HILOTAS - CLTS 30
“Nunca ter nascido pode ser a maior benção de todas.”
Sófocles
1
Produtividade. A palavra tomou-o de assalto. Ribombou em sua mente, aproveitando-se da infinita escuridão. Aos poucos, a consciência se esgueirou e preencheu as lacunas com uma luz baça.
Ele abriu os olhos. Produtividade. Ergueu o punho e consultou o mostrador impresso na pele. Dez para as cinco. Hora de levantar. Passou a mão pela cabeça raspada. Impulsionou as pernas e as lançou fora da cama. Os pés tatearam o chão frio.
O estomago roncou, mas ele mal percebeu. A programação do dia já se encontrava projetada em sua íris direita. Um apanhado de letras, organizadas em palavras e sentenças que delimitavam os seus afazeres.
Os segundos se acumularam um sobre o outro antes que ele transformasse as intenções em ato concreto. Seus ombros se curvaram. Pareciam atados ao chão por correntes. A garganta coçou, como se algo estivesse arranhando suas paredes, desesperado por sair.
Suspirou e se levantou. Dirigiu-se ao refeitório. Seus companheiros faziam o mesmo, de forma disciplinada. Várias filas de uniformes azuis. Um rebanho de figuras indistintas. Pelo brilho em suas faces, percebeu que estavam a consultar suas próprias programações.
Checou a sua de novo. A agenda se materializou no campo de visão. Completamente lotada. Melhor começar. Automaticamente o implante ocular começou a projetar imagens. Com a habilidade de anos na função, usou um dos olhos para enxergar o caminho.
O outro estava focado em uma miragem de prazer. Um céu azul enquadrava a cena. Raios de sol dardejavam pelo firmamento. Um homem caminhava pela areia, com um cachorro ao lado. Aproximou-se de um quiosque na praia. Mal encostou no balcão, e foi atendido por uma criança sorridente.
O homem pediu, encostou o punho em uma tela e apanhou um copo colorido, caprichosamente decorado com pedaços de frutas e um pequeno guarda chuva. Uma voz interrompeu o idílio. Desfrute do que o Caribe pode oferecer. Repouse a mente e o corpo pela bagatela de quinhentos mil yuans virtuais.
Ele congelou o quadro. Procurou em suas listas. Encontrou dois ou três Esparciatas que estavam às vésperas das férias e encaminhou-lhes o anúncio. Ato contínuo, um novo vídeo começou a ser reproduzido. Algo relacionado a cassinos no balneário do lado oculto da lua.
Sua atenção ficou dividida entre uma loura descendo de um carro, deslumbrante em um vestido de gala, e o prato à sua frente, já vazio. Como sempre, ele ingeriu o café da manhã sem sequer perceber. Não importa. Produtividade. Um mantra. Seu deus. Inspecionou a lista de pendências. Ainda tinha seiscentas peças publicitárias a assistir.
2
Lisandro abriu a porta da sala. Acionou o interruptor e foi acolhido por uma luminosidade branca e mortiça. Ele poderia ter refletido sobre a acolhida fria. Mas não havia tempo para filosofar. O que existia era trabalho a ser feito.
Despiu o paletó e o colocou na cadeira. Retirou os óculos e se sentou. Sua mão direita tateou o tampo da mesa, enquanto os olhos se fixavam na projeção na parede. Um dispositivo biocomputacional saiu de um compartimento e cobriu-lhe o braço até a altura do cotovelo. Ao cabo de instantes o sistema liberou seu acesso.
Os tons da imagem passaram de vermelhos a verdes, enquanto os registros dos comandos apareciam em listas. Ele selecionou os padrões de monitoramento. Janelas apareceram. Observou as unidades processadoras de conteúdo, jocosamente chamadas de cordeiros. Checou se a movimentação de cada uma delas se encaixava no padrão do horário.
Tudo certo. Os uniformes azuis se movimentaram lenta e silenciosamente em direção à sala de máquinas. As cabeças peladas, brancas como barrigas de sapos, subiam e desciam no ritmo dos passos. Ele alterou a câmera a tempo de vê-los entrando no recinto amplo, cujas paredes eram revestidas com terminais. Poltronas postadas diante de cada um deles.
