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Clara-borboleta.

De flor em flor,de jardim em jardim.Asas azuis, azul  da ternura.  Feliz. Volteava para cima, depois para baixo, ou pairava sorrindo e as asas salpicavam o ar  com poeira dourada.  No canto do jardim, Francisca- lagarta a olha compassiva. Ao seu lado,  Carlota-abelha.  Parece contrafeita. Irritada:
- Essa aí sempre se exibindo! Sempre, e estende as patas num gesto de desdem.Volta-se para a lagarta que lhe responde num murmurio inaudível:
- O que? O que você disse, Carlota-abelha volta-se e um zunido feroz sacode seu corpo:
- Eu disse ela está feliz!É isso! Saiu do casulo ainda ontem!
-E uma exibida isso, sim, exibida, egocêntrica, uma á-toa, uma zinha qualquer!! Amante do Heitor-bem-te-vi que a adotou assim que nasceu!Um escândalo!!Onde já se viu uma borboleta namorando um pássaro?
- Cuidado com oque você diz a lei agora  é rígida para avaliar esses xingamentos!
- Falo o que eu quero.  Essas borboletas vivem bem, comem do bom e do melhor, estudaram, e a gente fica aqui,tendo que trabalhar duramente pra fazer essa porcaria de mel !! As pessoas fogem da gente mas dela não, dela não!!
Avança pela parede em direção de lagarta que encolhe o corpo magro contra o limbo esverdeado.
- Mas eu tomo providência, ora se tomo, gesticula freneticamente e seu corpo se agita em ondas tristes descambando  para o horror:
- Não faça nada menina!Deixa ela em paz!
- Não deixo não,falo em nome das minhas irmãs entendeu!? Estamos fartas de ver essa preferência dos humanos por ela que nada faz,enquanto nós trabalhamos feito burro de carga para produzir mel e nem um muito obrigado dos homens!  Nem isso! Dona Zulmira da casa três, me enxotou com um guardanapo ontem, por pouco não me matou!!Essa ingratidão eu vou cobrar mesmo!Vou cobrar!!
- A borboleta-Clara não tem nada com isso!Não tem culpa de ser bonita e delicada!
Hortênsias que circundam o muro se entreolham assustadas:
- Eu vou falar com ela!Isso não se faz! Lolita-hortênsia azul, mais rechonchuda aperta as pétalas:
- Não fale nada ! Não temos nada com isso retruca Melindre-hortênsia-rosa-malva.
- Mas que será que essa louca vai fazer?!
Nós somos de outra espécie prima e  não temos nada com isso! Depois vai sobrar para nós, entendeu?!
A lagarta ainda tenta faze-la desistir .Em vão. Num de repente, Heitor-vento frio do Leste, sombrio, de poucas falas, chega, encosta-se na murada e fuma um cigarro de brisa. Clara-borboleta agita suas asas e sorri para Carlota-abelha, mas ela ignora a vida que dança, alcança-a pelo flanco,a ferroada alcança seu corpo, líquido amarelo escorre atõnito por suas asas esgarçadas.. Aos poucos elas  se fecham e batem num compasso de desalento final.
Clara-borboleta ainda dá seu último volteio e cai sobre a relva chorosa. O jardim escurece, flores dão-se as mãos tremulas. Francisca-lagarta entra pela fresta do muro, seus soluços descem em fila de  desespero.
Heitor-vento do Leste termina seu cigarro-brisa, desce pela murada, tomando Clara-borboleta nos braços, fecha seus olhos com esmero distante, carrega seu corpo pelo ar . O jardim perde a cor. Para sempre.
Vosmecê
Enviado por Vosmecê em 02/11/2019
Código do texto: T6785626
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Sobre a autora
Vosmecê
São Paulo - São Paulo - Brasil
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