A Tecelã de Witchford
A Tecelã de Witchford
Na pequena cidade de Witchford, ninguém sabia o verdadeiro nome da mulher que se chamava apenas "A Tecelã". Ela não era uma curandeira nem uma artesã. Sua ocupação era mais obscura, silenciosa e invisível, como o sussurro do vento que todos sentem, mas ninguém vê.
E suas criações não eram de fios de algodão ou lã.
Elas eram feitas de algo muito mais sinistro.
A Tecelã aparecia sempre ao cair da noite, quando a cidade se recolhia em silêncio. Ninguém sabia de onde ela vinha, mas todos começavam a notar suas marcas. Como um eco distante, suas teias surgiam nas casas, nas esquinas das ruas, por trás das portas e até nas paredes das igrejas. Elas não eram visíveis à primeira vista, mas a cidade sentia sua presença como se o ar estivesse carregado com um presságio.
Essas teias não eram feitas de fios comuns. Elas pulsavam. Eram feitas de sombras e fragmentos de memórias — algo sólido e ainda assim etéreo. Linhas finas como fios de névoa, invisíveis a olho nu, mas que ninguém conseguia ignorar, uma vez que estavam ali. E, aos poucos, as pessoas começaram a notar algo ainda mais perturbador.
Nas teias, apareciam formas humanas. Figuras distorcidas, silhuetas que pareciam estar imortalizadas na escuridão.
No começo, era só uma impressão. Talvez fosse um truque de luz ou uma brincadeira da mente. Mas então, as figuras começaram a se tornar mais claras, mais nítidas. Cada teia revelava um rosto familiar: o jardineiro da praça, o padre da igreja, a esposa do comerciante. Mas a medida que os rostos ficavam mais definidos, algo pior acontecia.
Essas pessoas começavam a desaparecer.
Primeiro, foi a filha do padeiro. Depois, a senhora que cuidava da loja de tecidos. Mas ninguém sabia explicar o que estava acontecendo.
As teias continuavam a crescer, mais intrincadas, mais complexas. As figuras nos fios se multiplicavam, tornando-se mais e mais reais. E enquanto as pessoas sumiam, as teias começavam a tomar formas maiores, mais agressivas. Não só dentro das casas ou nas ruas, mas também nos campos, nos armazéns e nas praças. Como se a própria terra estivesse sendo coberta por elas. Como se o destino de Witchford estivesse sendo tecido diante de seus olhos.
Na noite mais escura, algo insano aconteceu.
A tecelã fez sua presença conhecida de uma forma ainda mais perturbadora. Ela apareceu na praça principal, no centro da cidade. Não era uma mulher comum, mas uma figura sem forma definida, uma sombra em movimento que parecia distorcer a realidade à sua volta. Ela não tinha rosto, mas seus olhos brilharam como chamas, com uma luz fria e distante, que parecia olhar para além do tempo e do espaço.
Ela segurava um fio de escuridão, que se estendia por quilômetros e mais quilômetros, como se estivesse conectando todas as almas de Witchford, prendendo-as na malha da teia.
Na manhã seguinte, a cidade inteira havia desaparecido.
Não havia mais vestígios de Witchford. Nenhuma rua, nenhuma casa, nenhum campo. Somente uma teia enorme, que se estendia pelo espaço vazio onde a cidade uma vez existiu. E, no centro de tudo isso, uma figura sem rosto, tecendo um destino de sombras, esperando que o próximo pedaço de vida fosse capturado.
Mas as teias não pararam. Elas continuaram a crescer, a se estender, e a moldar o que não deveria ser tocado.