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A casa sem janelas

   Uma casa de ângulos retos. Não havia alpendre, não havia pórticos; sem arcos, sem colunas, e nem janelas salientes, e nem fontes no jardim. Não havia um jardim. O que havia era um espaço gramado, ervas irmãs de tamanhos irregulares, de aspecto bruto, aqui e ali drenadas pelo Sol, amareladas e secas. A casa não era um templo, não era um mausoléu, também não era um lar. Não possuía uma cobertura de telhas, não era de madeira, não tinha cores.
   Eu entrei na casa. Havia um insinuamento de presença humana, pois havia móveis, armários, mesas. Pó não havia. Tudo era extremamente limpo, luzidio. O interior da casa não possuía objetos decorativos, fotografias, quadros e pinturas, tudo era dedicado às necessidades primordiais: o prato, com seus talheres lhe margeando as bordas; o vaso sanitário, branco e lustro; servida de um travesseiro de penas, a cama muito bem arrumada.
   Sentei-me a uma cadeira magra e sem estofo, acendi um cigarro e o meti na boca, introduzindo o vício aquele meio de ascetismo. Sobre a mesa, algumas moedas sobre algumas notas de valor insignificante. As janelas, abertas todas, permitiam uma agradável corrente de ar. O ar era puro, o silêncio também. O assoalho de madeira era composto de tábuas velhas que lutavam entre si pelo espaço, contorcidas e carcomidas pelo tempo e pela umidade. Procurei um espelho, e não o encontrei. Relógios também não eram bem-vindos.
    À hora crepuscular voltei ao carro, tomei do banco de trás uma jaqueta, e de volta à casa, preparei-me para os parasitas da noite. Eles não vieram. Acendi uma vela que logo se apagou. Protegi a chama seguinte com as mãos, mas logo as afastava, a chama, agonizando para todos os lados, se extinguia. Não havia guarnições nas janelas, e o vento era vivo e constante. Voltei ao carro, e lá comi o pouco que trouxera comigo. Observava a casa, iluminada pelos faróis. As vozes no rádio falavam de distúrbios, as grandes estrelas desse céu afastado, indolentes e brilhantes, pareciam não se importar.
    Acordei com batidas insistentes no vidro. A atmosfera fria e azulácea me dizia que era madrugada. Do lado de fora, uma senhora idosa, e, ao seu lado, uma jovem de cabelos escorridos e sujos. A senhora fazia sinais. Eu abri o vidro. Introduzimos um ao outro, e ela me convidou para entrar na casa. Logo que passou pela porta, dirigiu-se rapidamente para a sala, na direção da mesa de madeira, e contou as moedas e as notas que lá estavam. Lançou-me um olhar desconfiado, passou por mim, e passou a jovem nos braços, levando-a consigo para a cozinha. De lá, rogou para que eu me sentasse à mesa. Ela preparava qualquer coisa para comermos.
   Enquanto comíamos, eu dividia o tempo entre garfadas e olhares inquisidores; a senhora, com o prato servido diante de si, não tocava em nada, mantinha as mãos uma sobre a outra, e indiscretamente observava-me comer; a jovem moça, por sua vez, devorava tudo sem muito mastigar, não podia ver-lhe o rosto. Fiz perguntas, algumas discretas, outras nem tanto. Obtive da senhora respostas curtas e evasivas, parecia procurar as perguntas por trás de minhas perguntas, os julgamentos tácitos por trás dos meus olhos curiosos. Levou-me a um dos quartos, disse que aquele fora reservado a mim, que poderia desfrutá-lo agora.
   Sentado sobre a cama, observei a jovem trazer roupas e toalhas, colocá-las aos pés da minha cama. Ao ajeitá-las, puxou com os dedos os cabelos pesados para trás da orelha, e pude ver que era muito bonita: os olhos os mais verdes, a pele queimada do Sol, o maxilar forte e bem desenhado. Ela sai, para voltar em seguida com uma bacia e um regador. Deposita a bacia sobre o criado-mudo, ao lado da cama, e começa a enche-lo de água. Pede com gestos que eu me aproxime, mira a água que, em excesso, deixa-se vazar pelos cantos, umedecendo o móvel, e com a mão no meu pescoço me conduz a fazer o mesmo.
   Via o seu rosto ao lado do meu, seus lábios se moviam na água, e sua voz dizia

           Gostas do que vê? Gostas do que eu vejo? Bem aqui jaz o que te compete de vaidade.

   Deixando-me pensativo, caminha sem fazer barulho até a porta, os pés descalços, para ao portal, volta-se para mim e, imitando uma criança, diz, sátira

            Ah, e quando quiseres ver as horas, mira o teu rosto.
Candela
Enviado por Candela em 25/02/2020
Reeditado em 28/02/2020
Código do texto: T6874330
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
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Candela