Elisa se levantou às oito. O despertador não tocou… mas a cidade era pequena e ela costumava acordar com as primeiras vozes de conversas na rua, junto ao som dos passarinhos. Não havia nenhum dos dois sons. Não havia som algum… Foi até a janela. olhou em volta e não havia ninguém na rua… nem descendo e nem subindo. “Será que está cedo demais? O rádio relógio deve estar quebrado / ‘computador… Google: Hora certa: 08:15’”.
– Alguma coisa aconteceu…MAS, estou atrasada! Já perdi a primeira aula!!
Elisa era professora de uma escola primária a algumas quadras dali. Ela nunca tinha se atrasado na vida. Até isso era estranho… “Ninguém me procurou…?”, “Ninguém se preocupou…?”…
Não tomou banho, apenas pôs uma calça jeans e uma blusa, apanhou a bolsa e saiu com intenção de correr mas foi quase interrompida… na verdade não parou de andar, mas seus passos ficaram curtos. Estava atônita pela ausência de vida em sua volta. Elisa andava olhando prum lado e pro ouro, às vezes rodopiando em torno de si mesma, perplexa. Olhava o céu e não via pássaros. Os gatos e cachorros da rua também tinham desaparecido.
As pessoas não pareciam ter resolvido tirar folga ou algo assim… Elas pareciam ter sido arrancadas ou interrompidas do que quer que estivessem fazendo. Elisa se deparou com dezenas de portas entreabertas, janelas, carros ligados, rádios em estática… No caminho, entrou numas cinco casas simplesmente para apagar os fogões acesos, fechar botijões, ou desligar chuveiros ligados. Já estava na ladeira da escola quando começou a chorar…olhando pra baixo.
Elisa morria de medo de sapos e sempre que descia a rua da escola olhava de longe onde eles estavam e ia descendo pelo outro lado. Caso houvessem sapos nos dois lados, arriscava ser atropelada descendo pelo meio da rua. Nem mesmo os sapos estavam lá e até deles ela sentia falta. Já no portão da escola, olhou em volta mais uma vez… a escola era grande e cheia de árvores, Elisa procurou pelos micos que pulavam de galho em galho… nada. Sentiu uma coceirinha no pé e teve uma quase esperança… se abaixou achando que fossem formigas. Mas era só uma folha seca.
Entrou na escola e primeiramente foi até a secretaria e depois até a sala da diretora. Só por desencargo de consciência. Depois foi caminhando lentamente de sala em sala. O colégio era grande… Foi quando chegou no pátio da escola, onde as crianças brincavam. E encontrou gente.
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Elisa se deparou com umas quinze crianças. Abriu um largo sorriso. Alguns poucos, os menores, eram seus alunos…
– GEENTEEEE!!! PROFESSORA ELISA AQUII!!
Todas as crianças se viraram pra ela. Elisa emudeceu imediatamente de medo. Os olhos das crianças tinham uma coloração amarelada, quase de mel, e suas peles pareciam de cera… em seus semblantes, não havia vida; não exatamente. Pareciam bonecos… réplicas de si mesmos. E pareciam… diabólicos.
Todos se uniram de mãos dadas, como numa corrente humana, parados encarando-a sem piscar. Elisa sentiu um mal-estar… algo que nunca tinha sentido antes. Não era apenas medo, era como uma sensação de sofrimento inevitável. Talvez muitos animais se sentissem assim quando finalmente chegava o dia do abate.
Então, depois de alguns minutos intermináveis… um menino apareceu. Ele parecia ter uns nove ou dez anos e tinha uma coroa de papel machê na cabeça. Uma coroa de trabalho de escola, pintada de amarelo com tinta aguache.
– VEJAM… MEUS CORDEIRINHOS…!! Mais um… Mais um dos ÚNICOS sobreviventes do ceifamento da peste adulta.
“CEIFAMENTO… CEIFAMENTO…”, repetiam as outras crianças.
