Último Relato de Takashi: O Canto da Gueixa

 

 

"Descobri a verdade. E agora, a verdade vem me buscar."

 

Takashi sempre buscou a verdade. Seu nome estava atrelado às reportagens mais sombrias do Japão, investigando templos amaldiçoados, túneis assombrados e desaparecimentos inexplicáveis. Mas este caso era diferente.

 

Ele ouviu pela primeira vez sobre o okiya amaldiçoado de Kyoto através de um informante. O local, há muito tempo fechado, era evitado pelos moradores. Diziam que, à meia-noite, um canto fúnebre ecoava pelas ruas estreitas, trazendo consigo um chamado inevitável para a morte.

 

Aqueles que ouviam a melodia não passavam muito tempo vivo.

 

Os poucos registros indicavam que o okiya pertenceu a uma mulher chamada Akane, uma gueixa lendária, conhecida por sua voz capaz de fazer qualquer um chorar. Mas sua vida foi interrompida de forma trágica. Alguns diziam que ela foi assassinada, outros acreditavam que se matou por amor. O que ninguém contestava era que seu espírito ainda estava lá, cantando sua tristeza para os vivos.

 

Takashi não resistiu.

 

Ele sabia que essa seria a maior descoberta de sua carreira. E talvez... a última.

 

 

 

Chegar ao okiya foi fácil. Difícil foi convencer alguém a falar sobre ele.

 

Os moradores de Kyoto fechavam as portas ao ouvir o nome "Akane". Alguns tremiam, faziam gestos de proteção. Um  dono de izakaya alertou:

 

— Ela canta para aqueles que estão prontos para partir. Se você ouvir... não há escapatória.

 

Mas Takashi estava irredutível. Ele acreditava em padrões, em psicologia, em lendas que poderiam ser explicadas. 

 

Naquela noite, armado com sua câmera e um gravador de áudio, ele entrou no okiya proibido.

 

O tempo devorou o lugar. As paredes eram um esqueleto de madeira apodrecida, os tatames estavam cobertos de poeira e mofo. Mas algo ainda parecia vivo ali.

 

E então ele ouviu.

 

De algum ponto da casa, um som suave de shamisen começou a tocar. Uma melodia triste, hipnótica. E logo veio a voz.

 

Uma mulher cantava, seu tom carregado de dor, como se estivesse chorando em cada nota. A língua era antiga, palavras murmuradas em um dialeto que Takashi mal reconhecia.

 

O som era irreal, como se não estivesse exatamente ali... mas dentro dele.

 

Ele seguiu o canto.

 

 

No centro do okiya, um espelho antigo ainda permanecia de pé. Sua superfície estava manchada, opaca, coberta por rachaduras finas.

 

A música vinha de lá.

 

Takashi se aproximou, o gravador tremendo em sua mão. Seu próprio reflexo parecia distorcido, as sombras do cômodo se moviam de maneira errada.

 

Então, ele viu.

 

Atrás dele, uma figura vestida em um quimono branco, o rosto coberto por uma máscara pálida. A silhueta de Akane estava ali, imóvel. Mas quando ele se virou...

 

Nada.

 

O canto, no entanto, continuava.

 

Seu coração disparou. Ele tentou sair, mas suas pernas estavam pesadas, como se o ar tivesse ficado denso. O canto agora estava em sua cabeça, ecoando como se sua própria mente estivesse cantando junto.

 

Então a voz sussurrou.

 

— Você veio me ouvir... agora, cante comigo.

 

O gravador caiu no chão.

 

 

Takashi saiu do okiya naquela noite, mas não voltou para casa sozinho.

 

Nos dias seguintes, ele ainda ouvia a melodia. Não importava onde estivesse—no metrô, no quarto do hotel, no silêncio da madrugada.

 

No segundo dia, ele começou a ver reflexos estranhos no espelho. A silhueta branca de Akane surgia nos cantos da imagem, imóvel, observando.

 

No terceiro dia, ele parou de dormir. Quando fechava os olhos, estava de volta ao okiya, e Akane estava mais próxima.

 

No quarto dia, ele ouviu a música vindo de dentro dele.

 

No quinto dia, Takashi percebeu que seu reflexo não o acompanhava mais.

 

No sexto dia, ele ouviu a própria voz cantando quando abriu a boca.

 

No sétimo dia...Ele desapareceu.

 

 

Um mês depois, um turista encontrou um gravador abandonado perto do okiya. A fita dentro ainda funcionava.

 

Ao reproduzir o áudio, ouve-se a voz de Takashi, trêmula, tentando narrar suas últimas palavras.

 

Mas, ao fundo, há outra voz.

 

Uma mulher canta baixinho, cada palavra carregada de um tom lento, hipnótico, inevitável.

 

A gravação termina abruptamente, com o som de Takashi arfando e um sussurro final.

 

— Agora... você me escutou também.

 

 

 

FIM.

 

Cavaleiro Menestrel
Enviado por Cavaleiro Menestrel em 04/03/2025
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