A Maldição do Fuillead — CLTS 30
Era o ano de 1345, e as terras celtas estavam mergulhadas em um silêncio mortal. Vilas que outrora eram prósperas agora estavam desertas, tomadas por cadáveres empilhados e casas desmoronadas. O governo, desesperado, havia ordenado uma migração forçada. A única solução para conter a peste negra que devastava o povo era embarcar nos navios que, como o Fuillead, partiam em direção ao desconhecido. Trezentas almas apressadas a bordo, cada uma marcada pela fome, pela doença ou pela perda.
Bran, um ex-soldado que já não acreditava mais em esperança, observava o horizonte com olhos cansados. Ao seu lado, Caelan, o velho druida, sussurrava palavras em uma língua antiga, seus olhos fixos nas sombras que pareciam dançar no convés.
— Eles estão entre nós, — murmurou Caelan, mas ninguém lhe deu ouvidos. Afinal, quem acreditaria em espíritos das trevas quando a realidade já era um pesadelo tão grande?
Na primeira noite, a bordo, um alívio se espalhou entre os passageiros. O navio, embora velho e rangente, parecia um refúgio da destruição que haviam deixado para trás. A luz das tochas iluminava o convés, e as melodias dos instrumentos simples se misturavam ao murmúrio das vozes, criando uma atmosfera de celebração. As crianças corriam de um lado para o outro, as mulheres preparavam as últimas refeições decentes que ainda possuíam, e os homens bebiam, rindo, tentando esquecer as sombras que os seguiam.
A comida era escassa, mas a alegria parecia genuína. A sensação de humanidade compartilhada preenchia o ar. O medo da morte ainda estava distante, como uma sombra que ninguém queria encarar. Então, todos se permitiram momentos de felicidade, como se o futuro não fosse mais do que uma memória distante.
No entanto, naquela mesma noite, a primeira morte aconteceu. Brenna, uma jovem de cabelos dourados, foi encontrada no porão, seu corpo frágil e esquelético, coberto por inchaços negros e purulentos. O grito da mãe ecoou pelo convés, interrompendo a música e o riso. Todos se viraram para o centro do navio, onde o corpo de Brenna jazia. Seus olhos, outrora brilhantes, agora estavam opacos e vazios. O cheiro doce e nauseante da morte se espalhou pelo ar, e os passageiros foram tomados por um pânico crescente.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelos sussurros assustados e pelo som das ondas batendo contra o casco do navio. A atmosfera festiva desapareceu, substituída por uma tensão palpável. Alguns começaram a recuar, outros a murmurar orações, mas todos sabiam: a morte, que até então parecia distante, agora havia pisado a bordo.
Caelan se aproximou do corpo de Brenna com uma expressão grave. Ele tocou sua testa com uma mão trêmula e fechou os olhos por um momento, como se estivesse tentando compreender o que acontecera.
— Ela não morreu de fome ou fraqueza, — disse ele em voz baixa, mas firme. — Ela foi levada por algo... algo que nos consome.
Bran estava ao seu lado, com um olhar cético, mas algo dentro dele, uma sensação incômoda, começava a crescer. A morte de Brenna não parecia natural. Era diferente.
— Isso não é possível, — Bran murmurou, balançando a cabeça. — Não há espírito ou maldição que faça isso. Isso é doença. Devemos estar lidando com uma peste.
Caelan olhou para ele com uma expressão sombria.
— Eu já passei por isso antes, meu amigo. Eu já estive neste navio, há muitos anos, e vi as mesmas mortes acontecerem. Eles estão aqui. Eles não são lendas, não são mitos. Eles são uma maldição que nos consome, e agora... agora eu tento mudar a história.
Bran franziu a testa, tentando entender.
— Você já esteve neste navio? Então você sabe o que vai acontecer?
— Eu sei, — respondeu Caelan, com um sorriso triste. — E é por isso que vou tentar impedir. Cada vez que isso acontece, o resultado é o mesmo. Mas talvez, apenas talvez, se eu mudar o que faço... podemos escapar. Podemos escapar da morte.
Naquela noite, o terror tomou conta do navio. O Fuillead, que antes fora um símbolo de resistência, agora parecia um refúgio de desespero. O capitão Cian, que até então se mantivera calmo, começou a demonstrar sinais de preocupação. Ele sabia que a morte a bordo não podia ser ignorada, e em seu íntimo, sentia que algo muito pior estava por vir.
Com o passar dos dias, as mortes começaram a se multiplicar. A cada amanhecer, os corpos eram encontrados nas mais variadas partes do navio: no convés, nas cabines, até mesmo no porão. A rapidez com que as pessoas morriam não parecia natural. Seus corpos apodreciam rapidamente, e as expressões deformadas refletiam um sofrimento que não deveria ser possível em corpos tão jovens. Cada novo corpo parecia consumir uma parte da alma dos outros, devorando a esperança do grupo.
Caelan tentava, com todas as suas forças, alertar o capitão.
