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O Ensaio

Estavam os produtores Wicing Myddilton e Edric Bouldre num salão de chá, discutindo qual peça iriam levar aos palcos londrinos na próxima temporada, quando foram interrompidos por um homem de longos bigodes encerados, que estava sentado na mesa ao lado.

- Perdão, cavalheiros, mas creio que os conheço... seriam por acaso os famosos produtores teatrais, Myddilton e Bouldre?

- Nós mesmos, em carne e osso - declarou fleumaticamente Bouldre. - No meu caso, mais carne do que osso.

- Permitam que me apresente - atalhou o homem, fazendo uma vênia. - Sou Seman Wardeby, autor, escritor e diretor teatral.

- Grandes predicados - avaliou Myddilton. - Mas creio que nunca ouvimos falar do senhor... quais peças escreveu?

- Oh, eu tenho várias peças escritas... todas inéditas - explicou Wardeby. - Na verdade, eu as estava guardando para serem produzidas por alguém de talento... como os senhores.

Bouldre ergueu os sobrolhos.

- Produtores não têm que possuir talento, necessariamente, - replicou - apenas uma conta bancária fornida. Por que acha que iríamos investir na peça de um desonhecido?

- Certamente que não me conhecem ou aos meus escritos - admitiu Wardeby. - Todavia, posso facilmente dirimir ambos os problemas convidando-os para a leitura de minha peça mais recente, "Aí é que a porca torce o rabo", no Sadler's Wells.

- E qual é o enredo que abrange tão peculiar título? - Indagou Bouldre.

- Ah, percebo que o cavalheiro está interessado! - Regozijou-se Wardeby. - Pois amanhã, às 3 da tarde poderão ouvir em primeira mão os sucessos da minha inigualável criação.

Myddilton e Bouldre entreolharam-se. Wardeby fez outra vênia, e despediu-se:

- Até amanhã, cavalheiros!

* * *

Na tarde seguinte, os produtores foram até o Sadler's Wells, onde entraram pela porta de serviço. Wardeby estava a espera deles, no palco, onde também se encontravam uma dúzia de atores sentados ao redor de uma mesa retangular, munidos de cópias impressas da peça.

- Queiram tomar assento - convidou-os o dramaturgo, indicando duas cadeiras na lateral do palco. - Eu vou dar seguimento à leitura, mas poderei lhes explicar posteriormente qualquer detalhe que não tenham compreendido.

- Prossiga, então - avaliou Bouldre.

Wardeby virou-se então para os atores, e comandou:

- Vamos começar da cena 1 do segundo ato. Toka, por favor.

O ator interpelado leu, em voz alta e tom dramático:

- Oh, trágico destino que me fez escravo dos favores de Lady Gunnora! Que farei eu para quebrar o seu pérfido encanto... talvez o mago Thurston possa me auxiliar!

Outro ator, à frente dele, incorporou o mago citado.

- Por que invocou o meu auxílio, Sir Joscelin? Não lhe disse eu que apenas me chamasse em caso de real perigo?

- Eis que a salvação de minha alma imortal encontra-se ameaçada, insuperável mago... sabe bem que não temo perigos terrenos, mas a possibilidade de queimar nas chamas do inferno muito me assombra.

Antes que Thurston pudesse dar a réplica, Bouldre ergueu a mão.

- Um momento, senhores.

E voltando-se para Wardeby:

- Creio que falo também pelo meu sócio Myddilton... são os diálogos mais ridículos e deploráveis que jamais ouvi num palco!

- As suas palavras estão corretas - ecoou Myddilton, muito circunspecto.

- Cavalheiros! - Protestou Wardeby. - Então, não estão a par do novo estilo de drama heroico?

- Esse pastiche é um drama heroico? - Duvidou Myddilton.

- Decerto que não o conheciam, - afirmou Wardeby aborrecido - posto que o acabei de inventar para a presente peça!

- A mim, soa deplorável - avaliou Bouldre. - Chame-se lá como for.

Os produtores ergueram-se simultaneamente e saíram do palco, sem se despedir.

* * *

No palco, estão apenas Wardeby e seus doze atores. Toka dirige-se ao dramaturgo, que está desconsolado.

- Lamento que eles não tenham podido ver o epílogo que preparou... teria sido tremendo!

- Pensando bem, creio que farei alterações no desfecho da peça - rumina Wardeby. - E quando for convidar outros produtores, começarei por ela.

- Então, devemos ou não ensaiar a dança festiva? - Indaga Toka.

- A dança será mantida, mas vou acrescentar um balão em formato de porco que será mantido no fundo palco... ao final da dança, o mago Thurston vai até ele e torce-lhe o rabo.

Wardeby vai até a boca do palco e, encarando a plateia vazia e escura, declama:

- Quebrado o encantamento está! Aí é que a porca torce o rabo!

Às suas costas, os atores aplaudem freneticamente.

- [14-06-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 14/06/2019
Reeditado em 15/06/2019
Código do texto: T6673243
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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