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Diário

Estou de volta, faz tempo que não escrevo neste diário velho e empoeirado, creio que o ar tem estado acrimônio pra mim nesses últimos dias, quero relatar aqui algumas experiências que venho tendo, e elas não tem sido benéficas para mim, não me lembro exatamente de tudo que ocorreu antes de estar escrevendo aqui, as memórias parecem desaparecer após o ocorrido, e por este motivo tentarei explanar tudo de agora em diante…

Dia 1

São duas da manhã neste exato momento, estou deitada em minha cama com uma lanterna e esse caderno velho ao qual chamo de diário, as coisas continuam diferentes, eu estava dormindo e comecei a ouvir arranhões agudos vindo da minha porta, o cobertor está sobre minha cabeça, acho que ele vai me proteger do pior, mas esses arranhões não param… Eu não entendo o porquê dos meus irmãos e dos meus pais não ouvirem isto também, estou achando que seja apenas a minha imaginação, espero que seja isto.

Dia 2

Acabei de acordar, não vi as horas, mas creio estar em meio a madrugada, todos dormem, a cidade dorme, eu não durmo.
Minhas pernas estão paralisadas, não consigo mexer nada da cintura pra baixo, eu as sinto, porém é como se um peso enorme estivesse sobre elas, ao menos não tenho dor.

Dia 3

Neste exato momento algumas coisas do meu quarto estão se mexendo, estou ouvindo barulhos dentro do guarda roupa e objetos caindo da minha mesa na cozinha, parecem ser panelas e copos de vidros, um a um, eu sei que eu não estou sonhando…

Dia 4

Hoje eu vi uma mulher, ela estava dentro do meu quarto, o rosto dela era embasado e a pele pálida, ela estava me encarando e cantarolava algo pra mim, porém o som da melodia que provinha de sua boca era muito baixo.

Dia 5

A mulher apareceu novamente, exatamente as três da manhã, desta vez ela me acordou com seu canto incólume, agora ela estava ao meu lado e dava pra ver bem seu rosto, os poros em sua pele facial e os cabelos negros que lhe caiam na face, ela não estava me olhando desta vez, somente cantarolava.

Dia 6

Acabo de acordar novamente no meio da noite, é verão e o calor está escaldante, deixei a janela aberta pra entrar ar, a luz da lua tem adentrado meu quarto, uma luz tênue e azulada… Desvio o olhar da janela para o chão e vejo a silhueta de um felino, uma sombra.
Volto com meus olhos para a janela e um gato está sentado ali, um gato negro, este está me encarando e mostra os dentes pra mim, seus olhos brilham no semi breu da madrugada.

Dia 7

Ainda está quente, acordar as madrugadas já é frequente como vocês podem notar nas últimas transcrições feitas, tenho olheiras, meus olhos pesam. Desta vez só tenho a sensação de estar sendo vigiada por algo, alguma presença invisível.

Dia 8

Ouço sons e desperto novamente, a melodia não me é estranha, vem de fora pra dentro.
Vou até o telhado e lá está ela novamente, após estes dias sem me visitar ela me dá o ar da “graça” em cima do telhado vizinho, cantando para alguns gatos que a rodeiam.

- Quem é você?
Balbucio.

Os gatos se assustam e correm, logo a chuva começa a cair e ela some mais uma vez sem dar maiores explicações.

Dia 9

Essa madrugada eu não acordei, agora são sete da manhã estou me arrumando para ir trabalhar, porém tem algo errado em meu rosto, minha sobrancelha esquerda foi raspada pela metade, eu não estou me sentindo bem com isto.

Dia 10

O som dos trovões me acorda durante o dilúculo, eu devo ser algum animal noturno.
Me levando para fechar a janela me preparando para a vindoura tempestade, e na árvore a frente de onde estou(uns seis metros de distância) e lá esta ela, a aparição bem na ponta dos galhos grossos, me sinto hipnotizada pela melodia que sai dos seus lábios pálidos, e sou jogada pra longe do transe ao ver um relâmpago atingir a árvore da qual o vulto se encontra.

Dia 11

Ouço vozes, várias vozes diferentes gritos agudos e baixos, abro meus olhos e no batente da janela no mesmo local onde eu vi aquele gato negro está uma gralha, devo dizer que elas são lindas, mas os gritos não são dela, o animal parece estar apenas emulando, seu bico abre e fecha e ainda sim os gritos saem…
- EMA! EMA! EMA! EMA!
A gralha fala meu nome e sai voando, corro até a janela e não há nada mais no ar ela sumiu.

Dia 12

Em meio a madrugada ouço algo cair em meu quarto, ao me levantar da cama e ascender a luz encontro um livro feito com couro de animal recém tirado (dado ao cheiro e ao frescor da capa), na fronte há algo escrito em latim “WICCA” em letras garrafais.

Dia 13

Não tive coragem de abri-lo ontem, não sei se por medo ou desinteresse, acho que medo se encaixa melhor no que eu senti, porém a pouco eu o abri e um bilhete estranho estava logo após a capa.
“Sul do País das Maravilhas
Irmã, por Garoth.
Chame pelo meu nome”

Dia 14

Quem diabos é Garoth? Esse nome agora não sai mais da minha mente. Hoje eu adormeci umas quatro vezes no trabalho e em todas tive umas espécies de visões, mas o que eu via era apenas um elemento, uma chama pequena que se alastrava, um fogo de cor azul.

