Eu não sei quem foi, hoje falei com quantas pessoas …? Dia de folga; uma, duas, três… tenho que contar atendentes de lojas, farmácia, mercado… quatro, cinco… humm… Oito! Sim. Foram oito pessoas… Quem terá me dado esse “sopro” amaldiçoado? Não adianta ficar parado no espelho encarando o estrago… Não adianta chorar. Não. E nem adianta pensar sobre merecimento ou não merecimento, também não. Minha orelha esquerda se foi.
Está lá fora no lixo. Primeiro ela ficou vermelha, coçando como uma alergia imparável… depois foi ficando amarela, inchada... até que virou uma bola inflamada de pus com um buraco. Uma espinha do tamanho de uma mão. Não eu não gritei, não pedi ajuda… Se é uma maldição, então não adianta… Sopraram ela em mim e pode ter sido qualquer uma dessas oito pessoas. Não importa se foi gentil, grosseiro… ou quem falou menos ou mais.
Foi algo maligno que já vinha preparada, de dentro, escondida, apodrecendo e se enchendo de mágoas… rancores… "invejas brancas", pretas e até mesmos as invejas verdes que são raras, não crescem em qualquer lugar. Joguei a cartilagem num saquinho junto à pasta marrom de carne apodrecida no lixo lá fora. Revesti o saco com jornais e muitos adesivos e ainda pus numa vasilha. Não quero que um vira-lata coma minha orelha e acabe morrendo. Agora vou me deitar e ler um bom livro pois as histórias nos livros passam como um filme ou como uma áudionovela em alto e bom som em minha cabeça. Acho… que... posso estar sendo paranoico, talvez... mas, acho que em algum momento minha outra orelha também cairá. Talvez ainda hoje, ou amanhã. Ela também foi amaldiçoada eu sei... só que ela é mais resistente… insistente… e além do mais eu sou destro. É meu lado forte.