Seu comportamento, no entanto, assemelhava-se ao de uma criança perdida. Sim, faltava-lhe algo.

- Tem família?
- Sim, tenho. Deixei-os no Jardim.
- Jardim?
- Nossa casa, no coração da ilha.

Família grande, indaguei. Ele me enumerou oito irmãos, dois professores e três cuidadoras. Eu, que pretendia retornar antes de anoitecer, decidi atracar o barco por aquelas águas. Sentei-me a sua frente, fiz-lhe mais perguntas. Vez ou outra, em meio às palavras dele, lançava para a ilha as suas costas olhares arrepiados de excitação e medo.

- O que fazem lá?
- Estudamos, praticamos as artes, a cópula.
- Há quanto tempo?
- Como?
- Há quanto tempo, meu deus. Quantas vezes o Sol surgiu no horizonte para por fim se enterrar no mar à noite, meu bom homem?
- Eu vi o Sol surgir no horizonte para se enterrar no mar, trinta e nove mil setecentas e oitenta e cinco vezes.

Eu, assombrado, levantai-me de súbito, e corri para a cabine. Lá fiz cálculos. Dividi o número de vezes que o Sol havia nascido e morrido, de acordo com o homem, pelo número dos dias que compõe os anos.

- Como tu era quando observou esse fenômeno pela primeira vez?

Ele, de onde estava sentado, olhou para mim e com um movimento firme bateu com a mão direita na minha cintura. O gesto me era claro. Oito anos de idade, quem sabe? Com oito anos viu ele o Sol pela primeira vez? Ou ao menos até aí lhe vai a memória. Alguns anos a mais ou a menos, não importa, este homem não pode ser quase um centenário, parece ser mais jovem do que eu!

A noite chegara, o barco flutuava a algumas milhas das primeiras vegetações da praia, sobre nós apenas as estrelas, em derredor a água silenciosa matava a sede da negra ilha.

O homem me disse que as cuidadoras e os professores raramente deixavam o Jardim, e quando o faziam, outros entravam em seu lugar. Ele e seus irmãos nunca deixaram o Jardim, embora isso lhes tenha sido prometido.

- ''Sairão daqui vocês, como todos nós, quando precisarem de um coração, ossos na boca e ferros nas pernas.'' O que os professores sempre nos dizem, quando eles ou alguma das cuidadoras tem de deixar o jardim.
- Quantos professores já teve?
- Nossa professora é a segunda. Nosso professor é o terceiro.
- Professores... Nunca lhes ensinaram sobre o tempo e a morte?
- Tempo. Morte. Não. O que são o tempo e a morte?
- Meu deus, homem, sou um pescador.
- A arte de pescar.
- O que?
- Agora é o senhor quem pergunta ''O que? O que?''. Agora me sinto melhor, por alguma razão.

Tem fome, perguntei-lhe. A fome ele compreendia, e compreendia bem. Comemos os dois à luz de lampiões. Depois de satisfeitos, do silêncio relaxado que se seguiu, o homem me volveu de súbito questões que eu nunca elaborara

- Patrik Janhunen, o que é o tempo e a morte?

- Nyman... percebeu o peixe que acabou de comer? Ele estava morto, teve o seu tempo.

- Ter o tempo e morrer. Quando se sabe o tempo que se tem as coisas?

- Quando se está para morrer, aí então se sabe, seja peixe ou homem. Acredito que o peixe seja feliz porque não sabe que será fisgado um dia, e, veja bem, talvez nem o seja, o mar é imenso. Ainda assim, um dia perecerá ele. Assim são as coisas. Nós, homens, seja na terra vasta ou no imenso mar, temos conosco sempre a convicção de que tudo passa, por nós e para nós. Nós que passamos pelas coisas que passam, e isso é o tempo.

- Ainda não compreendo.

- Não compreendo eu porque não lhes falaram dessas coisas. Não há nada mais natural.

Perguntei-lhe dos irmãos, se sempre foram oito. Contou-me ele que sim, que, no entanto, assolava-o a impressão de que tivera outro quando pequeno. Morto, será? Não lhe questionei isso. Fui a cabine, procurei por fotografias e lhas depositei nas mãos.

- Eu, de pé, como pode ver. Esta era minha mulher e este era meu filho.

- Onde estão eles?

- Deveriam aqui estar comigo, entende. Como na fotografia. Mas tiveram o seu tempo, e agora sou só eu. Compreende?

- Mortos... Desapareceram? O que se fez com eles?

Tomei-lhe a fotografia das mãos, lancei-a ao mar.

