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O Sino

A cidadezinha do interior adormecia cedo. Como de costume, no máximo após a novela do horário dito nobre. A movimentação das pessoas e interesses girava em torno de simples rotinas, cumprimentos atenciosos, comentários supostamente maldosos, mas que traziam embutidos uns sentimentos, por vezes pueris, mas de viva solidariedade coletiva.

Os casais de namorados se encontravam na pracinha central ou no pátio mal iluminado da igrejinha. A conversa em voga dizia sobre as razões pelas quais nunca ninguém soube ao certo por que o padre McKenzie havia sido chamado pelo bispo da diocese na capital. Em caráter de urgência.

O certo é que, a partir de então, McKenzie fazia acontecer os sons do sino com certa ascendência assimétrica, num ritmo que sugeria a atenção geral do povo do povoado. A jeitosa igrejinha pintada de branco, o rodapé blue, com nome de suposto santo padroeiro Leuviah do Amarante, santo protetor dos antigos viajantes, todos os dias, às cinco horas da tarde, promovia a melodiosa sonoridade do bronze. Os sons faziam os habitantes sentirem-se intimos das estrelas.

A intensidade musical harmoniosa repercutia nos corações e nas mentes fazendo os corpos participarem da ressonância magnética sonora. A sinuosidade melodiosa ionizava o ar igual repente. As feições ganhavam vida, os lábios se ampliavam em sorrisos e os olhares fixavam-se no horizonte luminescente em franca expectativa.

A modesta simplicidade das salas, quartos, cozinhas e quintais da pequena cidade ficava erma. Quem a visse assim despovoada acreditava que seus habitantes haviam todos saídos para algum evento vizinho ao arraial. Alguma comemoração sazonal de dia de santo rei.

Afinal, alguém que por lá passasse e visse a cidadezinha inabitada teria a sensação de que talvez sua população houvesse sido abduzida. Conduzida alhures em direção a algum cantão muito distante, estelar.

A verdade é que havia um entusiasmo incontido a perpassar o ar ionizado em torno da miúda cidade, como se um campo eletromagnético incomum, de alta intensidade, embutido nas ondas sonoras do sino, estivesse a pairar sobre a aldeia.

Seus sons ganhavam uma intensidade sublime, um timbre que promovia a expansão de bolhas a partir de alguma partícula elementar escalar maciça, com a propriedade de sublimar, ao mesmo tempo de arrebatar toda a população, impulsionando-a em direção à algures.

A verdade é que as novelas, jornais nacionais com notícias da ratazana parlamentar, e outros programas que tais, ficavam sem audiência na pequena cidade da região litorânea. Seus habitantes iam ficando, pela exposição ao fenômeno provocado pela sonoridade maviosa do sino, primeiro transparentes, logo depois invisíveis.

Pelo menos essa era a sensação que as pessoas comentavam, dia seguinte, no troca-troca de impressões memoráveis dos fenômenos vivenciados que não falavam para mais ninguém de fora da cidade, porque, pensavam, poderiam essas sensações ser apenas algum delírio coletivo provocado por gases vindos das concentrações de vapores da grande cidade.

De manhãzinha despertavam como se quase nada houvesse acontecido. Acordavam animados por uma tênue sensação de formigamento gravada na memória da pele, como se o oxigênio atmosférico houvesse fixado, por transferência, nas células dos corpos, o cobre do sino através da qualidade do timbre e do efeito de ressonância magnética sonora em seus corpos.

No horário diário quando, às dezessete horas os sons do sino ressoavam nas cavidades  toráxicas dos habitantes do povoado, realmente esse horário havia se tornado nobre para eles. Quem sabe a coisa toda não passasse de um sonho coletivo. Ou um delírio, que os transportava a alhures.

Eles, os que habitam o lugarejo, chamavam de horário nobre as horas em que, de alguma forma, se ausentavam das novelas, jornais, reality shows, dos casos intermináveis da grande família dos parlamentares da Praça é Nossa dos Três Poderes.

Por momentos, todos os dias de tarde, participavam dessas sensações inesquecíveis. Quando ficavam provisoriamente livres das gabis e de seus sofisticados papos furados dos entrevistados com mentalidade de garis. Cantores sertanejos com fixação em ficar pegando e falando na adoração freudiana por chapéu de vaqueiro. Os jovens, principalmente, gostavam de ficar longe das influências sem graça do programa de humor Zorra Total Global, dos ratinhos, casos de famílias vesperais e programas que tais. E tantos.

Os moradores sentiam-se livres da companhia afetada de todas aquelas personagens deletérias das programações da telinha, quando eram transportados, por alguma mágica inusitada, para algum lugar longe das antenas parabólicas das redes de tv, das malhações, das águas de março, dos astros e atrizes das novelas as quais eram como que forçados a assistir. Como era bom sentir-se longe da pulsão de mover o controle remoto por uma espontaneidade contrafeita, sob encomenda da propaganda dos programas por vir.

