A Cidade Sem Descanso
A Cidade Sem Descanso
Quando Oliver Wake chegou a Coldhaven, esperava encontrar uma vila decadente, daquelas esquecidas pelo tempo e pelas gerações. Mas, ao cruzar os limites da cidade, percebeu que algo estava errado.
Não havia cemitérios. Nenhuma lápide, nenhuma capela abandonada, nem mesmo um campo sagrado onde os antigos colonos tivessem enterrado seus mortos.
Isso, por si só, não deveria significar nada. Mas então, vieram os sussurros.
— Aqui, ninguém morre.
O primeiro a dizer isso foi o dono da pousada, um homem de rosto inchado e pele pálida demais para alguém vivo. Ele serviu o chá de Oliver com dedos azulados e unhas longas, como se sua carne tivesse esquecido de continuar sendo humana.
A frase se repetiu na mercearia, na praça, até que Oliver percebeu um padrão.
Os olhos das pessoas eram opacos, fundos, como se cada um carregasse séculos de insônia.
Eles não piscavam.
Na terceira noite, Oliver acordou com a sensação de que algo rastejava sob a cama. O vento sussurrava palavras que ele não queria entender. Quando acendeu a luz, viu que sua porta estava destrancada—mesmo que ele tivesse girado a chave três vezes antes de dormir.
E então, um ruído.
Algo **arranhava** as paredes de madeira da pousada. Algo grande, algo que não tinha pressa. Oliver tentou não respirar, mas o som se aproximou, um estalo seco, como ossos antigos se movendo dentro de algo que não deveria se mover.
A maçaneta girou.
Ele correu.
Saiu para a rua, esperando encontrar alguma forma de escapar, mas a vila estava **acordada**.
Os moradores estavam ali, parados sob a luz trêmula dos postes, observando-o. Suas bocas se moviam, mas não havia som. Seus corpos estavam errados—tortos, alongados, como se tivessem sido esquecidos pelo próprio tempo.
E então, algo dentro dele **soube**.
Eles não eram imortais. Não da forma que imaginava.
Eles **não morriam porque não havia nada esperando por eles do outro lado**.
Não havia céu, inferno, esquecimento. Apenas Coldhaven, repetindo-se eternamente, um erro na existência.
Oliver sentiu os olhos da cidade sobre ele.
E, naquela noite, ele entendeu por que ninguém nunca encontrava os corpos daqueles que desapareciam.