Mea Culpa

No quarto escuro, iluminado apenas pela parca luz do poste que invade as frestas da janela, você ouve passos.

Sabe que são as batidas do coração, ecoando em seus ouvidos, mas cisma que soa exatamente como passos. Constantes, mas sem nunca chegar a lugar nenhum.

Dorme com o som, muitas vezes incômodo, pulsando em seus ouvidos. Muda de posição na cama e ele some.

Mas naquela noite não somem quando muda de posição, nem quando se senta na cama. O coração acelerado denuncia que o som ritmado e lento não vem mais de lá.

Prende a respiração para ouvir melhor. Sim, são passos de verdade e estão chegando cada vez mais perto.

Ouve quando viram a esquina e vão lentamente chegando até a janela de seu quarto, continuam até parar no portão, que está trancado com cadeado.

Agora totalmente alerta, espera pelo que virá. Mas nada havia te preparado para o horror de ouvir os passos dentro do quintal, sem o barulho de chaves, nem de arrombamento.

Poucos metros te separam de quem quer que esteja chegando, e porta nenhuma parece ser um obstáculo. Eles agora estão na sala. Contínuos e firmes. Sabem exatamente onde devem ir.

E você não desgruda os olhos da porta fechada. O coração aos trancos e a boca desértica.

Completamente imóvel.

Não pensa em mais nada. Não atina que precisa correr, se esconder, pular a janela, acender a luz, ligar para a polícia. Nada. Continua como uma estátua, esperando.

Os passos param em frente à porta do quarto. Você se prepara para o que surgirá, mas depois de segundos de silêncio desesperador, percebe que a maçaneta está se movendo lentamente até o final e depois de um leve empurrão, a porta começa a se abrir bem devagar.

A sala continua escura, então você não consegue ver nada que está do outro lado da porta, agora quase toda aberta.

Você sente mais do que vê, que algo está entrando. Então todo som parece ficar em suspenso e tudo o que sente é o sangue fluir tão rápido por suas veias, como se estivesse eletrificado. Aí você vê apenas um vulto, mais escuro do que a noite, que parece atrair e engolir toda a luz em volta. Ele se aproxima até ficar na sua frente. E você pode ver o brilho perverso de seus olhos.

Seus lábios se curvam em um sorriso torto e sua voz soa como se saída das profundezas da terra:

— Agora você me pertence.

Você tenta se mexer, cobrir a cabeça com as cobertas, ou até mesmo fechar os olhos para não ver aquele sorriso, mas não consegue. Até respirar é um sacrifício. O ar entra quente e líquido, afogando os pulmões de horror.

Ele estica a mão e segura seu braço, e o toque frio e úmido te deixa com náuseas.

De repente o quarto não existe mais, só a escuridão. Ele continua apertando seu braço te conduzindo. Vocês dois agora caminhando com passos firmes e seguros. Sincronizados.

A escuridão vai se dissipando e uma névoa grossa e viscosa toma seu lugar. Então você vê onde estão e seu coração quase para.

— Não! Eu quero ir embora, me leva de volta!

Mas ele não afrouxa o aperto, continua quase te arrastando até lá. Uma cena conhecida, mas completamente falsa.

Você se vê criança ainda, sete ou oito anos, no banco do motorista guiando um carro e seus pais estão sentados no banco de trás. Eles estão conversando e sorrindo um para o outro.

Então sua versão mirim pisa fundo no acelerador, pula do carro, e o vê se chocar com um caminhão.

O carro explode e queima até seus pais ficarem irreconhecíveis. E seu eu criança fica lá, assistindo a tudo impassível.

Você sabe que não foi assim que aconteceu. Você não estava lá, não viu nada. Mas sempre imaginou se tinha uma ínfima chance do acidente ter sido por sua culpa.

Você sabe que parece loucura, mas sempre imaginou se aquela não teria sido a verdade o tempo todo. Mas ver com os próprios olhos o que às vezes passava por sua mente, é devastador.

— Não foi assim que aconteceu. Não foi!

Ele dá aquele sorriso torto e responde:

— Como pode ter certeza? Você pode ter bloqueado essa imagem da sua mente…

— Eu não estava lá! Eu não sabia dirigir, era só uma criança. Provavelmente nem alcançaria os pedais… Isso tudo é ilógico.

— É o que tem dito todos esses anos para sua mente, mas ela não consegue acreditar…

— Mas eu não tinha motivos para matar eles. Eu senti muito a falta deles. Foi a pior coisa que me aconteceu!

Você sente lágrimas arderem em seus olhos, querendo descer, mas não quer demonstrar fraqueza.

Ele dá de ombros e te arrasta para mais perto, forçando você a olhar para a criança, que tem os olhos mortos, e o rosto inexpressivo.

Você sabe que não era assim nessa idade, nem depois da morte deles. Sempre foi uma criança alegre e cheia de vida. Só na juventude começou a questionar algumas coisas do passado.

