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Onde Os Cães Uivam

Na penumbra se vê o brilho tímido das estrelas emaranhadas ao odor de motor fundido, logo nota-se a fumaça subir do capô misturando-se com a luz tênue e se unindo com o vento passageiro.

- Droga de carro!!!
Uma bicuda é desferida na lataria do seu Ford-F 100 1960.
Ele pega o celular e tenta ligar para o seguro, anda de um lado para o outro, coça a cabeça, o nariz e esfrega as mãos. O sinal do celular se foi a ajuda não vem, sua única companheira parece ser a sombra e a luz da lua.
...

Fecho as portas do meu carro logo depois de tê-lo manobrado em um encostamento a minha frente, e começo então minha caminhada letárgica rumo ao desconhecido, esta é uma noite fria e seca, da minha espiração sai vapor quente como se eu estivesse a fumar, minhas mãos gélidas encontram calor no aconchego dos bolsos do meu sobretudo marrom um casaco velho e batido de couro que ganhei do meu pai, minhas passadas são rápidas e barulhentas se misturam o som do cascalho em atrito com as minhas botas, a via é escura me causa um frio na espinha que sobe até a nuca, de tão silenciosa e sinistramente vazia.
Depois de alguns metros andados, me aproximo da região residencial e logo vejo uma cena bastante peculiar, em cada portão de cada casa a um cachorro colado junto a ele me encarando, olhando-me fixamente, de uma forma perturbadora, ao decorrer da trilha macabra um por um começa com os uivos tão sincronizados quanto uma grande sinfonia, só que esta orquestradas por cães. Cada passada significa um uivo adjacente que se acumula e parece não ter fim, todos extremamente afinados e alinhados um suplantando o outro, neste momento me vem à mente uma das várias estórias que minha vó citava nas madrugadas em claro, estórias sobre o sertão e as coisas que aconteciam por lá....
...

- Benção vó.
Pego em suas mãos frágeis e lhe dou um beijo.
- Deus lhe abençoe meu neto.
Ela está sentada no sofá da sala lendo um livro qualquer.
- Hoje teremos algum conto?
Ela fecha o livro e o coloca no criado mudo, esfrega as mãos rapidamente e tira seus óculos.
- Qual deles você quer ouvir novamente?

- Me conte algo sobre o interior da sua cidadezinha...
Ela começa de supetão sem esperar por nada.
- Deixe me ver... Este é sobre um ex-morador de Jacobina que morava ao lado da minha casa, um menino que fora amaldiçoado e marcado por um demônio chamado Bizou* que tocará a madre de sua mãe, toda a vez que o mesmo caminhava por algum lugar onde tinham animais por perto eles faziam barulho, os gatos miavam, os pássaros gritavam e os cães uivavam. Os moradores da região o chamavam de menino do inferno, daí surgiu a lenda de que sempre que um cachorro latia era porque um demônio estava passando pela rua.

Minha cara de espanto se formou na mesma hora enquanto ela ria do que acabara de dizer, devo dizer que a risada da minha vó mesmo sendo de alguém já velho e gentil, dava medo pois tinha um tom de frieza ou de “eu já estou acostumado a estas coisa”, eu não dormi naquela noite e por vários dias também por conta da premissa citada por ela...
.... Os uivos altos desvanecem meus delírios passados, volto a si e a minha visão antes turva se afina novamente.

Chego ao final do condomínio e o caminho em frente parece não ter fim, de todo modo todas as casas estavam escuras e eu não seria o louco que gritaria na porta de alguém pra pedir socorro.

'Primeiro pelo fato de que ninguém iria me atender.
'Segundo porque os cachorros fariam um barulho maior que o meu.

Seguindo adiante percebo que os faróis em sua sequência emitem uma cor alaranjada e por vezes falham, são pequenos cortes de um ou dois segundos, a cada um que passo é possível ouvir a energia tramitar por entre os fios de cobre.
Ao fundo é possível notar que os cães ainda uivam mesmo que minha presença já não se faça presente por lá, neste momento todas as situações perante meus olhos se tornam palpáveis. Tanto o concreto quanto o abstrato e eu sinto isto, sinto os pelos dos meus braços levantarem e ouço os ventos assoviarem em meus ouvidos.
A fadiga sobre mim recai e aproveito o momento para pegar meu celular e ver se o sinal está restabelecido.
- Como eu imaginava...
Penso no instante que vejo o "x" no lugar das torres.