– COMO PODEMOS… INICIAR UMA TERRA NOVA COM UM MEMBRO DEPLORÁVEL DA INFERIOR INVADINDO NOSSO REINO?! RAÇA EXTINTA APÓS TANTAS TENTATIVAS DE DESTRUIR O NOSSO MUNDO? PODEMOS…?! PODEMOS ACEITÁ-LA ENTRE NÓS??!!
– “NÃO PODEMOS… NÃO PODEMOS…!!”
– O que foi que aconteceu?! Do que vocês estão falando??? Eu vou procurar os PAIS de vocês!!!
As crianças começaram a rir… Começaram a rir e se aproximar de Elisa por todos os lados, cercando-a devagar. Sem que ela percebesse algumas crianças já estavam por trás dela e tinham até trancado os portões da escola. De repente o menino com a coroa se sentou numa cadeira do parquinho e vários deles permaneceram a sua volta, como se estivesse num trono. De uma das salas de aula saiu uma menina. Assim como ele… aparentava entre nove a dez anos e também tinha uma coroa de papel na cabeça. Se aproximou do menino e sentou-se ao seu lado.
Elisa ouviu gritos de dentro da sala. Gritos adultos, principalmente de mulheres. Era uma mulher que gritava desesperadamente de dor… “Parece… Parece um… um parto?!”.
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Algum tempo depois saíram da sala duas menininhas que pareciam ter menos de seis anos. Elas carregavam consigo um bebê recém-nascido ainda ensanguentado, com placenta e cordão umbilical. O bebê estava de olhos abertos e Elisa achou incrível que não estivesse chorando. Seus olhos tinham o mesmo tom amarelado dos outros. Quando isso aconteceu, Elisa já estava sendo rendida por pequenos – mas fortes e múltiplos – braços. Ela tentou lutar um pouco, mas logo percebeu que seria inútil. Eles eram muitos e a cada minuto apareciam mais e mais. A menina com a coroa se aproximou.
– Tiraram-nos a vida e a infância… –“Tiraram-nos a vida e infância!”
– Tiraram-nos os animais do céu e de terra…. – “Do céu… e da terra! Do céu… e da terra!”
– Queriam nos ensinar a ser EXATAMENTE do jeito que ELES ERAM mesmo sendo incrivelmente errados!! PECADORES!!!!
A menina cuspiu no chão com ódio.
– Mas agora, descobrimos como viver sem eles… a peste adulta.
– Hail Baal Deus da fertilidade! Hail Nosso Pai Belzebu!!
– HAIL BAAL!!! Hail Belzebu!
“QUE AS SEMENTES CUJO MUNDO NÃO CEIFOU, SIRVAM DE RECEPTÁCULOS PARA AS NOSSAS NOVAS CRIANÇAS! FILHAS DE BAAL E TAMBÉM BELZEBU.”
– HAIL BAAL!! HAIL BAAL!!!
– LEVEM ESSE SER HORRÍVEL DAQUI!! E PRENDAM-NA COM AS OUTRAS.
O menino, que observava toda a cena. Sorriu para a menina. Um sorriso de total cumplicidade.
– Que Baal implante uma semente dentro deste ser inútil, minha Rainha da Nova Terra.
– Que assim se faça segundo sua graça.
– “HAIL BAAL!! HAIL BAAL!! QUE TAMBÉM É ZEBU”
Elisa foi sendo carregada pelas crianças até a sala da biblioteca. “VOCÊS NÃO SABEM QUE TAMBÉM VÃO CRESCER??”, berrou, mas foi ignorada por todos. Sempre sonhou em ser carregada pelas crianças.
Elisa sempre sonhou ser importante pra crianças daquela escola num nível maior… Num nível muito além de apenas uma professora esquecível, uma apresentadora de conteúdos que eles esqueceriam quando passassem de ano e crescessem. E agora… ela era. Elisa parou de gritar e deu um quase sorriso… enquanto era levada para a sala.
“Hail…”, sussurrou.