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EU

Ando a digitar e criar história nas quais nem eu mesmo me reconheço. Todos os grandes escritos – os que considero grandes para mim – conseguiram de alguma forma chegar a um entendimento sobre o processo de existir. Por mais que alguns tenha indo ao limiar entre a loucura a sanidade ou ultrapassado essa tenuidade beirando ao suicídio, ainda assim conseguiram estabelecer um nível de compreensão sobre suas melancolias e anacronismo no tempo e no espaço.
Eu não.
Eu estagno na primeira frase. Quando consigo escrever uma frase. Tudo que venho tentando fazer é estabelecer um jogo através das palavras que possa me trazer alguma verdade sobre o “eu”. A impossibilidade de saber acerca do “eu” termina quando a náusea começa. É quando penso que a existência é só um acúmulo de pequenas memórias e coisas que perdemos pelo caminho. Esse caminho que vamos trançando sem saber para onde nos leva. O mesmo caminho no qual não se tem placas, apenas terra, árvores, estradas que se cruzam com as de outras pessoas que também andam no paradoxo do entendimento.
Pensei tanto sobre os acúmulos, teci fios para formar panos, usei cores para seguir e suportar o caótico: acabei na frente de uma folha em branco, no resto de uma madrugada de algum dia de agosto. De certa forma sempre é agosto para mim. Essas metáforas que não são metáforas se acumulam durante todos os dias que conto no calendário na expectativa de conseguir chegar no mais íntimo de mim. Depois, penso: o mais íntimo de mim ainda existe? Ou será que já foi dilacerado pelas neuroses urbanas dessa cidade?
Não sei como me responder. Não sei como me explicar. Penso constantemente na loucura circundando a cabeça. A cabeça sendo bombardeada por memórias. As memórias abrindo as sete portas da mente. A mente deixando ecoar os gritos. Os gritos dizendo de culpas, sordidez, morbidade e o desconexo estado no qual me encontro.
Não é que eu ouça vozes. As vozes são apenas a exteriorização da minha matéria orgânica. Isso pode parecer loucura, mas, a sanidade também nunca me foi algo palpável. Por mais tentativas que se faça para abafar o “eu” o limiar é sempre frágil. Perder-se, desistir é um ato tão humanizado; forma de sair da terra para percorrer as águas. Não procuro uma forma de me redimir da minha própria inércia de existir. Ando apenas tentando matar a quantidade de “eu” dentro de mim, já que não consigo viver com todos eles.
A vida é um eterno suicídio, só que lendo. A vida é um substantivo abstrato, impalpável como os afetos que não consigo enxergar, tocar ou sentir, só resta ouvir as palavras vazias ofertadas pelas bocas que me circundam. Esse, quem sabe, seja o cerne do problema, não do problema, porque não creio que exista um problema em mim. Como tentativa de definir o que acontece diria que se trata mais de a redução do que habita em mim – e, consequentemente, forma o “eu” – ao pó. O Pó é diluído em água e a isso enxergo referente a salvação da insanidade.
Sempre que me proponho a escrever acaba emaranhando na minha própria escassez de ser. A escassez que leva a desistência, porque não se fala sobre o que não existe. Não se diz o que não existe. Não se pensa sobre o que não existe. Na impossibilidade de existir, encontro-me apenas com um cigarro no meio de uma madrugada esperando por algo que não vem: a minha própria compreensão sobre a condição humana da existência.
Jailson Anderson
Enviado por Jailson Anderson em 01/05/2019
Reeditado em 01/05/2019
Código do texto: T6636339
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jailson Anderson
Belo Jardim - Pernambuco - Brasil, 29 anos
38 textos (311 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/19 16:45)
Jailson Anderson