Os Guerreiros de Atahaan

Havia, no portão de entrada de Atahaan, estátuas de dois homens apontando seus escudos um para o outro. Era o ponto turístico principal. Vê-los à noite, porém, era uma experiência diferente.

Quando o vento passava por eles, algumas pessoas juravam ouvir lamentos, soluços e pedidos de socorro. Suas sombras na grama eram deformadas na luz da lua, como se mãos invisíveis os segurasse no lugar.

— Que coisa feia — uma turista disse, olhando o rosto do guerreiro da direita. Ele não tinha um olho, só a cavidade vazia. — Deus, eles parecem miseráveis.

O rapaz ao lado dela negou e continuou admirando a mandíbula quebrada do guerreiro da esquerda.

Logo, o contador de histórias se reuniu com os turistas e os moradores. Pais e filhos se sentaram em roda, alguns para ouvir a mesma história que ouviram um milhão de vezes.

Atahaan um dia foi vítima de uma criatura que ninguém via. Ao anoitecer, urros horríveis soavam da floresta.

Os caçadores apareciam petrificados, seus membros de pedra espalhados entre os arbustos. Em dias, os mercadores que cruzavam a estrada viraram pedra, e Atahaan fechou seus portões.

A miséria veio rápido. No inverno, quando as terras foram enterradas por neve, mães andavam com seus filhos no colo, implorando por moedas e alimento que ninguém tinha para dar.

Então os Guerreiros de Atahaan chegaram. Dois homens de uma cidade maior trajando roupas de caça, com uma espada em uma mão e um escudo reluzente como um espelho na outra. Filhos de mercadores que queriam reestabelecer a rota comercial.

— Estes são os nossos heróis — o contador de histórias disse, apontando para as estátuas desfiguradas e mutiladas.

Os pais aplaudiram, e as crianças sorriram. O contador de histórias retomou o relato.

Ambos os guerreiros entraram na floresta quando o sol caiu. Eles caminharam à luz da lua entre os pedaços das vítimas que ninguém teve coragem de buscar. O canto das cigarras se misturando com os urros.

Eles lutaram, seus corpos mutilados provam isso. Ninguém jamais viu a criatura. Só Deus sabe o que era. De uma hora para outra, ouviu-se um último grito desesperado, e então silêncio.

Na manhã seguinte, os guerreiros não voltaram.

Os moradores os encontraram na floresta, pouco fora da trilha, ambos petrificados com os olhos esbugalhados, apontando seus escudos para as árvores. Não havia mais nada, só eles.

Os levaram de volta à cidade, onde realizaram um banquete público na praça. Louvaram os heróis que morreram para salvar Atahaan. Seus corpos para sempre preservados em caixões de pedra.

— Estão chorando. — A turista cerrou os olhos tentando ver melhor.

— Não seja paranoica. — O rapaz franziu a testa, e a puxou para mais perto — são estátuas. É como aqueles quadros hiper-realistas que parecem estar chorando.

— Sim. — A mulher desviou o olhar para os próprios pés — vamos, está ficando tarde.

Meses depois disso, quando a turista já estava bem longe em outra cidade, houve outro desastre em Atahaan. As vezes tarda, mas alguns lugares são amaldiçoados, azarados, seja o que for. Aquela turista soube pelo jornal.

Houve um terremoto, a terra se abriu em uma fissura. Aconteceu do nada, sem nenhum sinal prévio. O tremor foi tão forte que as estátuas caíram de seus pedestais e se despedaçaram.

Aquela turista chamou o rapaz e pediu que ele também lesse a notícia. Ele leu apenas a manchete, “o pesadelo de Atahaan é real!”, então colocou o jornal de costas na mesa e saiu da sala.

Os urros haviam voltado. Os portões se fecharam de novo. Mas o que realmente a deixou nauseada foi o fim da matéria.

Dentro da cabeça destruída de ambas as estátuas, encontraram seus cérebros vivos e ainda pulsantes. Somente depois de quase trezentos anos, eles enfim puderam morrer.

Irene R Carrow
Enviado por Irene R Carrow em 15/03/2025
Código do texto: T8285925
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