Quando o sino começava a movimentação do badalo, os sons produzidos pelo chocalhar na superfície interna da liga metálica de bronze e estanho ou outro metal (como saber ao certo?), os habitantes do povoado ficavam ausentados, mesmo que provisoriamente, das finas estampas do Cordel Encantado, de entretenimentos para cães, tipo Morde e Assopra.

Sentiam-se provisoriamente livres das influências do mundo moribundo da programação deletéria das TVs, vendida como se fosse a última palavra em comunicação audiovisual para rebanhos de bezerrinhas e vacas que no outro dia buscavam imitar suas personagens sem opiniões independentes, de baixo nível intelectual, niveladas pela grande família da TV.

Passavam-se a noite e a madrugada. No outro dia, manhã cedinho, quase não se davam conta de que haviam voltado dessa viagem no tempo. Satisfeitos, sabiam que estariam vivendo o dia na expectativa de outra vez serem transportados através das vibrações nas supercordas sonoras do sino vespertino. A cidade como que ficava encantada sob a influência da névoa esverdeada pairando sobre as ruas, a pracinha, adentrando as casas. Elevando-se pelas escadas dos sobradinhos.

E o dia transcorria numa alegria contida inexplicavelmente revigorada no sabor do café da manhã seguinte. O pão francês molhado no leite açucarado com sabor de raios de sol que amanheciam aquecendo as faces e as asas das xícaras desse “breakfast”.

As crianças dirigiam-se aos grupos escolares. As aulas bem-vindas faziam parte do intervalo. Os professores sabiam que todos aprendiam sem mais explicações, como se nem precisasse ensinar alunos destinados a se sentirem mendigos da realidade social deletéria imposta pela aceitação degradante da esmola, compra de votos, da bolsa-família.

Os estudantes voltavam para casa. E à hora do almoço não era de alvoroço nem de constrangimento. Não escondiam nada por trás do sabor da salada. E o feijão com arroz, mastigados com um pedacinho da hemoglobina do bife bovino, melhorava o crescimento pela síntese e ativação das enzimas animais.

Na hora do lanche, agora a mesma do jantar, uma fruta, ou um suco de laranja, uva, açaí ou maracujá ao sabor do mastigar de biscoitos finos produzidos pelas receitas de uma cultura oswaldiana a acompanhar a média de café com leite.

Enquanto saboreavam essas delícias com vívida alegria, que mais parecia de orgia, vinha, bem-vinda, através das sonoridades do badalar do sino, o momento mágico da viagem no tempoespaço. Ah! Esses fins de tarde auditivos trazidos pela musicalidade do sino, mais pareciam acordes de domingo. Não mais precisavam ficar de castigo na sala “dark” do sofá, sentados à espera de participarem da família do Agostinho. E da Marieta.

Mas, como diz o ditado, tal passarinho tal ninho. E o que é bom dura pouco. Uma comissão de moradores dirigiu-se à igrejinha para reclamar do padre McKenzie a falta de sonoridade do sino vespertino. Aquele fenômeno sonoro do crepúsculo que transformava as percepções dos habitantes da cidade numa sensível particularidade extraordinária. Por que havia parado? Como poderiam reviver as sensações de viva beatitude?

Não houve jeito. As solicitações chegaram até o bispo. Este, depois de alegar que o padre McKenzie, responsável até então pelo badalar do sino, nunca teve autorização senão para fazer tocar o badalo, rapidamente, apenas em dias de feriados nacionais em horas e datas santificadas pelo calendário eclesial e de chamamento à missa de domingo.

O bispo logo substituiu padre McKenzie por um presbítero com ares de poucos amigos, com ordens expressas de cumprir os rituais de badalo do bronze da igrejinha à risca, na forma vigente da lei eclesiástica: tocar o sino, o mínimo. Em ocasiões raras e pungentes. Para nunca jamais provocar os efeitos de antigamente. O novo pároco ficou conhecido pela alcunha de “Corvo domesticado”. Tanto pela aparência da face arisca, quanto pela batina preta.

No sermão de despedida o padre McKenzie falou a seus ex-paroquianos com voz claramente compungida: “Irmãos, se a libertação não está em ti, não estará em mais parte alguma. Qualquer estrada que te leva até o fim do mundo quando caminhada até o horizonte da solidão de outros orbes, termina por te trazer de volta à mesma cidade com sua paisagem original...”