Lisandro caminhou mentalmente pelos ficheiros de parâmetros. Seus olhos perscrutaram as pastas e subpastas virtuais. Encontrou o diretório de sinais vitais. Os dados de todas as quarenta unidades, que compunham o coletivo denominado Lamm PCH12, materializaram-se diante dos seus olhos.
Uma rápida checagem mostrou que os batimentos cardíacos, níveis de glicose, colesterol, hormônios, saturação e de atividade mental estavam dentro do que se esperava. Ele precisava que os bastardos estivessem calmos e satisfeitos. Como cordeirinhos.
Que seus corpos moles e pálidos funcionassem perfeitamente. Que seus cérebros estivessem cem por cento absortos na infinidade de vídeos, anúncios, promoções e outras porcarias, com que eram bombardeados catorze horas por dia.
Ele se certificou, novamente, de que havia ingressado no sistema com seus dados pessoais. Feito isso, percorreu os caminhos digitais que levavam até a pasta da programação mental das unidades. Esferas verdes brilhantes se perfilaram. Qualquer problema as transmutaria em laranja e, em último caso, vermelho.
A mente de cada um dos indivíduos, pelo menos os daquele grupo, descortinava-se ao seu alcance. Bastava um comando e ele poderia investigar o que havia nas franjas mais remotas da existência particular de cada um. Não que ele desse a mínima.
Desligou o sistema de injeção, direta na corrente sanguínea, de alprazolam e dextroanfetamina. Feito isso, acessou o seu arquivo interno e apanhou o vírus. Embora fosse fruto de uma engenharia brilhante, era uma praga relativamente simples. Seu nome: inf@nc1a.r3g.
3
O desjejum terminara. No intervalo, ele assistira a dez vídeos. Cada um com trinta segundos ou menos de duração. Estava a começar o próximo quando luzes verdes se acenderam. Era o sinal tão aguardado. O momento da comunhão.
Voltou os olhos para as mesas ao lado. Seus companheiros também se agitavam. Olhos brilhando de antecipação. Sorrisos enrijecidos, cinzelados em seus rostos livres de pelos. Ele se levantou, não sem antes olhar para a bandeja de ração. Gostaria de poder comer mais, de sentir, de fato, o sabor.
Caminhou a passos curtos, seguindo o fluxo. Percorreram um corredor pintado de verde claro. Uma paisagem monótona, encimada por filamentos luminosos, que faziam as vezes da luz solar. Parte de sua mente estava nos vídeos e listas de Esparciatas. Mas sua maior porção apenas contava os passos. Aquela era a melhor hora do dia.
Fechou os olhos. Os pensamentos no domingo passado. O pastor no púlpito. Os punhos crispados, a expressão irada. A comunhão era o que os purificaria. O que os salvaria do esquecimento eterno e garantiria que aos dezesseis anos entrariam no paraíso. Somente a entrega absoluta os levaria a isso.
Uma porta branca se abriu. Cada um conhecia o seu lugar e, portanto, não houve hesitação. Ele se dirigiu ao seu locus communionis. Ajoelhou-se, mãos esticadas e tronco prostrado. Murmurou as preces que lhe haviam sido ensinadas. Pediu, do fundo do coração, que o contato com o divino o permitisse servir.
Sentou-se diante do terminal. Tubos deslizaram sobre a sua pele. Dois deles encontraram os esfíncteres e se conectaram. Outro se ligou a um cateter no braço direito. Uma máscara desceu sobre o rosto, encaixando-se nos lábios. De tempos em tempos, gotejaria água e sais minerais, que ele beberia sem notar.
Em uma batida de cílios, as projeções, antes restritas ao olho direito, foram amplificadas e reproduzidas na irrestrita tela da mente. Ele não mais via os anúncios. Não se limitava a ser um mero espectador. Antes, vivia-os plenamente e em detalhes.
Seus dedos sentiram o couro macio de um casaco. O cheiro rico e pungente de um motor a combustão lançou as garras em direção às suas narinas. O material sintético do capacete roçou-lhe as bochechas enquanto o campo de visão se estreitou. Uma voz masculina, rouca, arranhou os céus da consciência. Abrace as asas da liberdade. Pegue a estrada com uma TRIUMPH.
