Fair e Janix estavam dormindo tapando os ouvidos… como em quase todos os dias…

 

A gente precisa denunciar.

A gente JÁ FEZ isso…

A gente precisa fazer isso DE NOVO. Até esse filho da puta parar.

O delegado disse que ele acabaria fazendo alguma coisa com a gente, ou com os NOSSOS cachorros.

Ahh… ele não é maluco.

Talvez seja…

 

Todos os dias, fizesse chuva ou fizesse sol, o homem amarrava uma corda rente ao pescoço do seu labrador e o largava na porta de casa. O cachorro chorava por toda a vida. E um cachorro não deixa de amar o dono, por pior que o dono seja… Às vezes o cara viajava por uns dias deixando-o faminto e Fair e Janix o alimentavam e o tiravam da corda. Quando ele voltava, questionava porque e como o cachorro estava solto. Elas se faziam de desentendidas. O cachorrinho tinha alguns poucos dias de felicidade, brincadeiras, boa comida, água, liberdade…

Mas quando o dono voltava, talvez por um instinto de lealdade, o cão procurava o dono balançando o rabo e latindo. Levava uma surra com a mesma corda que o amarrava. Chorava outra vez… Deitava o queixo sob as patas… quietinho. A noite chegava e o choro começava outra vez, estava garoando e o período junino se aproximava. Fogos e bombas já estavam sendo testadas estouradas de longe. Ele morria de medo. “Janix vem ver! A Serra Elétrica chegou!”. Janix correu e abriram juntas com o mesmo entusiasmo que crianças abrem grandes embalagens sabendo que ganharam uma bicicleta. “Aíí… a gente vai poder capinar TUDO amanhã.”.

No dia seguinte começaram o trabalho e em meio ao barulho alto da serra escutaram um uivo estrondoso de dor. Correram pra fora. Encontraram o cachorro com uma ferida na barriga. Era uma marca bem específica que quase todas as pessoas do mundo conhecem. Uma marca de bota. Um chute bem dado… talvez mais de um. O cachorro cuspia sangue e chorava. Janix esmurrou o portão gritando pelo homem. Ele saiu sem camisa e segurando um facão… queria intimidá-las.

 

O QUE VOCÊ FEZ FOI CRIME!! A gente tirou foto e tá indo na polícia agora.

Vai… que dia desses são os seus…

As duas estancaram os passos. Como numa coreografia programada, se viraram olhando diretamente nos olhos dele.

Você não sabe com quem tá mexendo…

Tô achando até a corda folgada… vou apertar um pouco mais.

 

O homem então apertou ainda mais a corda, o cachorro mal respirava. O sangue escorria pela boca e focinho. Ele tremia de dor. Nem mesmo chorava. Apenas tremia agonizando…

 

Fair… Ele não vai suportar essa noite.

Vamos na polícia.

 

Saíram da delegacia com aquele sentimento típico da maioria das pessoas que fazem denúncias. Um sentimento de frustração e de falta de justiça. Um sentimento de quem foi zombado. Descreditado. De que todo seu sentimento do que é certo, errado e justo, transformado em chacota por oficiais folgados que fariam de tudo pra não sair de suas cadeiras. Só saíam em casos de crimes com morte ou tentativa de assassinato entre pessoas E OLHE LÁ. Não sairiam por causa de um labrador que provavelmente não passaria daquela noite.

Andaram caladas… mudas pra dizer o certo. Olhos molhados e muita raiva. Chegaram em casa e o cachorro não estava na porta. Havia ali apenas um rastro de sangue.

No dia anterior Janix pegou a serra elétrica e disse “Então… tá animada? É talvez seja bom… pra… sei lá, esquecer.”. Fair a olhou nos olhos… e depois abaixou a cabeça e chorou. Janix a agarrou deixando a serra no chão. “Vamos deitar um pouco mais, tirar uma folga hoje…”.

 

Novamente o papo de travesseiro não conseguia se alterar para outro assunto.

 

O que será que ele fez com o cachorro?

Ele deve ter morrido… e ele enterrou. Ninguém nem vai lembrar…

Amor… Cê já parou pra pensar que…

Sim. Quer dizer… acho que sei o que você vai dizer.

A gente pode acabar com isso.

