O Pergaminho da Noite
Ao sair à noite, no breu da escuridão, encontrei, em uma esquina deserta, sem uma alma viva por perto, um pedaço de pergaminho amassado, envelhecido pelo tempo. A mensagem estava escrita de forma apressada, como se alguém tivesse apenas o necessário para deixar um aviso:
"Eu estive aqui e aqui estou. Quem encontrar este pergaminho deverá permanecer até o amanhecer."
Assim que terminei de ler, um arrepio percorreu minha espinha. Nunca na minha vida tive medo de um simples recado, mas algo naquele momento me fez sentir uma inquietação que nunca experimentei antes. Minhas pernas tremeram, meu coração disparou. O medo me dominou, mais do que qualquer outra coisa – afinal, como todos, eu temia a morte, mas agora sentia algo ainda mais profundo: a sensação de que, se desrespeitasse aquele aviso, eu poderia nunca mais encontrar paz.
Decidi armar minha barraca ali mesmo, sem coragem para seguir adiante. Acendi uma fogueira, mesmo com o corpo trêmulo. Não sou louco o suficiente para fugir e correr o risco de nunca mais dormir em paz. Algo em meu interior me dizia que ignorar aquela mensagem teria consequências irreversíveis.
A noite se aprofundava e, à medida que as horas passavam, o silêncio parecia se arrastar, ficando mais pesado. Quando o relógio marcou três da manhã, o único som que eu ouvia era o da batida acelerada do meu próprio coração. O medo e a solidão eram meus únicos companheiros ali, na penumbra daquela noite interminável.
Foi quando, de repente, uma voz suave, mas firme, se ergueu das sombras. Era uma voz que parecia vir de um lugar distante, porém tão próxima, como se estivesse dentro da minha mente:
— Você fez o certo em ficar. Tenho grandes coisas para te contar…
Senti um calafrio percorrer minha espinha. O medo cresceu, mas algo mais me impeliu a não correr. Não sabia se a voz era real ou se estava ficando louco. O ar ao meu redor estava espesso, e a chama da fogueira parecia lutar contra uma força invisível.
A voz continuou, sem pressa:
— Eu fui assassinado, sem dó, sem compaixão. Quando me trouxeram para cá, eu sabia que não voltaria. Eu era um homem como você, com sonhos e medos. Mas aqui, sem aviso, sem piedade, fui tirado da vida… Agora, eu estou preso a este lugar, sem poder ir embora, esperando que alguém se atrevesse a ouvir a minha história.
Senti a tensão aumentar no ar. A voz era baixa, mas parecia preencher o espaço, atravessando a noite como uma presença palpável.
— Não tenho mais medo. A morte não me assusta mais, pois ela já me consumiu. Não vou te fazer mal, muito menos te causar um pesadelo. Só preciso de companhia esta noite, pois, mesmo em minha condição, a solidão me consome. A noite está tão escura e fria, e eu tenho tanto medo, mais do que você poderia imaginar…
O ar estava denso, e eu não sabia se deveria responder, mas minhas palavras saíram sem que eu pudesse evitar:
— Por que… por que eu?
A voz se fez ainda mais suave, quase como um sussurro, mas cheia de uma tristeza incomensurável:
— Porque você se atreveu a ficar. Você é forte, ou talvez tolo o suficiente para não fugir. Mas agora, você é parte disso, como eu fui uma vez. Não se arrependerá.
Eu fiquei ali, tenso, aguardando o que mais poderia acontecer, o medo e a curiosidade misturados em meu peito.
Finalmente, a voz falou uma última vez, e suas palavras reverberaram em minha alma, como um pedido:
— Obrigado por ficar. O amanhecer está quase chegando, e sei que, após isso, você nunca mais voltará aqui. Antes de partir, por favor, deixe uma vela acesa para mim, como sinal de respeito. Uma pequena chama, que talvez possa iluminar minha escuridão.
A noite foi se dissipando lentamente, e a presença na escuridão pareceu se esvair, deixando um vazio silencioso atrás. À medida que o primeiro sinal da luz do amanhecer tocava o horizonte, uma sensação de alívio me tomou. No entanto, a memória daquela noite e da voz que me pediu companhia ficou gravada em minha mente, como uma marca indelével.
E, com a luz do novo dia, eu sabia que nunca mais ignoraria o aviso de um pedaço de pergaminho, nem me atreveria a desafiar o desconhecido novamente.