Ele entrou em transe. As sensações percorreram os nervos do seu corpo, velozes, incontidas. Ao cabo de segundos, o prazer se desvaneceu. A melancolia o atingiu como um soco. O estômago se contraiu. Ele sabia o que fazer. Percorreu a lista de Esparciatas avidamente. Selecionou sete potenciais compradores de motocicletas e enviou o anúncio.
Rangeu os dentes, ansioso. Qual seria o próximo vídeo? Seria algo que o fizesse se sentir tão vivo? Impaciente, tamborilou os dedos. Estava a ponto de chorar quando tudo se tornou breu. Ao fundo, letras brancas, brilhantes e incômodas, formaram uma mensagem indecifrável: inf@nc1a.r3g.
4
Orestes esfregou os olhos, que ardiam. Fazia horas que se debruçava sobre os relatórios e gráficos da sua empresa, Lakedaímōn Organical Systens Inc. Não que lhe causassem preocupação. Pelo contrário. Tudo ia bem.
Os pensamentos foram interrompidos por passos. Voltou-se e viu a cabeça loura do filho, Tisâmeno, correndo em sua direção. Sorriu e o abraçou. Inspirou o perfume de suas madeixas, recém lavadas, e, não pela primeira vez, sentiu-se enlevado. Transportado a um local de paz.
Colocou o garoto com cuidado no carpete espesso. Firmou-lhe o olhar, admirado com as suas íris escuras, em forte contraste com as escleras. Beijou-o nas bochechas, deu-lhe um tapa nas nádegas e o mandou para a cama. Sorriu consigo mesmo. Crianças.
Refletiu sobre a palavra. Involuntariamente, seu olhar se dirigiu para o porta-retratos dourado, que encimava o piano de cauda. A expressão sisuda e decidida do pai, Agamenon, encarava-o, imobilizada na fotografia. O homem que salvara a humanidade.
Através de seu terminal pessoal acessou o sistema de segurança. As imagens se formaram na parede a sua frente. Ele selecionou o diretório Lamm PCH12. Seu campo de visão se viu invadido pelos crânios raspados dos cordeiros, lado a lado. As faces congeladas, as bocas abertas, enquanto os olhos dançavam ao sabor das propagandas projetadas em suas mentes. Crianças apenas.
Décadas atrás, o mundo se encontrava em meio ao caos. As grandes companhias de tecnologia haviam vencido a luta por menos regulamentação. Imperava o livre mercado puro. Laissez-faire. Sem amarras, tomaram de assalto o mundo e as mentes. Todas.
A inteligência artificial, que controlava cada segundo das existências humanas, dependia de quantidades massivas de eletricidade. Os computadores avançados, que davam vida aos poderosos cérebros virtuais, demandavam minerais raros para seu fabrico. Os custos, em termos de energia e materiais, eram simplesmente insustentáveis.
Com os recursos do planeta se esgotando a um ritmo alarmante, a ameaça de um colapso pairava, como uma sentença de morte. Haveria uma alternativa? Agamenon Wannsee, seu pai, foi o idealizador da solução. Ele encontrou uma fonte de energia barata e inesgotável: Humanos.
A sociedade tecnofeudal já era dividida em castas. Esparciatas no topo, detentores da tecnologia. Bilionários hereditários, guerreiros de terno e gravata, envolvidos em contendas comerciais e mercadológicas, disputas industriais e de espionagem uns contra os outros.
E a base? A esmagadora maioria, os servos sem direitos, chamados Hilotas. Bastava treina-los para realizar as tarefas dos supercomputadores. Alterações genéticas foram inseridas, para que o tempo de maturação dos cérebros se resumisse a dois meses. Engenharia comportamental foi implementada na forma de uma religião, com o propósito de mantê-los dóceis.
Bilhões trabalhavam quatorze horas diárias, sem férias, salários ou direitos. Aos dezesseis anos, antes que pudessem criar problemas, eram executados. Seus corpos incinerados e transformados em energia térmica, que depois era convertida em eletricidade e utilizada para a manutenção dos criadouros de Hilotas.
Aquelas crianças eram gado, refletiu Orestes, que se postara diante da janela ampla, com vista privilegiada para a Kurfürstendamm. Um de seus engenheiros chegara a sugerir que fossem feitos experimentos, com o propósito de tornar a sua carne parecida com a de frango. Ele fez uma careta de desgosto. Elas ainda eram crianças.