— Nós não podemos continuar assim! A praga está se espalhando. O mal não é uma maldição que vem do além, é uma doença. A Peste Negra chegou até nós.
Mas o capitão Cian, com um semblante preocupado, ignorou as advertências de Caelan. Ele tentava desesperadamente acelerar a viagem, temendo que o mal que tomava conta de sua tripulação fosse uma praga trazida pelos próprios passageiros. O Fuillead foi deixado à deriva, enquanto o capitão tentava evitar um contágio maior. Mas à medida que as mortes aumentavam, o desespero também aumentava. Mais mortes, mais desaparecimentos. O medo se espalhou como fogo em uma floresta seca.
Bran, observando tudo ao seu redor, começou a sentir os primeiros sinais da doença. Uma dor leve na cabeça, seguida de uma febre crescente, fazia-o se questionar se ele também não seria a próxima vítima. O medo tomava conta dele de uma forma que ele não conseguia controlar. Ele sabia que o mal não estava mais em lendas antigas ou em espíritos das sombras. Ele estava ali, à vista de todos, escondido sob a pele de cada um dos que estavam a bordo.
As semanas se passaram, e o Fuillead, com sua madeira rangente e frágil, parecia se deteriorar a cada dia. A sensação de desolação tomou conta do navio. Os passageiros, já enfraquecidos, lutavam contra a fome, a doença e a própria desesperança. As mães seguravam seus filhos nos braços, tentando mantê-los afastados das mortes que se espalhavam pelo navio, mas não podiam evitar o pânico que se espalhava como uma doença invisível. Alguns gritavam em desespero, questionando por que haviam sido escolhidos para esta jornada amaldiçoada, enquanto outros caíam de joelhos, rezando por uma salvação que nunca viria.
Caelan, embora visivelmente abalado pela situação, continuava a observar os céus e as estrelas com uma intensidade assustadora.
— A noite está muito mais fria do que deveria ser. Isso não é normal, — disse ele, com voz baixa, quase como se estivesse falando consigo mesmo. — A peste não apenas mata os corpos. Ela nos faz sentir o peso da morte em tudo ao nosso redor.
Bran, cada vez mais debilitado, tentava manter a sanidade. Ele sabia que a peste estava levando todos, um por um, e que seu destino não seria diferente. Mas em meio a tanto sofrimento, algo parecia mudar. Ele sentia uma estranha sensação de presença. Como se algo o observasse, algo além da morte. Um frio inexplicável tomava conta dele, e o sussurro de Caelan se tornava mais intenso.
— Bran... você percebe, não percebe? — Caelan sussurrou, seus olhos fixos no horizonte. — Eu... eu sou o que os mantém vivos agora. Sou o espírito do Fuillead, aquele que sempre esteve a bordo. E isso... — ele se virou para Bran — isso é o fim.
Bran olhou para ele com um semblante de espanto, percebendo pela primeira vez que Caelan não era mais apenas um druida. Ele era algo mais, algo além da morte, algo que estava preso ao Fuillead, assim como todos os outros.
As semanas se passaram, e a sensação de pavor só aumentava. O Fuillead se tornava cada vez mais uma prisão, onde os sobreviventes vagavam como sombras de si mesmos, com os corpos fracos e os corações vazios. Caelan, embora enfraquecido, ainda tentava manter a esperança. Mas a verdade era clara: a peste não os deixaria escapar. E agora, tudo o que restava era assistir à destruição gradual de suas almas.
Na manhã seguinte, o navio estava em ruínas. O Fuillead, que antes fora um símbolo de força, agora parecia um cascarão de madeira desmoronando ao sabor das ondas. Os poucos sobreviventes estavam fracos, com a pele marcada por manchas negras, os olhos vazios e as expressões deformadas. O ar estava impregnado com o cheiro doce e fétido da morte, e as vozes haviam se calado. Apenas o som das ondas e o estalo das tábuas podiam ser ouvidos.
Bran, o último sobrevivente, estava no convés, observando o horizonte vazio, enquanto sentia o peso da doença tomando conta de seu corpo. Ele sentia que a peste já o havia alcançado, e a morte estava próxima. Mas, naquele momento, ele finalmente compreendeu. As mortes não haviam sido causadas por espíritos, nem por maldições, mas por algo muito mais tangível e muito mais mortal: a Peste Negra. As terras celtas, devastadas pela doença, agora estavam a ponto de engolir o último vestígio de humanidade. O Fuillead afundava lentamente, e Bran, com um último suspiro, murmurou:
— Nós éramos os fantasmas...
Caelan, observando tudo, sorriu tristemente, sabendo que seu destino estava selado. Ele já havia vivido essa tragédia muitas vezes antes. Mas talvez, nessa última viagem, ele finalmente conseguisse quebrar a maldição que o havia prendido a este navio.
E assim, o Fuillead afundou no abismo do oceano, levando consigo os últimos suspiros de uma humanidade que havia sido engolida pela peste e pela morte.
Tema: PRAGA