Dia 15

Já fazem alguns dias que não acontece coisas sobrenaturais, dois pra ser exato. Estou intrigada com este livro pois de início o mesmo ensina algumas técnicas medicinais e alucinógenas com ervas e especiarias, e em algumas outras envolvem pequenos ritos com animais e sangue.

Dia 16

Neste momento confesso sentir um pouco de medo, cheguei na metade do livro que parece muito um de receita, pois fala sobre ingredientes e modos de se fazer o que é chamado nas páginas de “Liturgia” e em alguns outros momentos me são contadas histórias de grandes mulheres de séculos atrás, irei contar colocar mais amanhã, por hora irei dormir.

Dia 17

Isso especificamente que está me dando muito medo:
“Disse a avó:
Recorda menina, que as plantas estavam aqui desde que a Mãe Terra é Mãe.
E nós que somos suas filhas chegamos depois.
Elas contêm a memória sagrada de nossas raízes.
Lembre-se do sangue alvo e puro, de se banhar pela jovialidade.
De servir apenas a um e de chamá-lo sempre”

Dia 18

Creio estar chegando ao final do livro e apesar dele ir se tornando macabro a cada página que eu ia passando, vejo beleza e sabedoria nas palavras que advém dele.

Dia 19

O WICCA explicou bem que é Garoth, e eu colocaria algumas coisas aqui neste diário caso não tivesse medo de cair nas mãos erradas. Porém acho que posso dar uma menção do que realmente ele é, se trata de um demônio e pelo que entendi até agora ele sussurrou nos ouvidos das mulheres que escreveram as páginas deste livro é um livro coletivo.

Dia 20

Cheguei perto do final do livro, não exatamente o fim pois ainda existem várias folhas em branco, pelo que eu entendi a cada ano ou a cada vários anos uma mulher é escolhida para escrever o que o demônio sussurrar desde que ela o chame, por exemplo vou pôr um trecho de uma das bruxas relatando:
“É uma noite fria de novembro de 1890 e neste momento creio que seja a melhor hora para chama-lo, estou cheia das anormalidades que estão ocorrendo e tudo parece ser premeditado para que eu o chame”.

Dia 21

Outra coisa que eu notei de estranho no livro são as palavras, eu não conseguia pular nenhuma página pois todas as letras ficavam embaralhadas ou numa espécie de idioma rústico do qual não consegui localizar nada na internet.

Dia 22

Um dos ensinamentos mais recorrentes que tenho encontrado lendo este livro, é o quanto o que elas chamam de “Mãe Terra” ou “Deusa Mãe” se faz presente e é sempre exaltada, como se todas as energias proviessem dela, para exemplificar irei colocar um trecho abaixo:
“Hoje é o momento de festejarmos a primeira colheita.
O Deus Sol nos trouxe a luz,
A Deusa Mãe nos presenteou com as sementes.
Comemoro o pão da vida que sustenta a todos.
Abençoada seja a fartura da Mãe Terra…”

Dia 23

Hoje é um dia peculiar, eu decidi por chamar Garoth todas esses acontecimentos me trouxeram a este momento ímpar e eu quero isto, desejo a sabedoria e desejo também ser tão poderosa quanto as minhas antepassadas que escreveram esta obra, qual será o preço de tudo? Não faço a mínima ideia, mas irei deixar esse diário como um leve testemunho de tudo que vivi e ele será minha última conexão com a minha forma humana, pois desejo transcender.

...

WICCA - A Floresta das Árvores Vivas – Rito de Passagem, por Ema.
Nesta madrugada de Janeiro do ano de 2019. Decidi por mim mesma chamar o grande mestre Garoth, que prontamente apareceu primeiramente em meu quarto, envolto a negritude do céu estrelado. Ele derramou em minha boca uma mistura de Leite e Mel e o gosto era divino, eu adormeci de tamanho prazer aos braços dele e apenas acordei algumas horas depois em outro lugar, um lugar totalmente diferente envolto de árvores donde as raízes brotavam do chão e prestigiavam a minha chegada.
Ao longe eu presenciei uma grande luz azulada, uma grande fogueira em meio a um círculo dessas árvores exóticas, ao me aproximar notei também a presença de outras mulheres que cantam alto o som que eu já ouvirá em outrora, eu me sentia revigorada com aquilo e logo notei que meu corpo também estava nu e minha pela refletia a lua e o azul do fogo. Ao perceberem minha presença ali os cânticos se intensificaram elas cantavam primorosamente e dançavam pela fogueira sem medo algum de se queimar, eu não me dei conta e quando percebi já estava no meio delas dançando livremente e cantarolando também, e sorri me senti completa e alcei voos maiores pelos céus com quem agora eu chamava de irmãs.


Fim
Matheus Lacerda
Enviado por Matheus Lacerda em 10/05/2019
Reeditado em 12/05/2019
Código do texto: T6643377
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Matheus Lacerda
São Paulo - São Paulo - Brasil, 24 anos
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Matheus Lacerda