5
As letras brancas sobre fundo preto deram lugar a um filme. Onde estavam as propagandas? O que acontecera? Como poderia ir ao paraíso sem a comunhão? Tentou se levantar, mas seus membros estavam atados à poltrona.
Foi inundado pelo pânico. A respiração vinha entrecortada e aos trancos. As costelas se moviam com tamanha violência, que parecia que se partiriam a qualquer momento. Arrepios percorreram sua espinha, como o deslizar de um animal repugnante. Ele não estava acostumado a sentir medo.
A contragosto, sua atenção foi captada pela cena que se desenrolava, projetada pelo terminal. Uma música suave tocava ao fundo, enquanto uma criança permanecia em pé, contra um fundo branco. Ao cabo de segundos, uma voz gutural abafou os acordes.
- Esse é você. Sua vida se resume à busca pela comunhão. Quatorze horas por dia, todos os dias, semanas, meses e anos. Será mesmo que o seu deus existe?
O pavor foi sendo substituído pelo desconforto. Aquilo não fazia o menor sentido. É claro que aquele era o seu propósito. Todos os domingos, durante aproximadamente uma hora, desde quando ele se recordava, as propagandas e catálogos virtuais eram substituídos pela palavra de deus.
Servir era o seu destino e fim. E somente por meio da entrega completa do seu tempo e da sua atenção ele poderia se tornar puro e merecedor do paraíso. Eram essas as promessas contidas nos livros sagrados.
- Esse poderia ser você, uma criança comum, amada, protegida, saudável e feliz. Alguém com pais, amigos, festas de aniversário, um animal de estimação.
A medida que as palavras iam sendo regurgitadas pelo narrador misterioso, imagens se materializavam e giravam em um carrossel infinito. Pareciam ser dele próprio, mas em uma realidade totalmente diferente.
Ele estava postado atrás de uma mesa, vestido com uma camiseta azul e uma calça de sarja. Seus cabelos estavam penteados de lado. Ele sorria e segurava um yorkshire terrier. Havia um bolo e uma vela. Ao seu redor, pessoas batiam palmas felizes. Era um aniversário. Ele já havia visto esse tipo de coisa em um anúncio de um restaurante.
- Não fosse por eles, você poderia ter isso e muito mais.
A festa foi substituída por um quarto. Ele estava em uma cama confortável. Sentia a maciez do cobertor. Brinquedos estavam organizados em uma prateleira. O cachorrinho ressonava, satisfeito, aos seus pés. A porta se abriu e uma mulher entrou e se sentou ao seu lado. Seus olhos castanhos faiscavam de ternura. Ele se sentiu feliz. Cerrou as pálpebras e sentiu os lábios cálidos a roçar as suas bochechas.
- Essa poderia ser a sua mãe. Mas você não a conheceu. Ela também é uma escrava, amarrada a uma maca, ligada a aparelhos. Ficará prenha a vida toda. De carne nova, que alimenta o moedor que mantém o mundo dos privilegiados em movimento. Até quando você caminhará como um cordeiro rumo ao abate? Até quando vai aceitar que a sua infância seja roubada?
O quarto se dissipou, como um sonho. Restou apenas o sabor amargo da certeza de que jamais experimentaria aquela alegria novamente. Pela primeira vez ele se sentiu furioso. Rilhou os dentes e forçou as amarras, que o mantinham preso à poltrona. Elas cederam e ele se viu livre para lutar. Um urro brotou do seu peito e se projetou para o mundo.
6
Lisandro assistiu impassível às cenas da rebelião. Sua missão também compreendia testar a eficácia do vírus. A julgar pela balburdia, que se descortinava em seu terminal, o experimento fora um completo sucesso. Restava, agora, infectar os outros criadouros e espalhar a praga.
Os cordeiros se movimentavam em frenesi. Alguns choravam, deitados em posição fetal. Outros depredavam os terminais de comunhão. Mãos, punhos e braços sangrando, alheios à dor causada pelos pedaços de plástico e vidro que procuravam destruir. Ele viu um deles arrancar o implante ocular com as próprias mãos.
Fodam-se. Saiu das câmeras e refez os passos no sistema. Apagou cuidadosamente os vestígios do que fizera. Desconectou-se da máquina e apanhou o paletó. Saiu a passos largos pelo corredor principal enquanto as sirenes de emergência enchiam o ar com seus lamentos.
