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Um jogo de futebol

Estávamos perdendo. Eu corria pela lateral direita do campo de ataque. O foco ofensivo se dava do outro lado. Neutralizado; mais uma vez. Eles eram muito velozes; e mais uma vez tiro de meta para nós. Quase o quinto. Que baile.

E eu mal toquei na bola.

Jogo bugado. E eu escolhera o nível fácil.

Escanteio contra eles. Lá vou eu. Sou o homem da bola parada, o homem da bola invisível também. Ao me aproximar da lateral do campo, me deparo com a torcida fervilhante e agressiva, mas no meio dela uma figura me chama a atenção: uma presença silenciosa, sem cores vivas, e sem expressão.

Com a bola em mãos, olho por cima do ombro para o campo e os jogadores todos, companheiros e rivais, a me mirar e a entreolharem-se, a repetirem os mesmos movimentos após alguns segundos, e de novo, e de novo; à minha frente a torcida, fervilhante e agressiva, a repetir-se, os mesmos gestos fanáticos, o brilho da saliva humana somando-se aos pontos de luz do sol, e no meio dela, a presença alheia àquele sentimento e, agora, ciente do meu.

O mundo virtual cessa seu teatro por instantes, até que lentamente a bola cai das minhas mãos, meu corpo é levado, como que por mágica, à boca da grande área e um novo jogador se posiciona à lateral para bater o escanteio, e o faz. Volto meus olhos para a torcida, e a essa distância não a vejo, a presença que é uma pessoa, que não pertence a esse mundo. Uma comoção desce sobre o campo: fizemos o gol. Quatro a um o placar, aos trinta e oito minutos do segundo tempo. Mais uma vez, como que por mágica, sou transportado à lateral do nosso campo de defesa, mais distante da presença que me intriga; tenho pouco mais de sete minutos para contactá-la.

O gol de honra nos relaxa, nossos marcadores cansados correm atrás dos adversários que, por sua vez, correm atrás da bola sob seu completo domínio. Os minutos passam. Uma falta no nosso campo de defesa me concede a oportunidade da sua cobrança e de um curto lapso de tempo.

Revisto o panorama do estádio cheio e ruidoso e nada, nada exceto o mundo que se repete. Preparo-me para a batida, quando uma voz me chama, às minhas costas. A presença, sem as cores vibrantes do regozijo, sem a expressão marcada pela euforia dos que a cercam, agora de pé, a beira do campo, pergunta o meu nome, quando o apito final soa e o jogo se encerra.

Opa, quatro a um, para o nível fácil é um recorde, Quem era a pessoa que falou comigo, Pessoa, Sim, saiu da arquibancada e perguntou meu nome, Nenhum torcedor sai da arquibancada, isso é contra as leis da programação, todos os movimentos se resumem à arquibancada, refere-se aos gandulas, Não, ela estava na torcida, diferente dos outros, depois veio até mim, Diferente como, Alheia, sob todos os aspectos, Os jogos de futebol afetam muito o organismo dos participantes, não tanto quanto os jogos de terror, mas muito mais do que os jogos de luta, talvez a dose de tranquilizante tenha sido..., Eu a vi, ela falou comigo, um hacker talvez, uma invasão, Com qual objetivo, curtir uma pelada de graça no fim de semana, vamos lá, tem pessoas na fila esperando,
             pessoal, podem entrar, o jogo de futebol, para quem veio por
             ele, infelizmente está desativado no momento, ouvi dizer que
             está perturbando alguns usuários..,
vai lá, meu rapaz, impressão sua apenas, o livre-arbítrio é um prestígio apenas dos que pagam por ele.
Candela
Enviado por Candela em 17/01/2020
Reeditado em 28/02/2020
Código do texto: T6843962
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
86 textos (1371 leituras)
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Candela