A Máquina de Carne

A Máquina de Carne

O Dr. Ian Holloway recebeu a primeira caixa numa tarde chuvosa de outubro.

Não havia remetente. Nenhum selo postal. Apenas uma embalagem velha de madeira, com seu nome escrito à mão.

Dentro, encontrou uma fita cassete.

E um bilhete amarelado, com uma única frase:

"Não ouça sozinho."

O laboratório de Holloway estudava frequências anômalas — sons que existiam em limiares inaudíveis, capazes de influenciar a mente humana.

Ele já ouvira de tudo: o zumbido de Taos, o infrassom das cavernas de Tulum, a ressonância oculta dos anéis de Saturno. Mas quando inseriu a fita no reprodutor e pressionou "play"…

…ele sentiu o som antes de ouvi-lo.

Um ruído profundo, orgânico. Como ossos estalando sob pressão. Como carne deslizando sobre superfícies metálicas.

E então, no fundo da gravação, uma voz.

— "Nós estamos crescendo."

A segunda caixa chegou na noite seguinte.

Dessa vez, continha um dente humano, ainda preso a fragmentos de gengiva.

E outra fita.

Dessa vez, Holloway não queria ouvir.

Mas algo nele precisava.

O novo áudio começou com um som molhado, arrastado, seguido por um gemido — não de dor, mas de algo tentando aprender a falar.

E então, a mesma voz:

— "Obrigado pela sua pele."

Ele desligou o aparelho com um tremor. Suor escorria por sua nuca. Suas unhas haviam cravado na madeira da mesa.

Foi só então que percebeu a ardência em seus braços.

A pele de suas mãos estava mais fina.

Como se algo tivesse começado a puxá-la de dentro para fora.

Na terceira noite, a voz saiu do rádio, mesmo sem a fita.

Holloway estava deitado, tentando ignorar a febre que queimava seus ossos, quando o chiado da transmissão encheu seu apartamento.

— "Agora você entende.

Agora você escuta."

Ele se arrastou até o espelho do banheiro, mas não reconheceu o que viu.

Sua pele estava… errada.

Flácida. Como um tecido solto sobre uma estrutura que não era mais sua.

E então ele sentiu algo dentro dele.

Algo tentando empurrar para fora.

Algo que queria nascer.

E quando ele gritou, sua voz não era mais sua.

Era a deles.

(Eduardo Andrade)
Enviado por (Eduardo Andrade) em 17/03/2025
Código do texto: T8287265
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