Ele te leva até os restos do carro e você vê os corpos de seus pais, totalmente carbonizados, dentes à mostra em um sorriso tenebroso. Na hora lembra dos caixões fechados, do desespero de não poder se despedir deles. Desde então sempre imaginou o pior cenário possível. O cheiro de carne queimada revira o seu estômago e faz as lágrimas reprimidas escaparem.

— Você fez isso, direta ou indiretamente. A culpa é sua!

Assim que ele solta o seu braço, você acorda.

O quarto continua escuro, mas não há ninguém lá. Você senta na cama e inspira com dificuldade o ar puro, tentando limpar da memória o cheiro de fumaça e carne tostada.

Tenta se acalmar, pega a garrafa de água que está em cima da mesa de cabeceira e molha a garganta. Foi só um sonho. Repete até parar de tremer.

Não consegue voltar a dormir, e nem quer. Levanta e pega o álbum de fotos de quando eles ainda estavam vivos. Eles eram tão felizes, ficavam tão bem juntos. E você se vê lá, tão contente, sorrindo em todas as fotos. Sente saudades daquela época. De quando você se sentia totalmente inocente. De tudo.

O dia passa rápido, mesmo você fazendo de tudo para prolongá-lo. O terror toma sua mente só pela possibilidade de ter outro sonho, se é que possa chamar assim. Mas por mais que queira, não pode parar de dormir para sempre.

Deita de barriga para cima, mesmo sendo a forma mais incômoda de dormir, mas pelo menos assim não consegue ouvir o som do coração imitando os malditos passos.

Mas quando percebe, o vulto já está lá, sentado em sua cama, te observando dormir. Antes que você possa esboçar qualquer reação ele já segura seu braço e te arrasta pela escuridão novamente.

— Você vai gostar do que vamos assistir hoje.

Você tenta imaginar que outras tragédias sua mente já colocou em sua conta, mas são muitas. Então você percebe que deixou pra lá um problema muito sério. Aparentemente não era normal se culpar mesmo de forma inconsciente por coisas totalmente fora da sua realidade ou poder.

A névoa vai diminuindo até que você veja seu quarto de criança, e você lá olhando para dentro de um berço.

Imediatamente já sabe o que vai acontecer a seguir. E já começa a suar. Já imaginou algumas vezes se era possível que isso tivesse acontecido, mas agora iria assistir “ao vivo e a cores”.

— Não sabia que você tinha um irmãozinho…

Dentro do berço está um bebê de uns nove meses, gordo e sorridente. Que está esticando as mãozinhas para sua versão infantil.

— Eu não tenho nenhum irmão!

Então sua versão de três ou quatro anos pega o travesseiro e o pressiona no rosto do bebê até ele parar de espernear. E mesmo que você queira desesperadamente evitar, não consegue se mover, nem falar.

— Agora não tem mesmo.

Seu coração está tão disparado que é até difícil se manter em pé. Se ele não estivesse segurando firmemente seu braço, você desabaria.

Assistir a você mesmo matando a sangue frio um bebê é aterrador demais. Mesmo tendo certeza de que nunca teve irmãos. Mas agora que tinha visto com seus olhos, uma dúvida se insinua. Será? Era mesmo possível que isso tenha acontecido? Não! Não. Não? Será…

Acorda com o despertador soando. Sente lágrimas escorrendo pelo rosto. Tenta lembrar o que aconteceu, até que tudo volta à sua mente.

Mesmo depois de repetir exaustivamente que foi só um sonho, ainda sente a culpa corroendo sua alma. Se nunca tivesse imaginado isso, com certeza não sonharia com uma coisa dessas. No final, era realmente tudo culpa sua.

Você passa o dia todo em silêncio, agradece ao universo por trabalhar em casa e não precisar socializar. Mas sabe que não vai aguentar outra sessão de “sonhos”, então liga para sua avó.

— Bença, Vó. Posso passar uns dias aí com a senhora?

Ela é a última pessoa que te restou. Seu porto seguro. Era ela quem afastava os monstros quando você era criança, com certeza conseguiria afastá-lo agora.

Então você dirige duas horas até enfim chegar na cidadezinha de sua infância. E agora que revê lugares antigos, e constata que tudo está exatamente igual a quando você ainda morava lá, uma dúvida se materializa em sua mente.

E se fosse ainda pior? Carrega muitas culpas relacionadas a esse lugar. Incalculáveis. O bar da esquina que pegou fogo, o padre da paróquia que morreu de velhice, o pai da amiga que perdeu o emprego, o avô do amigo que infartou… de uma forma ou de outra, mesmo que a razão te diga que é impossível, você sente que a culpa foi sua.

Respirar começa a ficar difícil e o coração acelera, você cogita e até deseja, que possa estar enfartando. Tenta se controlar. Tenta recuperar a razão. É impossível, completamente impossível que alguma dessas coisas seja sua culpa. Você sabe disso. Você sabe, não sabe?

Chega na zona rural, praticamente no meio do nada, e vê a casinha antiga, mas ainda tão bem cuidada, em que passou a infância e juventude. E sua avó já está na varanda te esperando.

— Que bom que veio! Fiz bolo de banana, seu preferido.

