A SEMENTE DO FIM - CLTS 30

No começo, era apenas um sussurro. Um caso isolado aqui, outro acolá. Uma febre que não cedia, uma tosse áspera no meio da noite.

Os médicos davam nomes complicados, os jornais minimizavam, e as autoridades garantiam que tudo estava sob controle. Mas então vieram os desaparecimentos. Os vizinhos que adoeciam e jamais voltavam. O cheiro podre que pairava no ar, impregnando as ruas, os lençóis, as paredes.

E então, veio o silêncio...

As cidades antes vibrantes tornaram-se necrópoles. Os moradores trancavam-se em suas casas, espreitando pelas frestas das janelas, temendo os gemidos que ecoavam na escuridão. Algo mais do que a doença caminhava entre os mortos... algo que ainda tinha fome.

Após os sussurros leves, vieram os gritos. Não era um som humano, mas algo que se movia entre as folhas secas, que se arrastava pelos campos como um segredo carregado pelo vento. No início, ninguém percebeu. Pequenos animais terrestres apareciam mortos, os olhos enegrecidos, os corpos inchados de um líquido espesso e pútrido. Depois vieram os pássaros, caindo dos céus como frutos podres. E então, os primeiros humanos adoeceram, com gemidos que pareciam ecos distantes de algo muito mais profundo.

O primeiro caso registrado foi de uma agricultora solitária que vivia nos arredores da vila. Seu marido ao voltar da cidade encontrou-a na cama, os olhos opacos e as veias retorcidas como raízes de uma árvore morta. Ao tentar movê-la, percebeu que algo escorria de sua boca, um líquido negro e espesso. O cheiro era nauseante, uma mistura de terra molhada e carne apodrecida. Antes que pudesse reagir, ela sussurrou palavras incompreensíveis e sua pele começou a se partir, revelando pequenas fibras enegrecidas que se espalhavam por seu corpo. Ele fugiu em desespero, mas no dia seguinte, foi encontrado na praça da cidade, os olhos vazios e o peito aberto como se algo houvesse crescido de dentro para fora. Uma mulher que passava desmaiou ao ver seu rosto retorcido num grito sem som, sua língua transformada numa raiz enegrecida que se estendia para fora da boca.

O horror não vinha apenas da morte, mas da lentidão inevitável com que ela se instalava.

O terror absoluto de sentir algo crescendo sob a pele, uma consciência alheia dentro do próprio corpo. Os infectados não gritavam, não imploravam por ajuda, eles sussurravam. E a noite, os que ainda estavam saudáveis acordavam suando frio, ouvindo esses murmúrios rastejando entre as paredes, dentro de suas próprias cabeças.

A contaminação se espalhava de forma insidiosa. Primeiro, uma coceira na pele. Depois, rachaduras finas como cicatrizes antigas. E então, a raiz se aprofundava. A ciência falhou em compreendê-la. Médicos, estudiosos, religiosos...todos foram reduzidos ao silêncio. Os infectados não morriam como vítimas de uma doença. Eles morriam como oferendas.

Os corpos não apodreciam, eles se tornavam parte da terra, seus dedos se transformando em galhos finos, seus olhos se afundando no próprio crânio até nada restar além de buracos negros e famintos.

O governo cercou a região. Ninguém entrava, ninguém saía. Mas o vento não obedece a barreiras. Os sussurros cruzavam as cercas. Aqueles que tentavam fugir eram encontrados ajoelhados no chão, encarando o céu com olhos vazios e o corpo enraizado ao solo. Havia quem jurasse que as sombras deles ainda se moviam mesmo quando seus corpos estavam imóveis. Era como se algo os chamasse de volta. Como se a terra estivesse reclamando sua posse.

A origem:

Uma fazenda isolada, esquecida pelo tempo. No centro dela, um campo de trigo negro, que se balançava mesmo quando não havia vento. Os primeiros a chegarem lá foram soldados, protegidos por máscaras e roupas seladas. Nenhum deles voltou. Apenas transmissões de rádio foram captadas, repletas de sussurros e gritos abafados. Os que ouviam os áudios relataram sentir algo rastejando atrás de si, mesmo sabendo que estavam sozinhos.

Entre os soldados estava o capitão Elias, um homem pragmático que não acreditava em superstições. Mas a lógica falhou diante do que viu. Ele e sua equipe avançaram pela plantação, e em minutos começaram a sentir algo rastejando sob suas roupas. Um soldado gritou, silenciou e sussurrou após arrancar o capacete e cair no chão, convulsionando.

Suas veias incharam rapidamente, e seus olhos foram cobertos por uma película negra. Em menos de um minuto, sua pele se rompeu, e brotos escuros cresceram de dentro de seu peito. Elias tentou puxá-lo, mas percebeu tarde demais que suas luvas derretiam e as próprias mãos estavam ficando escuras. O sangue que escorria de seus dedos era espesso como seiva, pulsando com algo que não lhe pertencia. A médica da equipe, Dra. Helena, tentou conter o avanço da infecção. Ela viera para a missão após perder o marido para a praga na cidade vizinha. Movida pelo desespero de entender o que estava acontecendo, aplicou morfina no capitão, mas já era tarde demais. Em instantes, ele começou a rir de forma distorcida, até sua voz se tornar um sussurro ininteligível. Seu corpo contorceu-se em espasmos, os olhos de Elias estavam começando a escurecer, pequenos fios negros serpenteando sob sua pele e, por fim, uma raiz negra rompeu sua garganta. Helena foi a única a escapar da plantação, mas sabia que estava condenada. Apenas ajoelhou e aguardou o destino. A vida humana a abandonou.

