O Rei da Fome
O Rei da Fome
No coração das ruínas de Galdoran, onde o tempo esqueceu de passar e os ventos uivavam como almas condenadas, havia um trono esquecido. Seu dono, o Rei da Fome, nunca abdicou.
Ele não era feito de carne. Aqueles que ousavam pisar naquelas terras descreviam-no como um espectro envolto em trapos escuros, com uma coroa de ferro retorcido enterrada no crânio descarnado. Seus dentes, amarelados e longos como os de um lobo, sempre expostos num sorriso que não conhecia alegria.
A lenda dizia que ele já fora um homem, um rei orgulhoso que selou um pacto com os Devoradores para que seu reino nunca passasse fome. O preço? O próprio rei jamais se saciaria. No começo, ele apenas sentia fome constante, insuportável, mas suportava. Com o tempo, começou a devorar seus servos, seus soldados, seus conselheiros. Mas a fome nunca passava. Quando já não restava mais ninguém no reino, ele voltou-se para si mesmo. Arrancou a própria carne dos ossos, pedaço por pedaço, mas, mesmo assim, não encontrou alívio.
Agora, ele é apenas um eco distorcido daquilo que foi, preso entre o mundo dos vivos e o dos mortos, gargalhando entre murmúrios de fome insaciável. Dizem que, à noite, quando o nevoeiro cobre as ruínas, pode-se ouvir o som de dentes rangendo, e se alguém olhar diretamente para a escuridão sob a coroa, verá o abismo de sua boca se abrindo, sugando tudo para dentro.
E o pior? Aqueles que o encaram por tempo demais acabam sentindo uma fome terrível... uma fome que nunca passa.