A Galinha Degolada

A Galinha Degolada

Cardoso I

Esmélia suspirou, olhando para o quintal. A galinha ciscava inocente, alheia ao destino que lhe aguardava. O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e vermelho, como se a própria natureza anunciasse o sacrifício que estava por vir.

O estômago dela revirou. Matar um animal era algo que sempre evitara, mas hoje não tinha escolha. O marido chegaria cansado, exausto do trabalho pesado na lavoura, e esperava uma refeição quente. Ele sempre dizia que não gostava de mulher preguiçosa.

Pegou a faca e caminhou hesitante até o bicho. A galinha a olhou de lado, como se compreendesse seu destino. O coração de Esmélia disparou.

— Desculpa… — murmurou, as mãos trêmulas.

Fechou os olhos e tentou se lembrar do que a mãe lhe ensinara: um corte rápido na garganta e fim. Mas, quando abriu os olhos, viu a cena mais assustadora de sua vida: quatro figuras imóveis a observavam do alpendre. Os filhos.

Quatro meninos, todos calados, os olhos vazios, opacos como vidro sujo. Eles não falavam. Nunca falaram. Desde o nascimento, apenas existiam. O marido dizia que eram um castigo divino. O olhar deles pesava sobre Esmélia como uma maldição.

— Saiam daqui! — gritou, mas eles não se moveram.

O medo da faca, o peso da culpa e o olhar daqueles meninos mortos por dentro formaram um nó em sua garganta. Esmélia sentiu uma vertigem, e o mundo girou.

Então, num súbito frenesi, soltou a galinha, que correu em disparada para o meio do quintal.

A fome. O marido. O dever de uma esposa.

Ela fechou os olhos. Quando os abriu novamente, segurava a faca com força. Mas agora, ao invés da galinha, um dos filhos jazia aos seus pés.

O sangue escorria pelo chão de terra.

Pela primeira vez, os outros três meninos emitiram um som. Um riso baixo, abafado, como o grasnar de corvos.

Naquela noite, quando o marido chegou, encontrou o jantar servido.

— O que é isso? — perguntou, enquanto mastigava a carne macia.

Esmélia sorriu.

— Ensopado.

O homem limpou a boca com a manga da camisa e olhou ao redor.

— Cadê o menino mais novo?

Ela serviu mais uma concha no prato dele.

— Deve estar brincando por aí…

Os três filhos restantes assistiam à cena em silêncio. Nos olhos deles, finalmente, havia vida. E fome.

Ivonoel cardoso
Enviado por Ivonoel cardoso em 29/03/2025
Código do texto: T8296740
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