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Agência das Almas

Quando despertou, lembrou-se vagamente de estar tendo um sonho agradável. Os detalhes lhe fugiam, mas ficara a sensação de que alguma coisa boa acontecera; alguém lhe dissera que ele teria uma segunda chance, ou qualquer coisa assim. Abriu os olhos, e foi imediatamente confrontado com a realidade: aquilo não parecia ser exatamente uma segunda chance.

- Primeira vez aqui? - Indagou uma voz ao seu lado.

Havia um homem de cabelos grisalhos e terno marrom amarfanhado, gravata torta, sentado ao seu lado direito. Fora ele quem falara. Remexeu-se no assento desconfortável, onde estava sentado e olhou em torno. O lugar, fosse o que fosse, era amplo, com um pé direito muito alto, paredes, teto e piso num tom de cimento queimado, luzes incandescentes espaçadas, pendentes de longos fios. E preenchendo o salão, dezenas, centenas de cadeiras de plástico como aquela onde estava sentado, todas ocupadas por homens e mulheres de meia idade e roupas velhas e amarrotadas. Alguns dormitavam.

- Onde é "aqui"? - Indagou, passando a língua pelos lábios ressecados.

- Aqui é o Purgatório - replicou suavemente o homem, em voz baixa.

Purgatório. O Purgatório como a imensa recepção de uma burocracia tirânica, pensou. Ao fundo do salão, viu algumas escrivaninhas de madeira marrom, espaçadas, e atrás delas, homens e mulheres de aparência cansada entrevistavam outros como ele, sentados em cadeiras de plástico à sua frente. Acima das mesas, pendurados por longos fios do teto escuro, placares eletrônicos com números vermelhos anunciavam o número que estava sendo atendido. Olhou para o seu vizinho, e viu que ele tinha um crachá de papelão pendendo do bolso do paletó. No crachá, havia sido carimbado com tinta azul o número 6768. Baixou os olhos para o próprio terno, e o número que ostentava era 4537. O vizinho o encarou com ar divertido.

- Os números e a ordem de chamada não são sequenciais - alertou. - Aposto que alguém deve se divertir muito com isso nos andares superiores.

- Andares superiores... o Céu? - Arriscou.

O vizinho balançou negativamente a cabeça.

- Não há lugar para um sentimento tão mesquinho no Céu. Já aqui, no Purgatório...

Encolheu os ombros.

Diante de uma das escrivaninhas, um homem magro e calvo ergueu-se e estendeu a mão para a mulher gorda que estava por trás dela. Houve um rápido aperto de mãos e o homem saiu por uma porta lateral do salão, que só agora ele percebera, tão envolta em obscuridade estava. O número no placar eletrônico sobre o lugar vago, mudou para 9836. Um homem curvado ergueu-se de uma das laterais do salão e caminhou com passos arrastados até a mesa. Sentou-se. A mulher começou a falar com ele, mas estava longe demais para ouvir alguma coisa do diálogo.

- O que acontece aqui? - Indagou para o 6768.

- Eles te dão uma segunda chance - replicou o homem, lhe dando um sorriso descorado. - E uma terceira, e uma quarta...

- Isso parece uma agência de empregos... - murmurou.

- Algo desse tipo - acedeu o vizinho. - Uma agência de empregos ruins. Mas é sempre melhor do que... bem, você sabe.

Ele sabia, e sentiu um ligeiro ânimo por estar ali e não em outro lugar.

- Aquelas pessoas atrás das mesas, são os recrutadores?

- Exato. Vão te dizer quais vagas há, e o que você pode ganhar em progresso espiritual com cada uma delas.

- Sempre há vagas? - Questionou, incrédulo.

- Sempre há vagas - assentiu o vizinho. - Ninguém sai daqui sem um encaminhamento de emprego.

- O que eu digo, quando estiver sentado lá na frente?

- Diga a verdade: que você quer trabalhar duro para conseguir progredir espiritualmente. É isso o que você quer, não é?

- Sim. É isso o que eu quero - anuiu.

- Lembre-se sempre: você está morto, e este não é o mundo real - prosseguiu o homem. - As escolhas que fizer, poderão acelerar o seu progresso, mas talvez não esteja preparado para suportá-las. Alguns cometem o erro de comprometer-se com uma carga maior, na ilusão de que isso abreviará a sua estadia no Purgatório. Desistem em pouco tempo, e voltam para este salão, em busca de uma nova oportunidade. Seja realista.

- Eu serei - prometeu, ao ver o número 4537 acender-se sobre uma cadeira recém-desocupada.

- Vá, - admoestou-o o vizinho - e faça escolhas conscientes.

Ergueu-se, sentindo-se cansado. Caminhou por entre as fileiras de cadeiras de plástico, até chegar à mesa sobre a qual seu número brilhava. Uma mulher magra, com a tintura loura do cabelo precisando de retoques imediatos, olhou-o por cima dos óculos e ergueu uma caneta sobre uma prancheta onde estava preso um formulário.

- Sente-se - intimou-o.

Sentou-se, mãos cruzadas no colo, expressão atenta.

- Tenho uma vaga de zelador no andar 357 - anunciou, lendo no formulário. - Você terá que fazer a limpeza das áreas comuns, incluindo os banheiros, recolher o lixo, trocar lâmpadas e coisas do tipo. O condomínio lhe cederá um quartinho, com uma cama, mesa e cadeira. Folga, uma vez por semana. Como gostaria de assumir esta vaga? Homem ou mulher?

- Com qual das duas obtenho maior pontuação? - Indagou, entrelaçando os dedos.

A mulher ajeitou os óculos.

- Mulher. Com artrite - replicou secamente.

Lembrou-se do alerta do vizinho. Aquilo não parecia uma escolha realista.

- Homem, então - decidiu-se.

- Branco ou negro? - Prosseguiu a mulher.

- Há diferença? - Questionou.

- Ao negro não é permitido dirigir a palavra aos condôminos - leu ela. - Mas a pontuação é maior.

Aquilo era algo que ele podia suportar, imaginou.

- Negro, então - declarou.

- Muito bem - acedeu a mulher. - A vaga é sua.

Fez um gesto para a porta lateral, envolta em sombras.

- Aquela é a saída para o hall dos elevadores. Você irá receber seu uniforme lá, e em seguida suba para o 357º andar. O seu trabalho começa agora, boa sorte.

Ele ergueu-se e estendeu a mão. A mulher apertou-a.

- Obrigado. E quanto tempo acha que terei que permanecer nesse emprego? - Indagou.

- O tempo que nós acharmos necessário - retrucou ela. - Agora, queira retirar-se.

Ele acatou a ordem e encaminhou-se para a porta obscura. Antes de passar por ela, voltou seu olhar uma última vez para o salão. Ao lado do assento de onde saíra, agora vazio, viu o seu vizinho erguer o braço e acenar-lhe um breve adeus.

Retribuiu o gesto, e resolutamente, seguiu adiante.

- [10-10-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 10/10/2019
Código do texto: T6766373
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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