O PUTEIRO DOS HORRORES - capítulo II
Olhei pro Zelão.
Ele riu (se é que aquilo era uma risada):. E eu tive quase certeza de que os dentes caninos dele cresceram. Ele estava igualzinho ao Cristopher Lee..
Que diabo, pensei assustado, eu ainda não estava bêbado nem nada.
– É o freguês da Davina. – me informou o barman, lá de longe – escandaloso não, aquelas coisas. Ele adora que mordam ele.
Ah, a Davina, a Garganta Profunda. Era uma das garotas mais gostosas do Puteiro.
Um outro trovão.
E um outro ataque de diarréia. Onde era o WC mesmo?
Reconheci o barman.
Trinta anos mais velho, claro.
Era o Dito.
Quis puxar conversa com ele.
Mas ele abriu um velho “catecismo” da década de sessenta e ficou folheando.
– Vai um Campari? – ele me disse finalmente, com sua voz de baixo profundo.
Será que ele se lembrava de mim?
– Vai.
Sentei na banqueta.
Olhei o salão.
Tudo estava como há trinta anos. (Tonha era muito conservadora. Suas garotas, ela dizia, só saíam dali aposentadas, por idade ou por invalidez.)
A velha lâmpada vermelha ainda estava lá, os velhos sofás verde-limão, o surrado LP do Milionário e José Rico, o perfume de incenso no ar, os velhos e encardidos posters de sexo explícito nas paredes, com a Tonha transando com um, com dois, com dez caras. O desbotado quadro dela com seu cavalo, o Fodão, também estava lá.
Nisso ouvi um doloroso relincho.
Meu Deus, será que o Fodão ainda estava vivo?!
Tonha gostava tanto daquele animal que era até apelidada de “a noiva do cavalo”.
Bebi o Campari todo de uma vez pra me acalmar.
– Mais um, Dito.
Acendi um cigarro.
Fodão, se é que era ele mesmo, estaria com ciúmes de mim?
Ele já teria me farejado?
Eu transava muito com a Tonha, e o cavalo, na época, não me olhava com bons olhos..
– Dito, cadê a mulherada?
Ele respondeu, debochado:
– Estão ocupadas… Pintinho de Ouro.
Ele também se lembrava de mim…
– Eu não venho aqui há muitos anos, Dito. Quantas gatas existem hoje aqui?
– Cinco… Pintinho de Ouro… Contando com a Tonha.
– Só cinco? Antigamente isso aqui fervia de mulher. Devia ter umas vinte. E as outras, o que houve com elas?
Ele bocejou.
Quase desmaiei com seu mau hálito.
– Morreram. Umas com cirrose, outras, com AIDS, outras, assassinadas…
De repente um rosto apareceu numa das portas.
Seria a Tonha?