ENTRE PORCOS

Essa ideia estúpida vai mesmo funcionar? Elias pensava coisas do tipo quando saíram daquele matagal. Aquele seria o terceiro roubo no mês, mas essa residência ficava num lugar tão ermo que Elias agradeceria de joelhos se eles voltassem para uma casa cheia de pitbulls ou com uma senhora infartada no sofá, assim como das últimas vezes.

- Eu sei o que você tá pensando – Disse Zé.

Eles estavam tentando atravessar um terreno enlameado e as calças deles já tinham crostas pesadas de barro.

- Esse lugar é esquisito mesmo. Na verdade, não é esquisito, só quase abandonado.

Elias já havia pensado, pela terceira vez, na melhor forma de esganar seu parceiro de crime, mas não podia reclamar. O negócio estava muito lucrativo. O dinheiro vivo que os objetos roubados ofereciam estavam bancando a vida “gourmet” que eles levavam fora do expediente.

- Já invadiu algum sítio antes?

Eles já estavam próximos a um pequeno curral.

- Nunca, mas tudo tem sua primeira vez, não é mesmo? Mas... Caralho, que fedor é esse?

Os dois se apoiaram em uma cerca e o ronco de diversos porcos agitados dominaram o ambiente. Alguém criava suínos ali, e os animais pareciam bem alimentados.

- Misericórdia, Zé! Nosso negócio não tá nesse chiqueiro aí não, né? Ou está?

- Não, não. – Zé se virou para a esquerda e colocou a palma acima dos olhos para enxergar melhor.

- Estou vendo a casa azul daqui.

Quando Elias se virou também pode ver a casa, escondida da visão deles por duas grandes árvores.

- Vamos nessa.

***

A casa tinha tantas teias de aranha e mofo que apenas um grupo terrorista resolveria a situação daquele muquifo, ruindo tudo abaixo para ser reconstruído do zero.

- Vamos pegar uma doença, Zé.

Zé já estava no cômodo seguinte, examinando um baú artesanal. E tinha um semblante radiante.

- Podemos pegar a doença que quisermos aqui. A gente compra a cura do câncer com esse dinheiro, porra!

Elias apressou o passo e chegou aonde seu parceiro de crime estava. O baú aberto revelava muito dinheiro. Várias notas de duzentos reais se amontoavam, frescas e reluzentes. Elias não se conteve e pegou um maço na mão, soltando risadas agudas de felicidade. Mas logo ficou sério.

- Como achou esse tesouro, Zé?

Este continuava olhando para as notas.

- Nem sei, cara. Era para ter só os móveis caros e algumas notas no quarto do falecido. Mas que se dane! Vamos embora com isso!

A inexperiência deles no mundo do crime não os ensinaram a agir quando a colmeia tem muito mel. Mesmo assim, seguraram o baú e saíram da casa em direção ao matagal, onde a trilha de volta para casa os esperava.

Foi passando pelo chiqueiro que Elias pediu para que deixassem o objeto precioso um pouco no chão.

- Minhas mãos estão doendo, vamos descansar... Droga, não devia ter deixado a academia.

Zé riu e acendeu um cigarro. Se virou para baforar, mas logo seus olhos arregalaram e ele paralisou.

- Caralho, parceiro Elias. Aquilo é uma mão?

- Do que você tá falando, rapaz?

Zé caminhou até a porta do chiqueiro e entrou. Andou entre os porcos, mansos até demais. Chegou até perto da extremidade direita e arregalou.

- É mão de gente aqui no chão, Elias. Aqui é um cemitério!

Elias não queria entrar no chiqueiro, mas correu, com dificuldade, para o lado da cerca mais próxima do seu amigo. Olhou para o lugar no chão que ele apontava. Havia realmente uma mão ali. Alguns dedos faltavam e a pele solta e arroxeada denunciava a podridão. Como os porcos ainda não comeram isso?

A existência de um cemitério clandestino deixava tudo mais perigoso. Se algum traficante ou criminoso usava aquela propriedade, então ele não teria pena alguma de dois ratos querendo fazer dublê de caras da pesada. Aquilo dinheiro era mais sujo que suas bundas, e poderia mandá-los direto para a terra do pé junto - talvez nem inteiros;

- Será que devemos levar o dinheiro?

Zé pensou muito.

- Não sei, não sei... Porra! Eu sempre checo tudo antes.