O outro sacerdote que veio substituí-lo, o “Corvo domesticado”, estranhou um sermão que não mencionava as Escrituras, pelo menos diretamente. Isso fez com que começasse a se mexer na cadeira de forma a mostrar certo constrangimento via inquietação da bunda rotunda que não parava de se deslocar ora pelo lado esquerdo, ora para o direito. Indiferente ao desassossego do presbítero, o padrezinho McKenzie continuava seu sermão sabedor de que tocava os paroquianos no fundo do coração:

 — “... A caminhada te trará de volta de maneira que, de onde estavas na partida chegarás ao mesmo fim de mundo de onde começastes a buscar”. Olhando para mim e minha mulher, que por acaso estávamos de passagem num fim de semana turístico, e havíamos adentrado a igrejinha por mera falta do que mais fazer, ele nos tornou foco da curiosidade de todos:

 — “Vejam os peregrinos que nos visitam. Chegam anônimos. E quando partem permanecem igualmente incógnitos. Mas as histórias deles e as nossas estórias continuam a fluir como águas no leito do rio de uma infância que nunca termina. O adulto apenas precisa de tempo para ir se adaptando à criança maior de idade que continua ser. E a conviver e abraçar no colo a outra criança de estimação, que em realidade é ele mesmo." — Muitos paroquianos se moveram para o lado porque nos queriam visualizar. E o sermão continuou:

 — "Se lhes contarem as alegrias de seus espíritos migrando através da sutil vibração de supercordas que conduzem a outra dimensão, eles apenas dirão entre si que, aqueles matutos, perdidos na contemplação preguiçosa de uma cidadezinha que vive da pesca, viram por detrás dos olhos o que a imaginação sugeria ver. E contarão nossas histórias como se fossem estórias de pescador."

 — “Frutos verdes de uma mentalidade não amadurecida”. — Pensei maliciosamente.

Sorrisos se fizeram ouvir e provocaram ainda mais inquietação no pingue-pongue do jogo de cintura do “Corvo domesticado”. De tanto levantar de lado, ora uma perna, ora outra, alguns paroquianos comentaram, após a missa, é claro, que o novo vigário poderia estar soltando aos poucos os gases do rotundo corpo com simulados puns. Puns contidos, que se de uma vez saídos passaria ele pelo vexame estrepitoso da ventosidade rumorosa.

Ao final do sermão algumas gotas se fizeram visíveis numa e noutra face, no que foram ligeiramente limpas com a passagem, quase imperceptível, da ponta dos dedos de uma e outra beata mais chegadas à comoção.

O tempo passou e as pessoas da cidadezinha voltaram a ficar de frente e prestar atenção nos horários nobres das novelas da programação TVvisiva. Os sofás, outra vez, começaram a afundar sob o peso dos glúteos das vovós, papais e de seus meninos de colo.

Os jovens e as mocinhas faziam pressão nas espinhas sentados sobre os furos nos assentos das cadeiras de vime. E os ratinhos e ratinhas, atores e atrizes do vídeo, começaram outra vez a invasão de suas mentes através da luminosidade da telinha da TV. E eles outra vez se mumificaram: pessoas da sala de jantar. coisificadas pela rotina.

Uma angústia impossível de se descrever tomou conta da sala do sofá das pessoas que não mais podiam dela se desprender. E eram democraticamente forçadas a prestar atenção e devoção aos programas de humor muito sortidos de sordidez. Não tinham opções de lazer, exceto a opção nada “democrática” do controle remoto entre aspas.

Todos estavam tornando à fixação das propagandas que lhes vendiam aos borbotões as ilusões de consumo. As pessoas da sala de jantar voltavam a se plugar no comportamento das atrizes, dos atores cantores, das meretrizes empoadas e diariamente mumificadas pelos cosméticos dos cabeleireiros das TVs.

Eu dirigia o carro em direção à capital do Estado quando minha mulher teceu este comentário:

 — Você lembra do nome da igreja?

— Ermida, n´é?

— Não tinha nome de santo. Leuviah é nome de Anjo da Guarda. É possível um nome desse em igreja que não de santo católico? Nunca tinha visto! Primeira vez! Pode?

— Você acreditou nas histórias de suposta abdução pela sonoridade do sino?  “Seu” Balduíno muito reservadamente nos contou. Tenho cá minhas dúvidas e certezas. Mas o sorriso maroto dele.

— Sorrindo, como se soubesse que nunca ninguém acreditou.

— Mas que era a mais pura das verdades, segundo ele. Não uma simples história de pescador.

— Sei não, disse ela. Parece mesmo estória de aldeia de pesqueiro.

Enquanto isso na cidadezinha litorânea, a senhora Ferdinanda, amiga de família de dona Marieta, virou-se para Paulinha, sua neta programada para casar-se no próximo domingo e perguntou, com sorriso irônico, meia tomada de melancolia:

— Ah! Como eu gostaria de voltar àqueles dias e me ausentar até manhã seguinte no sonho das supercordas dimensionais.

E os sorrisos nostálgicos de Luana e do irmão Vinícius ao lado dela, olharam-se com intensa e frustrada aprovação.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 18/09/2011
Reeditado em 20/07/2014
Código do texto: T3225898
Classificação de conteúdo: seguro

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Decio Goodnews
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