No estacionamento, virou-se e olhou o prédio de concreto. Na porta havia um cartaz. Tecnologia humana. A ironia o fez sorrir. Ele se aproximou do carro. Encostou sua digital no sensor. As portas se destravaram. Abriu o porta-malas. Ao lado de um corpo, trajando terno preto, ele apanhou uma bolsa de lona.
Entrou no carro se trocou rapidamente. Abotoou a camisa, ajustou a gravata e colocou o quepe. Deu a partida e se orientou pelo sistema de GPS neural. Tudo o que precisava era inocular o vírus no sistema principal da empresa.
Ao cabo de minutos, estava em frente a um prédio elegante, na Kurfürstendamm. A rua mais bela de Berlin parecia em festa no lusco-fusco da tarde de primavera. Mulheres sorridentes, em vestidos multicoloridos, caminhavam despreocupadamente. Os Hilotas as atendiam, abriam-lhes as portas e cuidavam para que não lhes faltasse qualquer tipo de conforto.
Ele apanhou uma luva e a calçou. Continha uma reprodução biológica acurada da mão direita do chofer. Saiu do carro e se dirigiu à portaria de serviço. Inseriu o indicador direito no leitor e foi prontamente admitido. Sorriu para a servente detrás do balcão e acessou o elevador.
Uma vez no subsolo, caminhou tranquilamente em direção ao grande sedã preto, perfeitamente estacionado. Era um Mercedes-Maybach S 680. Ele o admirou por alguns instantes, embevecido com a sua imponência e requinte. Acessou o interior e se sentou no banco do motorista. Esperou pacientemente.
Duas horas depois, o interfone interno tocou. Era a secretaria. O senhor Wannsee iria descer. Pretendia ir até uma das unidades de inteligência humana em Friedrichshain. Ele apertou o botão de partida e deslizou pelo estacionamento, posicionando o carro próximo à saída do ascensor privativo. O motor V12 ronronava como um tigre satisfeito ao sol.
As portas de aço escovado se abriram, revelando um homem alto, atlético, ligeiramente bronzeado e perfeitamente escanhoado. O terno inglês assentava-lhe bem. Acenou com a cabeça. Conversava com alguém ao telefone. Algo sobre uma crise em uma das unidades da empresa. Ele se acomodou no banco de trás. Suas palavras altas e claras nos ouvidos de Lisandro.
- E vocês não sabem o que aconteceu com essa unidade? Todos os cordeiros em estado de violência? Mortes? Mas e o sistema de sedação? Não funcionou? Eu entendo. Bom, infelizmente temos que lidar com isso. Ok. Vou emitir a autorização para que o Grupo Lamm PCH12 receba tratamento especial. Sim, vou entrar no ambiente agora mesmo.
O homem se inclinou e inseriu a mão direita na conexão neural particular, existente no console do veículo, logo à sua frente. Lisandro apanhou a pistola com o silenciador. Essa era a sua oportunidade de ter acesso irrestrito ao sistema da empresa. Precisava propagar o vírus. Fora pago por uma concorrente para isso. Virou-se para trás, por sobre a divisória e fez mira.
7
Impasse Mexicano. A palavra se formou no cérebro de Orestes em um átimo de segundo, como o estalar de um chicote. Seus olhos se fixaram no cano da arma. Hipnotizados. Estáticos ao ponto de a imagem ir se desfocando aos poucos.
Ele ergueu as mãos. Um gesto universal de rendição. Impasse Mexicano? Não. Ele não estava armado. O que significava, pura e simplesmente, que sua vida pendia na balança da incerteza. Dependente de um dedo roçando um gatilho.
Até então ele se sentira seguro. Estava dentro de sua limusine, conduzida pelo seu motorista particular. Pelo menos era o que pensava. Seus ouvidos captaram o ruído do movimento do cão da arma. Lento, porém inexorável.
Fechou os olhos com força. Pensou no filho. Onde estaria ele? Na escola? Como reagiria à notícia de sua morte? Ele era apenas uma criança. Crianças. Um disparo interrompeu seus pensamentos. Para sempre.
Temas: Trabalho Infantil e Praga.