Minha vontade imensa era de jogar aquela merda no matagal ao lado, ou o mais longe que minha força pudesse alcançar, porém a insanidade ainda não havia tomado conta de mim, não ainda.
Mais à frente avisto o que parece ser uma silhueta, parece ser de um homem sentado em um ponto de ônibus.
Ao fundo, quero dizer vindo de trás das minhas costas, barulhos em uma espécie de efeito dominó se fazem valer. Assustado olho e vislumbro todas as luzes alaranjadas apagarem uma por uma, começo a correr em direção ao mancebo que está assentado em minha frente e chego até o mesmo ofegante pelo esforço, os apagões cessam exatamente onde nós estamos, agora o breu domina meu ponto de partida, por hora não há como voltar.
- Meu jovem o que está havendo?
Pergunta o homem no ponto.
- ãããã... é... as luzes... ãããã apagaram.
Balbucio quase sem sucesso.
- Se acalme, olhe elas já voltaram ao normal.
Aponta com o dedo em riste para o local de onde eu vim correndo.
E realmente as luzes voltaram ao normal, estão acesas e incandescentes.

- Não faz sentido algum, estavam apagando em sequência, você viu não viu?
Pergunto mais calmo.
- Na verdade não vi nada demais, e olha que estou aqui faz muito tempo.
- Peço desculpas então, é que coisas estranhas vem me ocorrendo nesta madrugada.
Tento amenizar meu medo.
- Coisas estranhas?
- Oh sim, o motor do meu carro fundiu, meu celular não tem sinal algum para eu chamar o guincho, os cachorros dessa vizinhança logo atrás me infernizaram e essas luzes apagaram, hoje realmente está sendo um dia de cão.

O homem me observa sem expressão alguma, só agora consigo perceber melhor as feições dele e o modo que o mesmo está vestido, ele está assentado com as pernas cruzadas, e usa um terno roxo muito bem alinhado, seus sapatos sociais tem nos bicos da frente um revestimento de ferro creio eu, e sua pele é escura além dos olhos serem negros também.
- Olha rapaz, talvez isso tudo seja fruto da sua imaginação, o estresse faz isto com as pessoas.
Em sua voz existe uma calma que chega a ser perturbadora.
- Não sei se é, o que preciso é de um celular você tem algum para que eu possa usar?
Ele meio que dá uma risada de canto e se levanta tirando os bolsos pra fora mostrando não ter nada.
- Nunca usei isto, creio que essas coisas não foram feitas para seres como eu.

Ainda estou tenso e o que me resta é sentar ao lado daquele cara estranho, sussurro xingamentos para o nada e tento respirar um pouco. Meu silêncio é quebrado com a intromissão dele novamente.
- Eu quase consigo ler sua mente, tente ficar calmo.
Ele disfere as palavras sem ao menos olhar meu rosto, sempre vislumbrando o breu no horizonte.
- Como eu já lhe disse não está sendo um dia fácil para mim, só quero ficar tranquilo aqui.
- Tranquilidade é a última das sensações que você está passando agora...
- E o que você tem a ver com isto?
Não poupo na ignorância.
- Exatamente, não tenho nada. Só estou me sentindo incomodado.
- Você está brincando comigo só pode.
- Todos dizem a mesma coisa, elas não notam que os problemas são causados por elas mesmas.
- Do que que você está falando amigo?
Agora o que vem é a ironia.

Mais um riso de cinismo é liberado dos lábios escuros do ser estranho, e ao lado outra vez todas as luzes se apagam novamente, agora não sinto tanto medo como antes apenas volto meus olhos para a tela do meu celular esperando um milagre.
Ao fundo ouço um barulho de suspirar, que vem da figura ao meu lado.
- Bem, apagaram novamente e desta vez parece que não vão ascender.
Sussurra o moço.
Me ajeito mais para o outro extremo do ponto de ônibus, e começo a ter calafrios do homem, em minha mente penso...
- “Eu queria estar sozinho agora”
Quem diz isto em voz alta no mesmo momento que tenho esse pensar é o cara esquisito.

- QUE PORRA FOI ESSA CARA?
Me levanto gritando para ele, que permanece sentado e imutável em sua forma de agir.
- Linguagem corporal amigo, eu só deduzi o que você estava pensando, nada demais.
Dos lábios dele sai uma entonação de desdém notório.
- Mano, sério. Cala um pouco a boca eu não estou em condições pra esses tipos de joguinhos.
Tomo novamente o meu assento e fico em alerta para qualquer movimento, as luzes continuam apagadas, apenas o poste a nossa frente está refletindo algo, uma luz tênue.
- Bom, está na hora de eu ir...
Neste mesmo instante a luz que está a nossa frente se apaga, eu olho para onde o moço estava e não consigo ver nada. Porém de súbito dois olhos avermelhados brilham em meio a negritude e uma risada irônica ecoa também.
Após isto todas as luzes se ascendem novamente, o banco está vazio, o meu celular vibra, e ao olhar o visor as torrezinhas de sinal estão novamente pegando, um palavrão me vem a mente e eu explodo ele com meus lábios.

- Filho da puta!

Matheus Lacerda
Enviado por Matheus Lacerda em 10/05/2019
Código do texto: T6643374
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Matheus Lacerda
São Paulo - São Paulo - Brasil, 24 anos
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Matheus Lacerda