Antes de decidirem, Elias caminhou de volta no terreno lamacento até o baú. Abriu ele mais uma vez. Parecia que as notas emanavam luz própria, chamativas e prometedoras de riqueza. Elias admirou aquilo por uns segundos, mas não por muito tempo. Zé começou a gritar.

- Elias! Elias! Estou preso!

Elias se virou e conseguiu ver Zé no chiqueiro. Ele estava na mesma posição. No entanto, jogava os braços para todos os lados, como um boneco inflável de loja de peças automotivas. A cena era, de início, engraçada. Pensou em como ele deveria ter se assustado com a mão e pisado num grande amontoado de merda de porco. Santa Virgem, mais um idiota que precisa de ajuda.

Elias correu para o chiqueiro e já próximo à cerca percebeu que o caso era mais sinistro do que parecia. Zé não estava preso na merda. Preso, talvez, mas em algum tipo de areia movediça. Os tornozelos de Elias já estavam quase sumindo, atolados no solo sujo do chiqueiro.

- Está me sugando, me ajuda!

Elias correu para a porta, pronto para puxá-lo sem chegar muito perto. Ele já havia visto alguém ser sugado por um terreno assim – já havia viajado por muitas regiões do país - e o infeliz que fez a proeza de andar em solo do tipo morreu por não conseguir sair de onde estava atolado até o tórax. Só que esse não parecia o caso, já que os porcos viviam ali tranquilamente, sem passarem por isso. E seria pelos animais que Elias se guiaria nas partes seguras do chiqueiro.

No entanto, dois porcos grunhiram com um som incomum. Usaram suas patas para chegar até a entrada e fizeram o impensável: se colocaram de pé, como um humano. Elias gritou, assustado com uma cena surrealista.

Era a primeira vez que uma coisa tão absurda acontecia diante dos seus olhos. Com uma violência incalculável, os porcos bloquearam a entrada, como guardas de uma boate. Elias não soube reagir e ignorou os gritos do amigo. Nunca tinha lidado com suínos humanoides.

- Me ajuda!

Zé já estava atolado até a barriga. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar e gritar. Ele usava as mãos para cavar a lama ao seu redor numa tentativa desenfreada de sair, mas era terra demais. Aquela parte do chiqueiro o queria para si, puxando-o como uma descarga que manda a merda para o esgoto. Zé era a maldita merda, mas ele desceria para debaixo da terra e morreria.

Elias nunca teve medo de porcos. A tensão aumentou com o estado do seu amigo. Com um instinto que ele sabia que criminosos não deviam ter, ele se sentiu na obrigação de ajudar. Porcos não o assustavam, mesmo que fossem a merda de porcos ambulantes. Avançou em cima deles para entrar, mas logo descobriu que não era tão simples assim. A força animalesca era usada junto com mordidas violentas. Ele não conseguiria chegar lá. Um dos porcos deu um violento empurrão em Elias, que caiu para trás, desnorteado.

Sua visão ficou turva e um zumbido dominou sua audição. Não pôde calcular quanto tempo passou deitado, mas ao inclinar a cabeça ainda via o curral. Viu o que julgou ser Zé atolar cada vez mais. A lama já chegava nos ombros e ele gritava sem parar. Agora a cabeça, única parte do corpo fora da lama, tentava virar e se contorcer para todos os lados. E afundava cada vez mais, enchendo sua boca de terra e afogando seus gritos com lama. Elias viu apenas seus olhos de fora, órbitas correndo para todas as direções possíveis e que conseguiam por si só exalar o desespero de Zé.

Quando todo o seu corpo foi sugado pelo chiqueiro, um silêncio instaurou-se. As cigarras pararam de cantar e a ventania típica da região cessou. O tempo se tornou inestimável, pesado e seco. Uma sensação quase onírica que não podia durar mais, pois logo foi quebrada pelo ronco de vários porcos, como risadas maléficas.

Elias recobrou totalmente os sentidos quando os animais monstruosos do chiqueiro declararam sua vitória. Se levantou e ficou paralisado de medo e horror. Como isso pode acontecer? Aqueles suínos estavam correndo pela lama guinchando, chegavam no local onde Zé afundou e riscavam o chão com suas patas, como galinhas ciscando, exibindo sorrisos de felicidade e sadismo.

