🔥 Nos Portões do Inferno #1 - O Livro Oculto #1 📓
🔥Prólogo🔥
📓O Livro Oculto #1📓
Quando Raiane montou seu próprio negócio, queria que o empreendimento se chamasse Antiquário Cartago, assim como seu sobrenome. De fato, era isso que constava no registro, mas do lado de fora da sala que alugara em um bairro na periferia de Cuiabá lia-se, em uma placa rústica encimando a porta: Pregão da Raiane.
Alguns conhecidos questionaram o motivo que a fez optar em não manter o nome original e sua resposta fora que pregão combinava mais com a quebrada do que antiquário. Outros chegaram até a insistir para que ela mudasse o empreendimento para a região central, pois assim poderia manter o nome mais adequado ao negócio. Mas a questão era que Raiane gostava da periferia, sentia que ali a vida da cidade pulsava, a despeito de todos os seus problemas, com toda a sua crueza em meio a becos e histórias que muitos ignoravam.
Raiane costumava manter as portas abertas até tarde, visto que era também o horário em que a maioria das pessoas costumavam ter disposição para trocar e vender coisas. Em uma dessas noites estava entretida e intrigada lendo uma reportagem sobre várias bibliotecas incendiadas por todo o país quando a sineta sobre a porta tocou indicando a entrada de alguém. Raiane desviou os olhos do computador e viu algo que não combinava com o ambiente bagunçado de seu antiquário: um homem alto e grisalho, olhos azuis-claros, trajando um terno de linho branco, vindo em sua direção. Para completar a discrepância, havia um Audi, também branco, estacionado em frente ao estabelecimento e a sensação de deslocamento se agravou.
— Posso ajudar? — ela indagou franzindo o sobrolho.
O homem abriu um sorriso que se limitava aos lábios, mal chegando ao olhar frio e perscrutador.
— Você é a Raiane da placa lá fora, eu suponho? — disse o homem à guisa de saudação.
— Em que posso ajudar? — Raiane insistiu, mais incisiva.
— Sei que pareço um pouco fora de contexto — disse o homem erguendo as mãos em sinal de paz em uma simpatia gritantemente encenada —, mas acontece que sou um colecionador e ando por aí atrás de preciosidades que as pessoas nem fazem ideia que possuem.
Raiane relaxou um pouco, mas manteve-se alerta.
— Que tipos de itens o senhor procura?
— Olhando lá de fora, notei que você tem alguns livros.
Algo no sorriso dele parecia vazio demais, como uma ação que tivesse sido ensaiada dezenas de vezes.
— Algum tema em específico? — inquiriu Raiane.
— Me interessam edições antigas e raras, que saem com algum erro de impressão, sabe?
— Não sei se vai ter algo assim, mas a seção de livros e revistas fica por ali — ela informou indicando o último corredor da loja.
Analisou o estranho enquanto ele se direcionava para o local indicado. O homem lhe parecia familiar, recordava de já ter visto seu rosto em algum lugar, talvez na televisão ou na internet. Se tivesse que chutar, diria que era algum político. Por entre os vãos das prateleiras o observou folhear alguns livros, talvez procurando o ano de edição ou alguma coisa do tipo, embora parecesse um tanto quanto desinteressado no que fazia, como se estivesse ali por outro motivo.
Foi então que se lembrou: durante a tarde um rapaz passara por ali com uma espécie de diário antigo para vender. Estava sob o balcão, pensava em analisá-lo com calma outro dia. Apanhou-o e o folheou. Parecia um caderno de rascunhos, cheio de anotações, símbolos que lembravam alguma forma de criptografia e desenhos aleatórios feitos à mão.
Seria coincidência aquele estranho ter aparecido ali com aquele papo sobre edições raras?
Olhou para a seção de livros e sobressaltou-se. O homem estava agachado, observando-a entre os vãos das prateleiras. Por instinto, jogou o diário de volta para baixo do balcão e agarrou um bastão de madeira que deixava sempre ao alcance.
O homem levantou-se demoradamente com um sorriso estranho no rosto.
— O que você tem aí, Raiane? — o estranho inquiriu aproximando-se lentamente. Raiane sentiu o corpo todo retesar em alerta. Tinha alguma coisa naquele diário, o estranho o queria e era imperativo que ela não o entregasse. Se não estivesse tão negligente em suas práticas teria percebido o perigo de imediato.
Teria que improvisar!
— É só o meu livro-caixa — mentiu odiando o tremor incontrolável que acompanhou a sua voz.
— Posso ver? — pediu o estranho em um tom que parecia mais uma ordem.
— É claro que não! — retrucou Raiane.
O homem a encarou com aquele olhar estranho e frio por alguns segundos como se estivesse avaliando as suas reações. Subitamente inclinou-se sobre o balcão, mas Raiane foi mais rápida, afastou-se a tempo, o diário em uma mão e o bastão oculto na outra, atrás das costas. Uma máscara de fúria cobriu o semblante do desconhecido e, com uma agilidade inesperada, ele saltou sobre o balcão. Em um movimento automático, Raiane desferiu um golpe com o bastão contra o rosto dele. Seu olho esquerdo saltou, quicando no chão desaparecendo debaixo das prateleiras.
—Um olho de vidro? — murmurou Raiane, incrédula.
Pelo menos aquilo explicava o olhar estranho.
Antes que tivesse tempo para qualquer outra ação, o desconhecido se recuperou e a agarrou pelo pescoço. Raiane sentiu o corpo elevar-se do chão. Sem conseguir respirar, acabou soltando o diário e o bastão para lutar contra o aperto.
