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1112-DR.LICURGO, O ESPANADOR DA LUA

DOUTOR LICURGO – O ESPANADOR DA LUA


Encontrei-me com o ex-colega dos tempos de faculdade de medicina Zeca Ramos à porta do cine Marabá. Surpresa para ambos, pois há tantos anos não nos víamos.
— Zeca! Há quanto tempo? Como vai?
—Ora, ora, Joaquim! Como está?
Abraços. Conversa vai, conversa vem, passamos às lembranças dos tempos de faculdade de medicina.
— E fulana?
— E cicrano?
Zeca (hoje Doutor José Ramos de Oliveira — tinha o apelido de Zé Babão, pois cochilava até babar nas aulas de anatomia
 — Eu era apelidado de Juca CDF, pois estudava muito, a fim de compensar a falta de atenção durante as aulas.
— E o Licurgo espanador da Lua, que rumo levou?
Espanador da Lua devido à altura, pois passava dos dois metros.  O mineiro quieto e sagaz era também o mais esperto de todos. Usava sempre artifícios para lograr boas notas, embora não fosse afeito aos estudos. Figura inesquecível, daí a minha pergunta.
— Foi prá Brasília, está muito bem, tem uma clinica de deputados, senadores, seus familiares, enfim, um sucesso. Agora, seu início lá na capital federal foi algo de folclórico.
— Como assim?– indaguei, curioso.
— Você sabe, ele queria se empregar num serviço público, médico de hospital federal, coisa do alto. Mas, médico novo e sem conhecidos influentes que o indicassem, encontrou dificuldades. Resolveu então abrir um consultório. Escolheu um lugar onde passava muita gente, e mandou fazer uma placa chamativa:

DOUTOR LICURGO SÁ GOMES
Consultas CR$ 20,00
Curo qualquer doença.
Se não for curado, devolvo Cr$100,00.
 
Foi um sucesso, pois ele curava mesmo todo mundo e faturava bem. Em pouco tempo era conhecido como o “doutor mineiro”, não só pela popularidade do preço das consultas (os demais cobravam 100, 150 cruzeiros) como também por realizar muitas curas – pois seus clientes eram em quantidade bem maior e faziam uma eficaz propaganda boca-a-boca.
Um senador soube daquela oferta de saúde garantida ou seu dinheiro de volta multiplicado por cinco, resolveu que iria ganhar os cem cruzeiros do já famoso doutor Licurgo.
Entrou no consultório, esperou na fila e quando chegou sua vez, queixou-se do mal que sentia:
- Doutor, sou senador estou tendo uma coisa esquisita: estou perdendo o paladar.  Não consigo mais sentir o gosto das coisas. — Falou como se fosse o doente mais importante do mundo.
O Doutor Licurgo mandou o homem sentar-se e abrir a boca. Examinou a garganta, os dentes, a língua. Tudo normal. Falou alto para a enfermeira  que se encontrava em outra sala:
— Maira, traz ai aquele frasco com o preparado numero dois.
A enfermeira surgiu com um frasco de meio litro e entregou ao doutor. O doutor abriu com cuidado e o senador sentiu um cheiro horrível, como se fosse merda.
— Abra a boca, senador.
Temeroso mas querendo abocanhar os 100 cruzeiros, abriu a boca, na qual o doutor, usando um conta gotas, pingou uma gotinha na língua do paciente.
Um berro de horror, uma cusparada forte e o senador deus um salto, levantando-se da cadeira.
— Mas que merda é essa?  Nunca senti um gosto tão ruim. Me dê um copo d’água, depressa!
Enquanto bebia a água, o médico explicou:
— Pois é. É um extrato de Podela.  Muito eficiente. Viu como o senhor ficou curado? Agora já está de novo sentindo o gosto.  Paga as vinte pratas.
Enxugando a boca com seu lenço, o senador saiu sem se despedir. Mas no outro dia, ainda irritado com a primeira experiência com o Doutor, o Senador resolveu voltar ao consultório de Licurgo, com outra queixa:
— Doutor, agora não estou sentindo cheiro. Não sinto cheiro de comida, nem de loção depois da barba, nem perfume... nada!
O doutor mandou que ele se sentasse e examinou as narinas. Depois de acurado exame, gritou para a enfermeira:
— Maira, trás a garrafinha do preparado número três.
A moça aparece com a garrafinha, idêntica a da consulta anterior. O senador ficha hirto, já sentindo náuseas. Quando o médio pediu-lhe que levantasse a cabeça para que ele pingasse o remédio nas narinas, ele sentiu o cheiro horrível do mesmo remédio. Mas aguentou firme.
O doutor pingou uma gotinha na narina direita e imediatamente o senador espirrou.
— Que cheiro filha da puta! — Exclamou.
— Pois é, mas o senhor já está curado, Sentiu o cheiro do remédio e agora vai sentir todos os outros cheiros.  Paga as vinte pratas.
O senador saiu, agora visivelmente injuriado. Enganado, tapeado e usado por um médico da roça, um mineiro que se gabava de ter nascido em Beraba.
Isto não vai ficar assim! — pensou o senador. Vou inventar uma doença que ele não poderá aplicar aquela merda nojenta.
Na semana seguinte, voltou ao consultório, certo de que, daquela vez ele ganharia os cem cruzeiros do doutor.
— Doutor, agora estou sentindo que estou ficando cego. Não estou vendo as coisas direito, tem hora que não vejo nada.
— Senta aí na cadeira, vou examiná-lo.
Usou lupas e outros apetrechos de oftalmologista, pingou dois colírios refrescantes nos olhos do senador e chegou enfim à conclusão de que não sabia o que o senador tinha.
— Vou ser franco com o senhor, senador. Não sei do que o senhor está padecendo. Portanto, aqui está os cem cruzeiros.
E estendeu uma nota ao senador.
Este, ao ver o valor da nota, esqueceu-se de tudo e exclamou:
— Mas, esta é uma nota de dois cruzeiros!
— Há! Há! Mas o colírio fez efeito. O SENHOR JÁ ESTÁ VENDO PERFEITAMENTE BEM!
E recolheu a nota de dois cruzeiros.
<><><>
Dei uma estrondosa gargalhada. O doutor mineiro, conhecido no colégio como Espanador da Lua era  tão esperto quanto à sua estatura.
 
ANTONIO ROQUE GOBBO
Belo Horizonte, 16 de maio de 2019.
Conto # 1.112 da Série INFINITAS HISTÓRIAS.

 

Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 24/06/2019
Código do texto: T6680667
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Sobre o autor
Antonio Roque Gobbo
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 84 anos
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Antonio Roque Gobbo