O último som que se ouviu foi uma única frase, repetida até que a transmissão cessasse:

“A terra tem fome.”

O Segredo Sob o Solo:

Todas as cidades ao redor foram isoladas, muitas pessoas foram deixadas para trás, qualquer risco de contaminação era bloqueado por fronteiras de militares que se instalaram a mais de mil quilômetros do centro de tudo. Parecia que esse limite era o suficiente para que o vento não levasse o mal.

A notícia se espalhou rapidamente pelo resto do mundo, grandes nações enviaram o que tinham de melhor em termos de profissionais e equipamentos. Os melhores e mais graduados cientistas foram ao local onde tudo acontecia. Liderados pelo cientista-chefe, Antunes da Mata. Considerado o melhor entre os melhores.

Os cientistas avançaram com cautela, roupas foram elaboradas para que houvesse uma proteção total do mundo exterior, não bastava apenas o isolamento, era necessário que houvesse um ponto final para essa praga. Descobriram que o trigo negro não era trigo comum, nem planta alguma que conhecessem. Suas raízes eram longas demais, aprofundando-se a metros de distância. Analisando o solo, encontraram algo enterrado há muito tempo, algo que não deveria estar ali.

Uma caixa. Feita de um material que não se desfazia, não oxidava. Dentro dela, algo parecido com uma semente, pulsante e viva.

O mais assustador era que a camada de sedimentos indicava que o objeto estava ali há mais de duzentos mil anos, muito antes da primeira cidade, da primeira palavra escrita, antes mesmo do fogo ser dominado pelo homem. Alguém, ou algo, o havia colocado ali. Alguém tentara selá-la. Mas falhara.

O cientista-chefe segurou o artefato entre as mãos, sentindo um calor estranho atravessar suas luvas. E então ouviu. Não com os ouvidos, mas dentro da própria mente. Um chamado. Uma verdade sufocante, enterrada por milênios.

Antunes, não era um homem facilmente impressionável. Desde jovem, fascinava-se pelo desconhecido. Mas, naquele momento, diante daquela semente pulsante, soube que estava diante de algo além da compreensão humana. Algo que não

deveria ser tocado. Algo que não deveria ser visto. De imediato, soldados que cercavam a plantação começara a cair. Eles vestiam os mesmos trajes selados, capacetes reforçados, luvas presas por múltiplas camadas. Mas

nada disso foi suficiente.

O cientista-chefe assistiu, impotente, enquanto o soldado à sua esquerda soltava um grito sufocado. Seu corpo convulsionava dentro do traje. As luvas estufaram, como se algo rastejasse sob sua pele. Ele tentou arrancá-las, mas quando o fez, sua carne veio junto, se desfazendo em tiras negras e viscosas.

Os gritos aumentaram. Outro soldado caiu de joelhos, segurando o próprio estômago. Seu visor estava embaçado pelo sangue que jorrava de seu nariz e boca, formando padrões grotescos no vidro. Ele estremeceu uma última vez antes de seu capacete rachar por dentro. Algo crescia em sua garganta, esticando a carne até que os ossos se rompessem com um estalo úmido. Um cientista auxiliar, tremeu, sentindo um frio estranho subir por sua espinha. Seu traje estava intacto. Não havia como estar contaminado. E, no entanto, uma coceira insuportável subia por seu pescoço. Seu pulso tremia. Seu fim chegou mesmo assim.

Os sussurros recomeçaram. Vieram de todos os lados. Do trigo negro balançando sem vento.

"A terra tem fome."

O cientista-chefe tentando duvidar do que via, tentou correr, mas tropeçou em um corpo, ou no que restava dele. Uma carcaça retorcida, os ossos enegrecidos, os olhos afundados em buracos vazios. A língua, longa e fina como uma raiz, estendia-se para o solo, como se buscasse se enfiar mais fundo.

Então a terra se abriu.

Não como um terremoto, não como um colapso natural. Era uma fome viva, que puxava os corpos para dentro de si. Os soldados, os cientistas, os que ainda gritavam e os que já haviam sido tomados. O solo se movia, tragando-os, sugando-os como lama faminta. O cientista tentou segurar um dos pesquisadores que gritava, mas suas mãos afundaram no peito dele como se sua carne fosse barro. Algo dentro do corpo do homem se contorcia, se expandia. Seus olhos se voltaram para ele, mas já não eram humanos. Já não eram dele.

Ele gritou. Mas foi engolido pelo campo negro, como todos os outros.

No fim, Antunes foi o único que restou, de pé diante do campo, ouvindo o vento sussurrar palavras que ele agora compreendia. Palavras antigas, de uma língua esquecida. Palavras que não eram humanas.

Olhou para as próprias mãos. As raízes já haviam começado a crescer dentro de sua pele. E então, entendeu:

A terra tem fome e colheita nunca acaba.

Tema: Praga

Cristian Canto
Enviado por Cristian Canto em 02/03/2025
Reeditado em 03/03/2025
Código do texto: T8276340
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