As pernas bambas de Elias ainda não o deixavam correr, mas o pior ainda estava por vir. Escutou um som exótico, como um “blop” de um caldo fervendo. E outro. E mais outro. Olhou na direção do som: o chiqueiro. Um braço emergia da lama, como um zumbi acordando de seu sono eterno em uma cova. Elias reconheceu o braço de Zé, e apenas se aproximou alguns passos, com medo da reação dos porcos. Logo, mais um membro saiu, dessa vez a cabeça de Zé, totalmente suja de terra. Havia lama nas suas sobrancelhas e olhos, seu cabelo estava empapado. Ele não parecia bem, e começou a gritar sem parar.

- Elias! Elias! Parceiro!

Nessa hora, Elias já estava se aproximando e com mais coragem. Se Zé estava bem, então não estava lidando com algo tão poderoso. Matutando, foi armando um plano para matar os porcos. Sua vingança iniciaria imediatamente, mas ele não esperava uma reviravolta.

De forma extremamente rápida, um corpo foi totalmente expelido da lama, como um bebê saindo do útero em um parto sobrenatural. Aquele corpo de proporções estranhas e nefastas se esparramava pelo chiqueiro enquanto tentava se pôr de pé.

Elias reconheceu a cabeça, um braço e parte do busto de Zé. Mas ele não era aquela coisa. Seu braço esquerdo estava com trapos velhos e quase decomposto, com a mão e o antebraço esqueléticos.

Seu tronco era de alguém mais gordo que seu parceiro, com os intestinos de fora e costelas à mostra. Suas pernas, uma totalmente o esqueleto e outra nua e arroxeada, tremiam, mas conseguiram se pôr de pé rapidamente.

- Elias!

Dando passos para trás lentamente, o parceiro de longa data não conseguia acreditar no que estava vendo. Aquilo era uma mistura de vários corpos, podres e fétidos. Um Frankestein havia se formado naquele chiqueiro e, seja lá quem for seu cientista criador, usou partes de Zé para isso.

A criatura se aproximou da entrada do chiqueiro e começou uma corrida desenfreada em direção a Elias. Seus ossos tremiam enquanto a coisa corria, mas continuavam firmes como se tivesse articulações de aço. Elias ainda tentou fugir, mas foi pego pelo monstro, que o derrubou. Os dois caíram e Elias ficou por baixo, gritando por socorro. Mas o sítio era demasiado isolado para que alguém escutasse o seu desespero.

- Que porra é essa?!

A cabeça de Zé ria enquanto tentava morder o pescoço de Elias, que se debatia e se manchava com as partes podres. O necrochorume daquele ser em decomposição pingava enquanto seus membros podres se contorciam em cima dele, exalando um cheiro que faria o mais experiente técnico em necropsia vomitar.

- Preciso de mais! Mais! Comida!

Foi quando a mão de Elias escorregou no antebraço esquelético que o monstro-Zé conseguiu o que queria. Deu uma mordida forte e violenta no ombro de Elias, embora não fosse no desejado pescoço. Elias sentiu os dentes de zé cravando em si, com uma força descomunal. Esperneou e gritou mais alto com a dor lancinante.

Com um uivo de terror, Elias empurrou com toda a sua força o ser sobrenatural, que cambaleou e caiu a sua frente. O sangue já corria pelo seu corpo, e ele percebeu o monstro mastigando o que conseguiu tirar de sua carne.

- Mais! Mais! – Ele disse isso com a boca cheia, como um homem em um boteco pedindo mais cerveja enquanto mastiga suas iscas de frango. Sangue escorria por seu queixo.

Elias se levantou e, num surto de coragem, decidiu acabar com aquilo, e a próxima pedra que ele avistaria seria sua arma. Olhou rapidamente ao redor e achou um pedaço de concreto, grande o suficiente para ser sua salvação. Agarrou sua arma e partiu para o monstro, ignorando seu ferimento e a perda de sangue. A coisa tentou reagir, mas a pedrada em sua testa aparentemente a deixou tonta. Elias se aproveitou disso para montar no corpo pútrido e desferir vários golpes, sempre na testa.

O vento balançava as folhas das árvores e da bananeira enquanto o duro objeto golpeava a cabeça de Zé, abrindo um buraco no crânio. Depois de três minutos, tudo se aquietou. Com a cabeça caída para o lado, aquilo já não rosnava nem ameaçava matá-lo.

