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Planos para ninguém

Cinco jovens viajando juntos. Da perspectiva de um morador dos morros eles eram apenas dois pontos de luz. Dois iam a frente, três atrás. Ángel, Ramnefjellsfossen e Olo'upena tem trompas. Tugela e Calisto tem uma próstata cada. Todos sexualmente ativos, exceto Calisto, que tem nome de lua. A umidade da noite os envolvia como um líquido amniótico. Era aconchegante, Ramnefjellsfossen dormia: a cabeça batia de leve no vidro da janela num ritmo cadenciado, embalando seu sono pesado. Tugela e Ángel mordiscavam os lábios um do outro, havia tensão, eles diziam, e a tensão estava nos lábios. Olo'upena dirigia e cantarolava baixinho: knows not where he's going to/ isn't he a bit like you and me... Calisto mantinha os olhos sobre a estrada amarela dos faróis, temia que sofressem um acidente se não se mantivesse atento aos sucessos das coisas.

No banco de trás:

- Ángel: Olha, 'tá sangrando.

- Tugela (com uma lanterna): A sua 'tá bem feia também, vai doer depois.

- Ángel: Aí você me beija.

No banco da frente:

- Olo'upena: baby, you can drive my car/ yes, I'm gonna be a star...

Ramnefjellsfossen sonhava. Calisto seguia os faróis com os olhos arregalados.

- Ángel: ah, a Lua. Onde estás? Pedra de prata leitosa... - dizia, enquanto punha o corpo para fora - Por que se evade, porque a fuga; faz de uma regra universal a minha tristeza recorrente...

- Olo'upena: porra, vai perder a cabeça, sua desvairada.

- Ramnefjellsfossen: O que houve?

- Tugela: o novilúnio, de novo.

- Ángel: porre de noite, porre de dia. Ah, Ramnefjellsfossen, acordou? Desceste até as estrelas, até aos limiares mais pulsantes da carne, ou reencarnasse numa planta verdinha num solo árido e desolador, hein loirinha?

- Olo'upena: cala a boca, Ángel. Calisto, sabe onde estamos?

- Tugela: Calisto, nosso guia. Você se perdeu, Olo'upena?

Olo'upena para o carro e desce, Calisto e Ramnefjellsfossen também. Deambularam em torno do carro; Ramnefjellsfossen apurava os sentidos, estremecia; até que foram os três engolidos pela escuridão que se fez de repente. Uma risada varou a noite. Ángel desligara os faróis, no banco da frente do carro, com as pernas jogadas sobre o painel, mantinha o rosto iluminado pela lanterna, e se podia ver os lábios feridos e vermelhos emoldurando os dentes branquíssimos.

- Olo'upena: Cadela.

- Calisto: Deixe-a.

- Tugela: E aí, meninas (disse, saindo do carro). Calisto, varão. Cadê o caminho? Onde estamos?

- Ramnefjellsfossen: Estamos muito alto.

- Tugela: O quê? Você está ''alta'', cara.

- Ramnefjellsfossen: Estamos, sim. Não sente o corpo mais pesado?

- Tugela: Sempre sinto meu corpo pesado.

- Olo'upena: Está ficando muito frio. Vamos voltar.

Os cinco jovens aguardavam juntos. Ángel, agora dormia, as mãos entrelaçadas entre as pernas, pressionando o ventre. Tugela, inclinado sobre o encosto, mantinha fechados os olhos; pensava. Olo'upena, Calisto e Ramnefjellsfossen deliberavam sobre onde poderiam estar. Olo'upena tinha certeza de que seguira os caminhos adequados. Calisto acreditava que um único desvio fora o suficiente para pervertê-los. Ramnefjellsfossen temia que a culpa fosse sua: vamos continuar, disse.

Olo'upena ligou o motor. O carro foi girando rodas lentamente, os faróis iluminavam uma estrada de terra que, aos poucos, se cobria de juncos e perdia seus contornos. Ramnefjellsfossen sentia o cheiro do mar. As falésias, ela dizia, as falésias. Chegamos, então, concluía Calisto, ficamos preocupados sem razão alguma. Um pequeno desvio, acrescentava Olo'upena, não nos pervertemos. Tugela, onde estão as garrafas, perguntava Ramnefjellsfossen. Ah, suas reses, acharam o caminho, elas estão no capô.

Tugela - Quem vai lançar primeiro? Vai você, Calisto. Quais teus planos?

Calisto, sem dizer palavra, pega a sua garrafa, aos pés de Tugela, e a lança com toda a força para o mar.

Tugela, admirado, faz o mesmo, gritando: Little Boy!

- Vai lá, wicca dos vahalla. Quero ver o teu molejo.

Ramnefjellsfossen - Cadê a Ángel?

Tugela - O anjo dorme.

Dá minha garrafa aqui, diz Olo'upena, e a observa até cair e ser absorvida pelo mar.

Ramnefjellsfossen olha para trás, para o carro, por alguns instantes, caminha até sua garrafa e a arremessa. Falta-lhe força e jeito, e a garrafa, fazendo uma curva rídicula no ar, retorna, e se espatifa em rochas próximas.

- Mau presságio, diz Tugela, Ángel, a Porcelina fez cacaca, tua vez!

Ramnefjellsfossen se ajoelha sobre a beirada do penhasco, como se pudesse recuperar seus planos perdidos. Calisto e Olo'upena, de pé e de mãos dadas, ficam a seu lado. Um berro estridente os sobressalta. Ángel, às suas costas, os observava, a garrafa abraçada contra o peito.

Podem me dar a licença, pediu ela, mal iluminada pelo Sol que se assanhava no horizonte, por detrás do grupo, e disparou na direção dos amigos de caras assustadas.

Mal tiveram eles tempo de pensar no que ocorrera, Tugela se lançou atrás de Ángel logo depois. Ramnefjellsfossen mirava, hipnotizada, o precipício; Calisto cobria os olhos para protegê-los do Sol que nascia e crescia mais forte; Olo'upena cantarolava para espantar os medos. Though the days are few, they're filled with tears...

Ángel não suportava o sol, disse Calisto, nos atrasamos.
Candela
Enviado por Candela em 23/02/2020
Reeditado em 25/03/2020
Código do texto: T6872666
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
86 textos (1372 leituras)
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Candela