O mundo não é justo Fair. Se a gente fizer algo com ele… a polícia prende a gente. Se ele mata o cachorro… nada acontece.

Mas a gente pode fazer ele sumir… também (nesse momento Fair abriu um sorriso quase diabólico).

(que foi respondido com outro sorriso também diabólico) Você não tá falando da…

A serra elétrica. E ele desaparece… como ele fez com o cãozinho.

 

******

 

O homem se chamava Juliano. Era um eletricista famoso na cidade. Na frente dos outros falava manso e cheio de educação e moleza. Em casa, era um tirano. Dizem que espancou a mulher a quase matá-la. Hoje é um homem sozinho pois foi abandonado e os filhos também não o procuram. Não havendo mais inocentes para maltratar, ele adotou um cachorrinho chamado Sansão. Quando era filhote, disseram que seria uma mistura de pitbull com alguma outra coisa e seria uma cachorro grande e feroz. Em poucos meses Juliano viu que Sansão era um labrador brincalhão e feliz. E como todo homem mau… toda felicidade em sua volta o incomodava. Com uns seis meses… os espancamentos, chicotadas e as noites na rua começaram. Suas vizinhas chegaram quando Sansão estava com apenas três anos; já coberto de marcas de maus tratos e pouca comida.

 

[09:25]

 

Juliano ronca alto em seu quarto, não percebe que pularam o seu muro, que era baixo, mas tinham correntes. Provavelmente estava de ressaca, era domingo.

 

[10:00]

 

Fair e Janix estavam dentro da casa. Ouviram o barulho do ronco. Fizeram sinais que diziam algo como “ele está ali… bêbado que nem gambá!”, “ótimo!”…

 

 

[10:10]

 

As duas estavam de mãos dadas ao lado da cama, observando Juliano dormir e roncar como um porco. Nada o acordaria. E quando acordasse seria tarde demais…

 

[10:18]

 

Trouxeram devagar a serra e procuraram uma tomada. Estava tudo pronto. De repente aquilo ficou REAL DEMAIS… e parecia não ter mais volta. Fair levou a mão ao peito.

 

O que foi?

Eu posso ouvir meu coração…

Não dá pra voltar atrás.

Eu não quero voltar atrás.

[10:24]

 

A serra elétrica foi ligada. Juliano acordou dando um pulo da cama e recebendo o primeiro corte. A serra era muito potente. Seu braço foi quase decepado, pendurado apenas pela pele. A quantidade de sangue que jorrava inundando a cama e o quarto era cinematográfica.

Fair deu alguns passos pra trás se agachou e começou a gargalhar. Janix foi pra cima, arrancando de vez o braço e dando uma passada na perna, ele não podia correr. Mas gritava muito e pedia socorro. Eles moravam bem afastados da cidade mas havia um certo risco de serem pegas. Isso parecia deixá-las ainda mais entusiasmadas. Aquilo tudo parecia uma brincadeira… ele parecia um boteco sendo desmontado. Mas dentro de suas cabeças e memória… Elas viam Sansão agonizando e sendo homeopaticamente assassinado por anos.

 

[11:30]

 

Juliano estava morto com um golpe de serra elétrica que Fair deu em seu estômago. Era impossível suportar. Agora a tarefa das duas era cortá-lo em pedaços menores e colocá-lo num saco de lixo preto.

 

[16:56]

 

Estavam sentadas de banho tomado na varanda de casa. Bebiam cerveja e tinham fumado um baseado. Seus semblantes eram as mesmas faces de alguém que tinha ganhado na loteria há poucos dias e estava passando agora um fim de semana em Fernando de Noronha. Elas puseram suas cadeiras viradas para o lugar onde Juliano (ou melhor… os pedacinhos bem pequenos de Juliano) estavam enterrados.

 

Nossa, isso foi bom…

Revigorante… nem calor eu tô sentindo hoje.

Ele mereceu, então… nada de culpa depois né?

Quiii… Aquilo não era gente não.

 

Mô, cê já pensou se…

 

Elas se olharam sorrindo.

 

Em fazer de novo? Com outro babaca desses?

É…

Olha… Pensei viu… Pensei.

 

Henrique Britto
Enviado por Henrique Britto em 20/03/2025
Código do texto: T8290216
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.