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A visita

  Um homem em uma sala. A ansiedade o dominava. Livre dos vícios químicos, roía as unhas, e isso lhe dava imenso prazer; cuspia os fragmentos de unhas com os olhos fixos num ponto qualquer perdido em uma profusão de pensamentos. As pernas cruzadas de um modo como não gostava, como uma mulher, costumava pensar, mas disso não se apercebia, estava concentrado em não sei o quê: o corpo rígido. Um alarme soava na rua, arrancando-lhe dos pensamentos fugazes e trazendo-lhe de volta uma lembrança: de quando pequeno, com seu pai, acionara o alarme de um armazém sem o querer no meio da noite. Ninguém apareceu, e isso o assustara. Ele e seu pai olhavam para o começo e o fim das ruas, e nada, e ninguém. Como se não houvesse ninguém, apenas os dois na noite escura. Agora era apenas ele, sentado em um banquinho, ao lado da porta, atento aos ruídos do corredor, das escadas, aos cinquenta e um anos. O alarme cessa, vozes se seguem, uma voz grave, outra de mulher. Passos no corredor! Risos... não, ela não riria, não agora, não com alguém, os risos e os passos se afastam para os andares superiores. Percebe as pernas cruzadas, e as descruza, afasta-as e pousa as mãos sobre os joelhos, como um homem, despreocupado, mas resoluto. Ele estava atuando, mas não o percebia, atuando para o juiz interior de si mesmo, mas não o sabia. Superficialmente rígido, superficialmente atento, perdido em pensamentos profusos agora, sem ouvir as primeiras batidas à porta, sem ouvi-la chamá-lo, pai, pai...
    Ele cede-lhe o banquinho, tranca a porta, mira de pé a filha e a cobre de perguntas. Uma moto passa trovejando pelas ruas, levando com ela algumas palavras da filha, deixando-lhe por instantes sua imagem, sua boca, seus movimentos despreocupados, tão opostos aos seus. Ela lhe assegura enfim que tudo está bem, e que vai embora, ele insiste para que ela fique, e ela insiste que tem de ir. Ele a acompanha até a rua, até ao meio-fio onde ela para para fazer uma ligação, fala ao telefone alto, com desenvoltura e segurança. O pai caminha até o meio da rua vazia, observa, ora o começo, ora o fim da rua, como um adolescente sentindo a firmeza do asfalto sob os pés, o vento frio da noite na nuca, sai daí pai, ela lhe dizia, eram apenas os dois na noite escura agora, o alarme, prelúdio do silêncio, estava em seus ouvidos, não nos dela, e ela logo iria embora, e isso o assustava.
Candela
Enviado por Candela em 17/02/2020
Reeditado em 28/02/2020
Código do texto: T6868376
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
86 textos (1371 leituras)
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Candela