Você abraça sua avó e sente toda a segurança que só aquela velhinha consegue te dar. Ela tem cheiro de alfazema e café. Você está finalmente em casa.

Depois de guardar a mochila e tomar o tanto de café com bolo que seu estômago permitiu, vocês sentam-se na varanda para contemplar a lua cheia.

— Vó, eu tive algum irmão? Que… morreu… ainda bebê? — Você arrisca perguntar.

Ela te olha nos olhos em silêncio.

— Isso realmente importa? Já conversamos sobre isso… várias vezes.

Ela segura sua mão e aperta com carinho.

— Você ainda tem esses pensamentos estranhos? Você me prometeu que iria procurar um médico.

Você não consegue esconder a culpa.

— Eu não tive tempo… e não conheço nenhum médico bom, com quem eu me sinta confortável de conversar sobre isso.

Tudo desculpa esfarrapada, você sabe.

— O que está acontecendo? Não veio só para fazer uma visita, não é? Você está com uma aparência tão estranha…

Você passa a mão no rosto, e percebe o cansaço acumulado de noites mal dormidas. Quantas noites foram? Agora parecem centenas.

— Ando tendo pesadelos horríveis…

Ela finge que entende, mas você sabe que não.

Ela é a pessoa mais incrível que existe e jamais precisaria desperdiçar uma única noite de sono sentindo culpa. Ou será que não?

— Por que eu sou assim, Vó? Me preocupo com coisas sem sentido, impossíveis de acontecer…

Ela te encara com olhos preocupados.

— Eu devia ter te levado num médico quando era criança. Perder os pais tão cedo… e daquele jeito… deve ter te abalado mais do que eu achei na época. Aí depois… você já era grande e eu esperei que fosse por conta própria…

Então aquela era a culpa que ela carregava.

Fazia sentido. Quem sabe que tipo de pessoa você seria se ela tivesse te encaminhado para um psiquiatra?

Será que você seria uma pessoa melhor? Uma pessoa mais aberta, articulada e sociável? Sofreria tanto com coisas fora do seu alcance?

Quando deita na antiga cama de solteiro, ainda está pensando em como tudo poderia ter sido diferente. Não consegue relaxar o corpo, vira de um lado para o outro. Conta até mil.

Pensa em palavras aleatórias, uma depois da outra até que a mente começa a ficar mais lenta. E uma calmaria toma conta de seu corpo quase como um anestésico.

Ainda está flutuando no pré sono quando ouve os passos. É o meu coração, você pensa pegando no sono. Mas antes que mergulhe completamente no mundo dos sonhos você vê o vulto entrando no quarto.

— Você não pode se esconder de mim.

Ele te pega pelo braço e te levanta da cama. E você cambaleia como se ainda estivesse dormindo, oscilando entre sonho e realidade.

Ele te leva até o quarto de sua avó. E você se vê de pé ao lado da cama dela, segurando uma enorme faca de cozinha.

— O que é isso? Eu nunca imaginei isso! Pode parar agora! Eu nunca faria isso! — As palavras saem emboladas de sua boca.

Ele só continua segurando seu braço em silêncio enquanto você assiste seu outro eu, de pijama, apenas observando sua avó dormir.

Você tenta se soltar, tenta chegar até seu outro eu, tirar a faca de sua mão, mas não consegue. O aperto da mão dele em seu braço é quase sobrenatural, te mantendo preso a ele, mesmo se debatendo e esperneando.

— Acorda, Vó! — Você grita.

— Ela não pode te ouvir.

— Acorda! — Você bate em seu próprio rosto, tentando acordar.

— Isso não é um sonho. Você não está dormindo.

Ele te obriga a olhar o que está acontecendo. E uma coisa diferente acontece. Não são mais dois de você, só um.

E você vê que está enfiando a faca no pescoço de sua avó, e deslizando até o outro lado, enquanto o sangue dela esguicha e te encharca. Morno e viscoso. Ela abre os olhos e te encara, e você vê a vida se apagando daquele olhar assustado.

Ela se foi, e você está só. Completamente só. E você se vê com uma faca na mão, e o sangue da pessoa mais importante da sua vida está por toda parte.

Então você larga a faca em choque. Corre até o banheiro e vomita na pia. Esfrega o rosto e as mãos tentando tirar o sangue que gruda feito tinta vermelha na pele.

Acorda, acorda, acorda! Você implora.

Então você encara o espelho e vê o vulto. Aquele que te guiou nos pesadelos. E entende tudo.

Aqueles olhos maus. Aquele sorriso torto. A acusação e a culpa esmagadora. Estava tudo lá.

Não era um sonho dessa vez.

Porque ele era você, e você era ele. Esse tempo todo.

— Vovó estava certa em se culpar, afinal. — Você diz para o espelho.

— Tudo isso é culpa dela. — Seu reflexo te responde.

Depois de alguns dias, você está lá, em estado de choque, ao lado do cadáver apodrecido de sua avó, em meio ao sangue seco. A casa está completamente revirada e o chão está repleto de fotografias de família.

Priscila Pereira
Enviado por Priscila Pereira em 30/03/2025
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