Já quase sem sentidos, percebeu que era largada. Caiu de borco, recuperando o fôlego a tempo de ver o homem agarrar o diário e saltar de volta sobre o balcão e sair apressado em direção à porta.
Respirando com sofreguidão, catou as chaves do seu Celta em uma das gavetas e correu para fora a tempo de ver o Audi partindo. Entrou no Celta rezando para que ele obedecesse ao primeiro comando.
Suas preces foram atendidas!
Rapidamente ganhou velocidade. O Audi se distanciava na direção da saída do bairro. Em breve o estranho chegaria à avenida principal e desapareceria para o centro.
Mas Raiane conhecia um atalho. Dobrou em uma bifurcação para o bairro vizinho. Uma linha reta se estendeu à sua frente. Quanto mais afundava o acelerador, mais o Celta trepidava. Em poucos instantes chegou à saída para a avenida principal e, por pouco, quase interceptou o Audi. O carro cortou à sua frente diminuindo um pouco a velocidade para fazer a curva. Se o Celta aguentasse, pelo menos não perderia o estranho de vista. Nunca pensou que fosse agradecer ao governo pelas péssimas condições do asfalto, mas desta vez, isso estava a seu favor.
Como esperado, o estranho adentrou a Avenida das Torres e, por um bom tempo, ela conseguiu seguir o Audi até ele rumar em direção ao Boa Esperança, o labiríntico bairro adjacente à Universidade Federal. Embora tivesse passado bons anos de sua vida na faculdade, sempre se perdia ali dentro. Rodou por vários minutos. Furiosa e já sem esperanças de encontrar o desconhecido, guiou o carro em direção à rodovia federal que cortava a cidade. Para sua surpresa, localizou o Audi parado na subida do viaduto em frente à Universidade. Estacionou logo atrás e desembarcou. Cautelosamente caminhou até a janela do estranho.
O desconhecido estava atrás do volante e parecia sofrer terríveis dores a julgar pelos esgares que se manifestavam em seu rosto. Raiane olhou à sua volta e compreendeu: logo abaixo do viaduto, no exato ponto onde o Audi parara, havia um lugar ocupado por pessoas em situação de rua onde, certa vez, ela pintara um sigilo. Um trabalho de exorcismo e proteção para aqueles que viviam sem amparo.
— Ora! Demônio, então? — disse ela com um sorriso no rosto. — Isso facilita as coisas.
O homem atrás do volante a encarou com seu único olho, agora não mais azul, mas completamente em um tom vermelho escuro quase tinto. O olhar transmitia um profundo rancor e Raiane agradeceu pelo sigilo sob o viaduto ainda estar funcionando. Caminhou de volta até o Celta. Abriu o porta-malas e pegou sua chave de rodas. Mais uma vasculhada pelo interior do veículo e encontrou uma garrafa d'agua mineral com o conteúdo pela metade.
Teria que ser o suficiente!
Voltou até a janela do Audi. Esperou que outro carro passasse e a rua ficasse deserta novamente. Fez sinal para que o possuído baixasse o vidro, mas ele limitou-se a encará-la. Sem paciência, Raiane desferiu um golpe com a chave de roda contra a janela. O vidro estilhaçou, mas não caiu, seguro pela película de segurança. Raiane golpeou mais uma vez, a chave de roda atravessou o vidro e ela o forçou para que se soltasse caindo no asfalto.
— Me diz o que tem aí nesse diário?
— Você vai se arrepender, bruxa!
— Queria ganhar um real toda vez que me dizem isso — zombou Raiane sentindo uma certa sensação de diversão.
— Continue sendo irônica. Eu vou gostar de brincar com você.
— Blá, blá, blá — bufou Raiane. — Já vi que não vai ter papo, né?
O demônio apenas a encarou furioso.
Ela soltou a chave de roda no asfalto e mexeu em uma pulseira de berloques que trazia no pulso esquerdo decidindo qual pingente usar. Ficou em dúvida entre a medalhinha de São Bento e a phurba. Encarou o demônio. Receosa de estar lidando com uma entidade que não se limitasse ao plano cristão, optou pela phurba, afinal, era melhor garantir que a coisa funcionasse do que ter que improvisar ainda mais. Arrancou o pingente da pulseira, jogou-o dentro da garrafa d'água e a agitou enquanto murmurava um encantamento em diversas línguas ancestrais.
— Última chance, amigo.
— Vai se fo...
Antes que o demônio terminasse de praguejar, Raiane socou com força a garrafa na boca dele. Pego de surpresa, o possuído engoliu boa quantidade da água encantada.
— Tá na hora de descer, escroto! — disse Raiane afastando-se enquanto observava uma pasta do mesmo tom dos olhos do demônio escorrer da boca do possuído que se contorcia em dor. Logo, a substância escorreu também pelas narinas e ouvidos. Homem e demônio berravam com a dor do exorcismo improvisado, mas eficiente, produzindo uma dupla vocalização. A substância escorreu pelo vão da porta do veículo para em seguida cair no asfalto e desaparecer, certamente o sigilo ainda ativo logo abaixo a atraia e drenava.
O homem dentro do carro soltou um último gemido de dor e pendeu para a frente. Sua cabeça bateu no volante e ali ficou apoiada. Raiane aproximou-se e tocou em seu pescoço. Havia pulsação.
Um outro veículo subiu o viaduto e passou próximo a ela sem dar importância para o que ocorria ali. Sem se delongar mais, localizou o diário no banco detrás. Inclinou-se sobre as costas do homem, pegou o artefato e voltou rapidamente para o Celta.
Continua... 📖