Os Homens Quebrados

Os Homens Quebrados

O psiquiatra Dr. Álvaro Dantas sempre achou que nada mais poderia surpreendê-lo. Depois de duas décadas lidando com a mente humana, acreditava que todos os delírios eram variações de um mesmo tema: trauma, culpa, loucura. Mas então, os homens quebrados começaram a chegar.

O primeiro foi um sem-teto trazido pela polícia. Seu corpo estava ileso, mas seus ossos... estavam errados. O raio-x mostrava dobras impossíveis, como se sua estrutura interna tivesse sido remontada de forma errônea. E ainda assim, ele caminhava, falava—ou melhor, repetia, sem parar:

— "Eles olham de dentro. Eles olham de dentro. Eles olham de dentro."

No dia seguinte, um engenheiro apareceu na emergência. Seu rosto estava torto, como se alguém o tivesse desmontado e remontado às pressas. Ele chorava sem parar, mesmo quando seus olhos estavam secos.

— "O céu está rachando." — ele sussurrou, antes de arrancar os próprios dentes com os dedos.

Dr. Álvaro começou a notar um padrão. Todas as vítimas haviam dormido na mesma noite, exatamente às 03h33, e acordado erradas. Como bonecos que foram desmontados e reconstruídos por mãos que não compreendiam completamente o conceito de forma humana.

Ele precisou saber mais.

Naquela noite, Álvaro programou seu despertador para 03h32. Mas o alarme nunca tocou. Ele despertou apenas quando sentiu a presença.

Havia algo no quarto. Não podia ser visto, mas era sentido—como uma sombra atrás dos olhos, como um som que não se escuta, mas se sabe que está lá. Seu corpo endureceu, como se dedos invisíveis corressem por sua pele, avaliando sua anatomia com um interesse cirúrgico.

E então, ele entendeu.

Algo estava nos observando, mas não do espaço. Do outro lado da forma. Um plano onde a realidade não era fixa, onde os conceitos de "acima" e "dentro" eram apenas sugestões maleáveis. Essas criaturas tentavam nos imitar, reconstruindo corpos humanos do zero todas as noites, cada vez errando um pouco mais.

Ele tentou gritar, mas seus pulmões não obedeceram. Ele tentou correr, mas suas pernas já não estavam no mesmo lugar onde ele lembrava que estavam.

Na manhã seguinte, seus colegas encontraram Álvaro sentado na poltrona do consultório, um sorriso quebrado no rosto.

Seus braços estavam dobrados para trás como se fossem de borracha.

Seus olhos estavam onde antes estavam suas bochechas.

E quando tentaram falar com ele, ele apenas murmurou:

— "Eles ainda não acertaram."

(Eduardo Andrade)
Enviado por (Eduardo Andrade) em 13/03/2025
Código do texto: T8284094
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