ANGEL.A.
Era noite e eu caminhei. Após cinquenta passos eu percebi que não precisa mais ter pressa. Eu estava livre. Não era como se um franco atirador estivesse me observando e sorrindo com um cigarro no canto da boca. Os carros de olhar tímido passavam por mim. Já sentiu que a brisa gelada da noite as vezes pode ser só uma mão te acariciando pra dizer que você está só?
Depois de quase três anos eu estava livre e não tinha mais que comer a comida horrível daquele lugar. Eu estava livre e não haveriam mais horários, nem cobranças. O banho de sol já não seria ditado. Os olhares de pena e aviso. As mentiras para sobreviver e existir ainda sob o olhar dos demais juízes da moral. Nada disso mais existiria. Eu caminhava, agora, sem tanta pressa, sempre próximo das muretas das casas. Eu não sabia o que era, mas a visão já não ajudava. Escorei por duas vezes e parei em uma mureta para recuperar o foco. Era noite e eu estava sozinha. Eu era finalmente livre e sozinha. Eu tentei pegar um taxi por três vezes, mas numa noite fria e de rua pouco iluminada, não costumam parar para uma pessoa como eu. Eu vestia um moletom escuro e rasgado na gola. Calça jeans quase branca de tão desbotada e com crateras nos joelhos. O Allstar quase sem sola não ajudava muito e eu mancava na estrada de paralelepípedos.
- Você quer que eu leia a sua mão? - Uma voz rouca surgiu seguida de uma sombra. Parecia morar na frente da casa abandonada.
- Não. - Respondi e continuei a caminhada desviando daquele Senhor dos Anéis do caralho.
- Você tem que se hidratar melhor, Angela. - A voz disse o meu nome e virei imediatamente. Não havia mais rastro algum.
De qualquer forma, tinha razão. Atravessei a rua das mancadas e entrei num bar.
- Me vê uma água.
- A gente já fechou, Dona. - Disse o homem que secava os copos com um pano encardido.
- Só uma água, porra!
- Já fechamos.
- Onde é o banheiro?
- Já fechou. Ta surda?
Voltei a caminhar e num trecho a rua já não era de paralelepípedos.
- Tava fechado já, Angela? - A voz rouca voltou.
- Quem é você, porra? - Perguntei ao me virar e ver o Senhor dos Anéis mendigo passar por mim com um sorriso entre a barba volumosa. Ele carregava dois sacos de lixo preto e parecia ser de um peso considerável.
- Angela. Eu também saí um dia. E isso pode parecer ruim, mas...Você nunca recupera a pessoa que você era lá dentro. Não teve um dia em que eu não sonhei com aquele lugar, aquelas pessoas. Eles ficam fotografados na memória, mesmo quando já se é velho, como eu. Tenho uma foto 3x4 do rosto de todos eles na minha cabeça e se eu fosse bom em desenho, seria a porra do Monet ou Da Vinci. No final, a gente é só o Romero Brito mesmo e só pinta o que já existe, só colore mais e mais o que já está na memória. Mas, vai ter um dia em que você vai poder decidir se quer uma fotocópia daquelas memórias de novo e de novo e de novo ou se quer que tudo aquilo queime. A nossa cabeça é um ateliê e criamos exposições, desenhos, pinturas, esculturas, filmes, desenhos animados, novelas, peças de teatro e o que mais for possível criar com o que essas pessoas deixam em nós. Angela, vai viver. Aquilo ficou, foi embora. Você pode ainda ser livre. Aqui fora tem outras celas, outros prisioneiros e outros guardas. A idéia é saber identificar cada um e aprender a lidar e se aproximar de cada um. Não adianta se mostrar livre fisicamente, as pessoas sempre vão perceber que sua cabeça ainda ficou la dentro. A liberdade é sair, mas sabendo que pode estar naquela situação de novo. A liberdade é sair, mas sabendo sempre enxergar novas portas. Seja pra entrar ou pra sair de novo. Angela, vai se hidratar.
A mão gelada daquele velho ainda era mais quente do que a brisa daquela noite e enquanto ele segurava o meu rosto com as duas mãos, um dos sacos de lixo dele abriu. Uma cabeça ensanguentada desceu a rua rolando.
- Vai se hidratar, Angela, é hora. - Ele disse virando-se de costas e levantando os sacos enquanto caminhava pro meio da rua observando a cabeça que ainda rolava la ladeira.
Apertei os passos mesmo mancando. Segui com o vento cortando o rosto e antes de virar a esquina olhei para trás. O velho virava um dos sacos e uma grande quantidade de água desceu a rua. Junto, pedaços de braços, tronco, mais duas cabeças, mãos e pés. Não era água. Era sangue o líquido no saco que coloria a pintura branca de Jesus no asfalto. Eu senti no bolso o meu celular vibrar. Atendi sem nem olhar, ainda estasiada com o que via na rua.
- Angel, me desculpa, volta pra casa, vamos conversar. A gente ainda pode dar certo.
- Eu tô livre, Folsom. Chega de Los Angeles. Adeus.
A desidratação pode levar á morte.
A solidão também.
Cada pessoa que se importa é uma gota.
Deixem de ser ilhas e tornem-se arquipélagos.
Hidrate-se.