Elias se levantou e começou a chorar. Lágrimas corriam pelo seu rosto e ele soluçava. Então esse era o preço? Haviam decidido invadir e roubar casas vazias e sem sistema de segurança para pagar suas dívidas, mas o negócio pessoal com a venda dos objetos trouxe mais do que liberdade financeira para comprar entorpecentes. No fundo, ele sentia que esse projeto amador ia dar merda. Só não foi da forma que ele esperava.

Sentiu-se zonzo e lembrou do ferimento em seu ombro. Não era mortal, mas ia precisar de ajuda. O que fazer agora? Olhou para o chiqueiro e viu outra vez o horror. Um porco estava apoiado na cerca, como alguém olhando a paisagem na varanda. Mas o animal olhava nos olhos de Elias, sorrindo.

Foi neste momento que perdeu a razão. Esqueceu do carro no começo da trilha. Esqueceu do baú de dinheiro. De Zé. Dele mesmo. Não podia ficar ali mais nenhum minuto. Um tremor correu todo o seu corpo e ele imaginou a si mesmo se atolando no chão, suas súplicas e pedidos de misericórdia que nunca seriam atendidos. Os porcos e seus demônios subterrâneos que os transformaria numa aberração da natureza. Precisava fugir, não importava para onde.

Numa corrida alucinante, Elias correu pelo terreno como podia. Atravessou a parte mais úmida e chegou a um terreiro, mas sem ninguém. Em frenesi, corria pela mata e por casas abandonadas, gritando até suas cordas vocais romperem.

- Socorro! Socorro!

Quando suas pernas já estavam quase falhando, ele viu seu messias em forma de asfalto. Uma estrada comum se espichava, além do barulho de um carro se aproximando. Rindo, correu em direção a única coisa que poderia salvá-lo. Sua roupa já estava empapada de sangue, mas sua vontade de viver gozava de pleno funcionamento.

O carro era um Palio que passava pela estrada justo quando o homem ensanguentado se jogou em sua frente. O para-choque bateu parcialmente em Elias, que voou como um boneco de pano para o arbusto de onde havia saído.

O homem de óculos que Elias viu no volante perdeu o controle de seu automóvel e saiu da estrada, caindo no barranco que havia do outro lado. Ouviu-se o barulho dos pneus descendo o terreno íngreme e uma batida. O silêncio se instaurou após o último estrondo.

Mesmo com o fracasso em salvar sua vida, o resto da vida no mundo sempre continuaria. Os grilos e sapos que cantavam e o vento que gemia nas árvores e nas plantas compunham sua melodia, uma canção de ninar para humanos dominados pela nostalgia e o naturalismo. Também não demorou para que a noite começasse a jogar seu sal de estrelas no céu.

Pareceu ter se passado uma década. A violência de seu ferimento poderia ter sido fatal, mas não foi. Praticamente sentado naquele monte de terra e folhas, ele já não era mais ele mesmo. Pois iria morrer, mesmo que não agora.

Elias estava tão ferido que não conseguia se mexer. Sua visão embaçada o fazia apenas tentar julgar se o que via, sentia e ouvia era real. Não sabe quanto tempo ficou assim. Contudo, reconheceu bem o dono dos passos que se aproximavam.

Soturno, leve como o vento que soprava e esfriava a face ensanguentada de Elias. Ele sabia quem era. E que não teria força alguma para lutar. A podridão foi trazida pela mesma brisa que o acalmava naquela noite amaldiçoada. Desejou ter morrido naquele instante.

- Elias, me ajuda!

Demorou a reconhecer de verdade o ser que estava ao seu lado, mesmo que antes tivesse certeza quem fosse. As pernas podres eram quase um borrão. Só olhando para cima com dificuldade que reconheceu seu parceiro de crime. Estava com a testa totalmente destruída pelas pedradas e sangue por toda a face, mas ele ainda o reconhecia. Não há como reconhecer aquele cavanhaque e os olhos de tigre traiçoeiros.

Não havia mais o que fazer. Sentia-se como se ele fosse se sentar ao seu lado, compartilhar toda a história das proezas que fizeram junto, acender um baseado e buscar bebida. Mas isso não aconteceria, não mesmo. O destino é tão certo como o nascer do sol, então resta aceitar.

Elias jogou a cabeça para trás e tentou pensar um pouco, mas a vista já estava turva demais. Perdia aos poucos sua consciência, como a areia que escorre no interior de uma ampulheta. Ao seu lado, o monstro feito do que restara de Zé - e um pouco mais - também não aguentava mais esperar.

Ele precisa de mais.