As Trevas Entre os Pixels
As Trevas Entre os Pixels
Quando Gustavo comprou aquele monitor ultrapanorâmico de última geração, não esperava nada além de cores vibrantes e resolução absurda. Trabalhava como editor de vídeos e, para ele, tecnologia era apenas ferramenta. Mas havia algo estranho naquela tela.
Nos primeiros dias, não notou nada além de um leve incômodo nos olhos. Uma sensação de que algo estava “errado” nas bordas da imagem, como se os pixels não respondessem da maneira esperada. À noite, enquanto editava, percebia manchas negras transitando pelos cantos, sumindo sempre que olhava diretamente.
Uma terça-feira, o erro se tornou evidente.
Ele estava revisando um projeto quando a tela congelou por um segundo. Depois, piscou e voltou ao normal. Mas agora, no reflexo do vídeo que editava, havia algo mais.
Uma silhueta.
Gustavo pausou o vídeo. Voltou quadro a quadro. A silhueta ainda estava lá.
Ficava atrás dele.
Ele virou-se de imediato, o coração martelando. Nada. Apenas seu apartamento vazio.
O monitor piscou de novo. Dessa vez, a tela ficou preta por mais tempo. Quando voltou ao normal, todas as cores estavam… erradas. Os tons estavam deslocados, como se o espaço na tela fosse mais fundo do que deveria.
E então o vídeo avançou sozinho.
Quadros que ele não havia gravado começaram a aparecer.
Mostravam seu apartamento visto de um ângulo impossível — como se alguém estivesse dentro da própria tela, olhando para fora.
O reflexo na tela mostrava Gustavo sentado, exatamente como estava agora. Mas, atrás dele, a silhueta escura não era mais uma sombra distante.
Estava mais próxima.
Muito próxima.
A tela piscou.
Por uma fração de segundo, Gustavo viu uma sala que não era a sua. Uma sala idêntica, mas sem móveis. Apenas um vasto vazio pixelado, estendendo-se além da compreensão.
E então ele ouviu.
Não pelo monitor, mas dentro da própria mente.
“Você está me vendo. Agora, eu também vejo você.”
O monitor desligou abruptamente.
Gustavo ficou ali, paralisado, sentindo algo frio às suas costas. Algo sem forma definida, mas com intenções claras.
O computador nunca mais ligou.
Mas, às vezes, quando a tela de outro aparelho reflete o escuro do apartamento, ele vê um segundo reflexo atrás do seu.
Algo esperando.
Algo assistindo.
E cada vez mais próximo.