- Enterrei-os. É assim que fazemos fora do Jardim. Morre-se com o coração. Morre-se também com os ossos na boca. Morre-se com as carnes fortes nas pernas...

Retornei a cabine, buscava eu abrigo, deixei-o sentado com as perguntas, e lá, longe da vista e dos ouvidos daquele homem, pus-me a segurar as lágrimas e a firmar o corpo que queria convulsionar de doridas memórias. Como um fantasma, Nyman, parado agora a entrada da cabine, perguntava-me quantos sóis eu vira se enterrar no mar.

- Dezenove mil setecentos e dez, eu lhe respondi sem pensar, diabolicamente exato.

- O senhor tem menos experiência do que eu.

Comecei a rir, primeiro aos soluços, depois descontroladamente. Gargalhei para o mar, gargalhei-lhe na cara de bobo. Meu corpo sacolejava de graça e incompreensão. Mais calmo, mirei a ilha negra e silenciosa e comecei a lhe injuriar. O maldito também não compreendia os palavrões, de outro modo teria me golpeado por insultar o seu nobre Jardim.

- Sabe o que é a morte, disse-lhe, batendo-lhe a mão espalmada no peito, A morte é o fim da lida, da dor, morre-se porque a dor nos destrói aos poucos, a vida nos lapida o rosto a pontapés e socos, o tempo, o tempo é o quanto esse nosso corpo cheio de água saindo pelos poros aguenta, acabaram-se as forças, acabou-se o tempo. Nunca viu um pássaro cair de uma árvore? Não sabe que as baleias despencam no fundo do oceano como um saco cheio de pedras quando lhes termina o tempo? Até as labaredas se vão, levando consigo o que podem. Tu, desgraçado, que viu o sol se enterrar na água mais do que eu, nunca vai morrer porque mora num jardim, onde estuda, pratica as artes e copula. Não te falta nada, maldito. Qual lugar sobra para o medo? Teus irmãos sempre contigo, nunca lhes sentiu a falta. Não te ensinaram que vai morrer, esconderam de ti a morte. Por que caminhava para o mar? Cansou do paraíso? Ouviu uma palavra intrigante sendo sussurrada entre as mulheres? Mundos? Amores? Sonhos? Aposto que sonhava pela primeira vez quando o encontrei hoje com as águas pelas cinturas. Vai ver muitos sóis e muitas luas ainda. E pra quê?

Perdidas as forças, sentei-me onde pude. O maldito me fitava atônito. Ainda que o odiasse, pedi-lhe desculpas. Compreende isso, desculpas, perguntei-lhe com deboches. Desculpa. Desculpa. Luzes apareceram entre as vegetações da orla da praia. Mostrei-lhas.

- Teus irmãos?
- Leve-me para o mundo, Patrik Janhunen, pediu-me ele, dando as costas às luzes. Por que veio para estas águas afinal?
- Fugia eu desse mundo pelo qual tu anseia, ao menos por algumas horas, e comecei eu a rir de novo.

As luzes se aproximaram das águas. Começaram a chamá-lo. Pedi-lhe que me ajudasse e começamos a pôr o barco em movimento. Aos poucos deixamos para trás as luzes e o coro de vozes. Navegamos pelo resto da noite sem nada dizer um ao outro até que nos iluminaram as primeiras cores da alvorada.

- Sente-lhes a ausência, Nyman, perguntei.
- Acho que sim.
- Como é, meu velho?
- As palavras querem ficar na garganta, é assim que eu sinto.
- Sim, é assim.

Nas águas de casa, os homens me esperavam. Sabiam dos meus costumes de vaguear pelo mar, mas nunca passara nele uma noite inteira. Atracado o barco, desci. Explicava-lhes as aventuras quando Aki Rehn, dentro do meu barco, perguntava-me onde tinha achado o rapaz. Nas águas daquela ilha que os homens evitam, respondi-lhe.

- Como morreu ele, perguntava-me a voz de Rhen, para o assombro de todos que ali há pouco brincavam e gracejavam.

Subi rapidamente para o navio, onde Rhen, acocorado, examinava o corpo caído do homem. Logo aproximaram-se todos. Rhen olhava para mim e repetia, Como ele morreu, afogado não foi. Quem é ele, perguntava um. Patrik, Patrik, diziam outros. Falei-lhe do tempo, respondi-lhes, falei-lhe da morte, não deveria tê-lo feito...
Candela
Enviado por Candela em 08/03/2020
Reeditado em 08/03/2020
Código do texto: T6883486
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
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